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Opinião

Conrado Kallas e Rafael Georges *
Sobre sorrisos, cimento e borboletas
25/08/2006
Para comemorar  os dez anos do programa de líderes, que anualmente encaminha os integrantes para um mês de estágio na capital dos Estados Unidos,  recebemos uma proposta bastante interessante por parte do CEO da Amcham, Arthur Vasconcellos: por que não substituir a já consagrada viagem para Washington por algo diferente e mais desafiador?  

A partir de então não tínhamos mais destino. Restou-nos apenas a provocação que nos levou a algumas semanas incessantes de busca.

Vasculhamos sites, brochuras, opiniões e idéias à procura de algo que fosse realmente fazer a diferença. Oras, e em tempos em que só se fala de Índia, China,  América Latina, União Européia e Estados Unidos, por que não ir à África? Sim, África.

Desde então, a questão passou a ser a seguinte: de que forma a Amcham se beneficiaria com o trabalho voluntário de dois estagiários em uma vila no interior de um país africano? Não tínhamos a resposta, mas sabíamos que no mundo corporativo, onde reinam a produtividade e o relacionamento, migrar para o universo subjetivo e de retorno intangível seria, no mínimo, perigoso. Decidimos mesmo assim correr o risco.

Ao desembarcar na ex-capital Dar es Salaam , a sensação era de estarmos dentro de uma ficção. E não estamos falando daquele pré-conceito da África miserável, com urubus sobrevoando crianças de pele e osso, mas sim de uma realidade completamente distinta dos conceitos modernos.

Após uma rápida ambientação com o desconhecido, o mundo de lá obrigava-nos a deixar qualquer referência de tempo, valor, preocupação ou padrão para trás. Para  vivermos a realidade da vila de Nkunikana, reduto de um mundo paralelo, era fundamental chegar de peito aberto. Começou-se aí uma vida nova. Passamos a ser autores de nossa própria peça, diante de uma folha de papel em branco.

E, sem dúvidas, os sorrisos deles, tão brancos quanto nossos novos pensamento, impressionavam-nos. A facilidade e a freqüência com que brotavam daquele povo receptivo era intimidadora. A premissa de evitar criar problemas e necessidades, e enfrentar com naturalidade quase ingênua os obstáculos naturais, demonstrava-nos, a cada dia, a simplicidade com que se pode viver.

A verdade é que no interior da Tanzânia, no silêncio da madrugada de Nkuninkana, os pais das numerosas famílias daquele lugar não perdem tempo quebrando a cabeça pensando em soluções para problemas sociais ou nas diferenças entre os dois mundos – o nosso e o deles . A atenção daqueles homens está voltada para problemas como a falta de energia que impede o amplificador da igreja de funcionar no culto de domingo. Oras, e não estamos falando de alienação. Claro que eles levam a vida a sério. Mas quem sabe, inconscientemente, eles tentem pelo menos não criar novos problemas.

A rotina de cimento, tijolo, água de poço, carvão e ovos fritos dava-nos o gosto da completa independência de luxo e conforto, mas também nos mostrava, com despropósito, as facilidades que a produtividade do mundo de cá nos proporciona.

De qualquer maneira, os conceitos se mostravam bastante relativos  a medida em que entendíamos os porquês das circunstância outrora inaceitáveis. Crianças empunhando enxadas antes mesmo de irem à escola não nos parecia mais tão assustador, uma vez que compreendíamos que o espírito coletivo era um dos pilares de sustentação daquela sociedade. O público e o privado se confundiam. E se engana quem considera infeliz o povo do lado de lá. Oras, o que é ser feliz? É ter?

No mundo de lá, ninguém nos pareceu, com exceção de alguns, interessado em entrar na corrida. Era bacana ter contato com as novidades trazidas pelos Mzungu – na língua deles “homens brancos”-, que chegavam, como nós,  com câmeras e tabletes de cloro. No entanto, no fundo parecíamos, aos olhos deles, todos bárbaros nos gestos.  

Engraçado pensar que durante todo este período na Tanzânia, éramos nós os bárbaros. Pertencíamos a outra cultura, outros costumes e outra organização política. Nós, que sempre aprendemos que o homem branco ocidental fora predestinado a civilizar os povos de lá, éramos tidos como estranhos.

No dia 27 de julho, acordamos às 6h30 e acendemos o fogareiro para o café-da-manhã.  Nossos ombros doíam, os corpos doíam, resquício dos dias anteriores, das numerosas viagens entre o poço e o local da construção da casa para professores – 1km, mais ou menos -, puxando carro-de-boi, com latões cheio d’água. Era nosso último dia e já olhávamos, para tudo, com olhos de saudade.

Hoje, ainda, é difícil delinear as mudanças que nos causou os dias vividos na Tanzânia. Não podemos dar corpo aos sentimentos, porque faze-lo eliminaria toda essência. Sem dúvidas muita coisa mudou, ainda que só descubramos mesmo o real significado em 20 anos. Sabemos, porém ,o que deixamos do lado de lá: nós, os Mzungu, deixamos algumas roupas, uma obra concreta e a esperança de voltarmos mais uma vez com novidades deste outro planeta.

À Amcham e às nossas carreiras profissionais? Conhecer e saber compreender o que está à nossa volta, principalmente as diferenças, são fundamentais para tornar-se líder. Assumir posição de vanguarda requer um pouco de todos os sentimentos que nos motivou a ir com o risco de errar, testar e, com  boa vontade e um pouco de sorte, aprovar.

*Conrado Kallas e Rafael Georges são líderes de comitês da Amcham.
E-mail: Conrado - conrado.kallas@amchambrasil.com.br  e Rafael - rafael.georges@amchambrasil.com.br

 

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