Tudo que sua empresa precisa saber para valorizar de verdade as vidas negras na prática

publicado 11/06/2020 12h50, última modificação 11/06/2020 12h50
Brasil – Sair da bolha de recrutamento, ter líderes negros e conscientizar os colaboradores são ações para construir equidade racial nas organizações
diversidade empresarial racial nas empresas.jpg

Iniciados nos EUA, os recentes protestos com o tema ‘Vidas Negras Importam’ acenderam a discussão sobre racismo no mundo inteiro. Além de pessoas, muitas empresas se posicionaram a favor do movimento, mas, para ver a mudança acontecer de fato, deve haver coerência entre o que é falado e o que é praticado – e isso inclui também as organizações.

Na prática, existem várias maneiras das companhias valorizarem as vidas negras para além dos posicionamentos nas redes sociais. Por isso, reunimos dicas com base em diversos materiais que já produzimos sobre o assunto para ajudar as empresas a seguirem o caminho para construir a equidade racial:

 

UMA LUTA DE TODOS

Segundo Thiago Amparo, professor de políticas de diversidade e inclusão da FGV, combater o racismo é tarefa de todas as pessoas. “Sabe aquela conversa na festa de Natal, que o seu tio chato do WhatsApp fala alguma coisa racista e você fica quieto para não ter que discutir com ele? Então, não fique quieto e diga que ele está sendo racista. Esse é o lugar do branco nessa luta”, afirma o especialista que esteve presente em nosso Comitê de Diversidade em março de 2019.

Sabendo disso, inicialmente, é preciso reforçar ou explicitar internamente a mensagem de que a empresa não aceita práticas de discriminação racial e que combate o racismo. Outra dica, presente no nosso e-book Diversidade racial: como promovê-la e como ela pode contribuir para o seu negócio’, é ampliar a capacidade dos canais de reclamação de lidar com situações de racismo e injúria racial. Também é preciso saber acolher denúncias e encaminhar adequadamente os problemas.

Realizar campanhas de sensibilização durante todo o ano e não apenas em datas importantes para a comunidade negra como o 21 de março (Dia Internacional contra a Discriminação Racial) e o 20 de novembro (Dia de Zumbi dos Palmares – Consciência Negra) é outra forma de promover a conscientização de todos os colaboradores.

Por fim, constitua um grupo de afinidade sobre diversidade racial. Ele tem foco na questão do negro, mas pode envolver outras situações relacionadas ao racismo e à discriminação racial. Grupos de afinidade têm como papel principal contribuir para que a empresa lide melhor com o tema, faça análises melhores da situação e proponha soluções interessantes para todos.

 

A FAMIGERADA BOLHA

Estar em uma bolha nos impede de enxergar além. Assim funciona em várias situações, incluindo o recrutamento de funcionários. “Empresas, vamos falar a verdade. Quais são as faculdades que vocês chamam aqui em São Paulo? USP, Mackenzie e PUC. Vocês não vão encontrar diversidade de pensamento e de classe lá”, afirma a empresária e ativista Monique Evelle, no Fórum de Diversidade em novembro de 2018.

Para o professor da FGV, o networking perpetua, muitas vezes sem querer, a discriminação. Desta forma, para promover igualdade, é possível contratar profissionais negros por meio de agências especializadas, como o EmpregueAfro, por exemplo. Monique lembra: “As empresas têm que circular em ambientes de diversidade, de fato”.

A ativista comenta ainda que a baixa renda e lacunas na formação são realidades para os negros, geralmente moradores de bairros periféricos e violentos. Quando uma empresa anuncia vagas para esse público em processos tradicionais, terá naturalmente uma receptividade baixa.

Thiago também sugere promover capacitação profissional. “Se um estagiário negro é bom, mas não fala inglês, por que não dar um curso a ele?”, indaga. É importante oferecer capacitação contínua.

 

DESPROPORCIONAL

A população negra é maioria no Brasil, mas não tem a mesma representatividade nas empresas e sociedade, segundo José Vicente, fundador e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares (FAZP). “A falta de inclusão é provocada por um racismo pior que o da África do Sul e dos Estados Unidos” atesta o reitor, que esteve presente em nosso Fórum de Diversidade em 2018.

Assim, ter apenas um executivo ou funcionário negro não basta para incluir a diversidade no ambiente corporativo. A falta de representatividade também pode ser uma dificuldade para o profissional. É o que contou a o vice-presidente de Finanças da Bayer para a América Latina, Maurício Rodrigues, também durante reunião do Comitê de Diversidade e Inclusão. “O principal dilema que eu vivenciei por muito tempo foi o fato de ser único nos lugares que frequentava”, comenta.

José aponta ainda que, até o momento, nenhum programa governamental ou empresarial aumentou a inclusão dos negros: “Quando significou, é para entrar no estágio, no jovem aprendiz e pronto, acabou. Não tem desenvolvimento, não vai para lugar algum e você não sai desse número de 1% a 2% de negro no mercado de trabalho ou dentro da empresa”.

 

LÍDERES SÃO REFERÊNCIA

Outra questão levantada por Monique é a pouca liderança negra nas corporações: segundo o relatório “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado em 2019 ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas 30% ocupa cargos de liderança no Brasil. Segundo Thiago, quanto mais profissionais negros conquistarem posições de influência, maior serão as referências para outros profissionais.

Para a ativista, o mais importante não é a empresa contratar profissionais de diversidade, é dar condições efetivas para que mais deles tenham oportunidades de fazer carreira e liderar - o que ela chama de proporcionalidade. “Diversidade existe nas empresas. É só olhar para o porteiro e o jovem aprendiz. Mas eu (que sou negra) quero me sentar com diretores e diretoras que estão lá. Quero ser essa pessoa que assina, mas não quero ser a única. É por isso que falo da proporcionalidade”, expõe.

Algo em comum entre todas as organizações que começaram a mexer em seus pilares relacionados à diversidade é a realização de um censo, a fim de detectar onde estão as pessoas negras, em que cargos e há quanto tempo. A partir dessas informações, é possível perceber onde a organização deve atuar: se em atração, retenção ou desenvolvimento de carreira. Essa é uma das seis dicas presentes em nosso e-book Construindo equidade racial na liderança.

 

Para ver mais material sobre inclusão, veja as matérias relacionadas abaixo: