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A contagem do número de pobres no Brasil

23/12/2004

Artigo escrito por Ricardo Neves para Update News, dezembro de 2004

O que há de comum em todas as notícias que trazem diagnósticos desoladores acerca do tamanho da pobreza no Brasil? Todas as pesquisas atuais que embasam a quantificação da pobreza seguem um padrão mundial de inferência da riqueza dos indivíduos que têm na sua raiz um problema metodológico. Essas têm levado tanto os governos nacionais e os órgãos multilaterais, como o Banco Mundial e ONU, quanto a imprensa a não entender o que está ocorrendo e a superestimar de forma grosseira o tamanho da probreza.

Quando se fala em miséria, costuma-se usar como quantificador a renda mensal per capita, e são considerados abaixo da linha da pobreza aqueles que têm renda de menos de US$ 1 por dia. O governo brasileiro tira seus dados relativos a renda de três pesquisas do IBGE: a da Censo, feita a cada dez anos, ou então a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar) e a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar). Para encurtar uma longa história de detalhes metodológicos, no fundo, em todas elas, a renda é apurada a partir de uma declaração espontânea, sem necessidade de comprovação, de um representante do domícilio ao qual é perguntado “quanto ganha mensalmente”.

Informalidade desfoca pesquisas

Qualquer pesquisador de mercado sabe que renda declarada sempre é menor do que a real. É como perguntar a idade de senhoras mais velhas. Porém, mais grave, a questão torna-se mais complicada devido à informalidade: maior a economia informal, mais inacurados os dados de renda obtidos. Por quê? Praticamente todos que vivem no trabalho informal têm rendimento inconsistente para afirmar que percebme um padrão mensal. Ora, no Brasil 52% dos trabalhadores não têm carteira assinada. Daí...

Por essa razão é que as pesquisas de mercado realizadas para empresas usam indicadores de consumo no lugar de renda. É muito mais confiável, pois mais tangível e menos desconfortável para o sigilo do entrevistado, responder se tem DVD ou videocassete, se tem um ou dois aparelhos de TV, de falar se tem ou não plano de saúde, carro, escolaridade, do que falar sobre sua renda mensal.

Linha da pobreza é um alvo móvel

A linha da pobreza, assim como a linha da afluência e da riqueza, é um alvo móvel na história da humanidade, que vem sofrendo uma aceleração vertiginosa nas últimas décadas. É só comparar a evolução dos padrões de consumo de domicílios em favelas cariocas nos últimos 25 anos: a posse de microondas passou de zero para 22% dos domicílios, carros para 14%, videocassete para 48%, lavadora de roupas para 48%, telefone celular para 58%, equipamento de som estéreo para 79%, a TV em cores para 98%; e que os padrões da moradia também subiram vertigionamente: alvenaria, de 37% para 97%; luz, de 48% para 96%; água, de 29% para 96%. A miséria não habita mais a favela. Ela está exposta nos principais logradouros, nos centros das cidades.

Nós, brasileiros, gastamos quase vinte anos para entender e vencer o dragão da inflação. Nossa agenda agora é enfrentar sem trégua a informalidade, que deve ser encarada como um câncer em processo de metástase. Países com alto grau de informalidade transformam-se em sociedades regidas pela Lei de Murici, isto é, cada-um-por-si. Nações são feitas por sociedades que expressam um alto grau de consenso e convergência de interesses, com prioridades claras, reguladas por leis e obrigações, as quais a maioria dos cidadãos entende, concorda e busca cumprir.

Ricardo Neves, consultor de marketing e estratégia, é autor do livro Copo Pela Metade

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