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Opinião

Fernando Blanco *
Brasil do grau de investimento
07/07/2008
A elevação do Brasil a grau de investimento pela Fitch Ratings e pela Standard & Poor's chancelou de vez a nossa entrada para o restrito clube de países mais seguros para investimentos globais. Atingimos a maioridade aos olhos de grandes e conservadores investidores internacionais, como seguradoras e fundos de pensão que só investem em países classificados como grau de investimento por pelo menos duas agências de risco. Mas comecemos pelo começo, que é só alegria! Salvo alguma hecatombe econômica de dimensões globais, viveremos o mais virtuoso momento de nossa história econômica - e porque não também no lado social? Detalhando, temos:
 
Por enquanto - enfatizo: por enquanto! - o valor dos ativos brasileiros está barato em relação ao de outros países. Em função disto as ações de empresas brasileiras serão mais procuradas, o que levará a um aumento de valor destas e novas emissões primárias e secundárias. O mercado financeiro também ficará mais líquido em função da entrada de novos investidores de renda fixa, que se deliciarão com a taxa real de juros aqui praticada. Outra conseqüência é que o credito continuará aquecido no Brasil. Fundos de private equity aumentarão o seu apetite por adquirir empresas brasileiras. O nosso poderoso agronegócio tirará vantagem da crescente oferta de financiamentos externos com prazos mais longos e custos mais baixos. E o governo - independentemente de quem vença as eleições 2010 - manterá, ou ampliará seu esforço para erradicar a miséria no país e inserir novos brasileiros no mercado de consumo.
 
É a própria Pororoca do Capitalismo Brasileiro! São as águas da confiança internacional, despejando dólares a rodo em nossa economia, se encontrando com as águas do nosso desenvolvimento reprimido, devidamente turbinado por crédito bom, longo e, bem, não tão barato.
 
O lado macroeconômico, portanto, está e continuará bem. É na microeconômia, porém, que grandes desafios se materializarão. O primeiro deles é a inflação. Esta já ronda perigosamente o Brasil e o mundo. Lá fora a inflação é de demanda, pois é motivada pelo aumento de consumo e investimentos de países como China, Índia e outros que agem como rêmoras, turbinando preços de alimentos e matérias-primas em geral. Por aqui, o fenômeno se dá - e tende a piorar - por conta da combinação de demanda igualmente aquecida (graças à crescente renda salarial e crédito abundante), somada à "inflação importada". Seria engraçado se não fosse trágico o fato que boa parte dos produtos que tem preços em alta é fabricado no Brasil, mas como estamos falando de "tradable goods", não há muito que se possa fazer.
 
Estamos falando, portanto, de inflação de demanda, que só se debela com aumento da capacidade de produção, ou com a pouca simpática alta das taxas de juros. Não há dúvida que as condições macroeconômicas estão dadas, mas a sustentabilidade deste modelo dependerá fortemente do fator oferta.
 
Esta pressão inflacionária já existe e o Banco Central já inverteu a tendência de queda da Selic. A história mostra que nosso Banco Central não brinca com inflação. Viveremos, portanto, o paradoxo de termos juros altos com liquidez alta.
 
O empresariado vai estrilar com a alta da Selic e sobrarão manchetes sobre o tema, afinal, juro real alto é coisa de país quebrado e não de país investment grade. Sorte de quem estiver do lado investidor, que ganhará muito com baixíssimo nível de risco!
 
O câmbio talvez seja o maior desafio a ser enfrentado pelo Brasil. A questão é econômica e cultural. Como todo país emergente com crise crônica na balança de pagamentos, ao longo de décadas o Brasil conviveu com uma moeda fraca, sempre à busca de um sólido superávit na balança comercial que compensasse o mega déficit na balança de serviços - cortesia dos juros da dívida externa.
 
Agora mudou. Países com grau de investimento, principalmente "os novatos" que ainda estão baratos, ao se tornarem pólos receptores de investimentos externos, passam a ter suas moedas valorizadas - sim, o Real vira moeda forte, desta vez com bons fundamentos macroeconômicos!
 
Certo, mas então veremos a cotação do dólar derreter frente ao Real? Não, até porque ser grau de investimento também significa se internacionalizar. E muito! Afinal, a combinação de moeda forte e oferta de crédito longo e barato (no mercado internacional), favorece enormemente este movimento. Empresas como Vale, Gerdau, Embraer já trilham este caminho já tempos e com sucesso. Outras não tão gigantescas, como a paulista Romi, que está comprando uma empresa na Itália, vão segui-las!
 
A ratificação do nosso grade BBB é para ser comemorada, mas ela não significa bonança para todo mundo. Teremos muitas mexidas microeconômicas e quem não se ajustar rapidamente sofrerá. Concluindo, que tal um pouco de numerologia? Eu aposto na seqüência 1 5 0. E não me assustarei se, em 12 meses, tivermos que conviver com as seguintes cotações: R$/US$: 1,50; Selic: 15,0 % a.a.; Crescimento econômico: 1,50% menor que em 2007; Preço do barril de petróleo: US$ 150.
 
* Fernando Blanco é presidente da unidade brasileira da seguradora Coface, líder mundial em seguro de crédito.

 

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