Governança ganha ainda mais relevância para acessar mercado de capitais

publicado 26/02/2016 11h03, última modificação 26/02/2016 11h03
São Paulo – Gestores de fundos debatem contração de dívida em tempos de restrição de crédito
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A restrição de crédito nesses tempos de crise deu ainda mais peso à demanda por governança, afirmam gestores de fundos que participaram do Seminário Otimização da Estrutura de Capital e Dívida da Amcham – São Paulo, quinta-feira (25/02).

O desempenho das empresas se deteriorou, desde 2011, com queda do lucro líquido, poupança e investimentos. Houve redução dramática da taxa de retorno de capital investido, abaixo do custo médio de capital, com um simultâneo aumento do endividamento, relata Carlos Rocca, diretor do CEMEC (Centro de Estudos de Mercado de Capitais) do IBMEC.

Na sequência, houve restrição intensa do crédito bancário e a perda do investment grade, elevando custos e as dificuldades de acesso ao mercado internacional. As SA’s passaram a recorrer ao mercado de dívidas.

“As empresas estão num cenário complicado: as grandes ainda conseguem acessar o mercado, mas o que está gerando paralisia é que as grandes não têm mais o mesmo custo que do período de grande fluxo e as condições que o mercado exige são maiores que há dois ou três anos”, resume Reinaldo Le Grazie, CEO do Bradesco Asset Management.

Para ele, o mercado de capitais e os grandes emissores de papeis estão em “DR” (discussão de relação). O primeiro dá ao emissor dinheiro mais barato que o crédito bancário e não pede garantia, mas exige covenants (itens contratuais). “O que você quer fazer com o dinheiro? Quanto vai ter de dívida? Se passar disso, vai ter custo, etc”, exemplifica.

Quando os covenants estouram, a renegociação é difícil, diz. A saída é a governança em alta conta. “Para ter acesso a mercado de capitais, faça investimento em governança, transparência. Para acessar o mercado onde é mais barato, são necessárias auditoria externa e casa arrumada”, afirma.

Bruno Constantino, sócio do Grupo XP, vai na mesma linha. Diz que é preciso ter criatividade para acessar o mercado e que há formas de fazê-lo mesmo num cenário de crise longa, mas de olho no rating.

“As empresas têm de fazer o dever de casa. O rating vai ser importante, como um duplo A pra cima”, declara. “Mas tem investidor interessado, tem demanda”, avisa.

Reperfilamento de dívida

Os bancos estão ainda mais conservadores e o que há não é crédito novo, mas renegociação, ressalta Hitosi Hassegawa, especialista em estruturação de renda fixa. O problema, destaca, é que na rolagem pedem-se mais garantias. “Há muita quebra de covenants e os bancos pedem mais garantias para aceitar”, diz.

As instituições estão mais criteriosas com o compliance das empresas, a formalização de documentos está mais rigorosa, e os dados de balanços das empresas precisam ser constantemente atualizados para análise de risco. “Cada mês é um cenário”, pontua.

No entanto, há a alternativa de reperfilamento de dívida, indica Hassegawa. Os bancos também têm problemas internos, que são as provisões. Estão mais flexíveis em tentar ajudar empresas no reperfilamento de dívida”, cita.

O seminário

O evento contou também com Laura Mattos, chefe do departamento de Operações Estruturadas do BNDES, que detalhou o programa de crédito para pequenas e médias empresas.

Gestores de fundos também discutiram como levantar capital em momento de restrições no mercado. Participaram Carlos Miranda, sócio da BR Opportunities; Paulo Mordehachvili, sócio do Axxon Group; Ricardo Kanitz, sócio da Spectra Investimentos; e Wilson Rosa, sócio da Advent International. Claudio Furtado, coordenador do GVcepe (Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital) da FGV/EAESP, moderar esse debate.

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