Alimentos são área que oferece maiores oportunidades para Brasil ampliar vendas à China

por marcel_gugoni — publicado 27/11/2012 17h42, última modificação 27/11/2012 17h42
São Paulo – Consumo interno chinês deve crescer de forma constante, e empresários brasileiros devem aproveitar chance de diversificar pauta de exportação com produtos de maior valor agregado.
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A China tem um mercado consumidor de 1,3 bilhão de pessoas, entre as quais mais da metade já é predominantemente urbana. Apesar de sua enorme capacidade de produção industrial e exportação de bens manufaturados, o gigante asiático mantém uma forte demanda por alimentos, setor que oferece algumas das maiores oportunidade comerciais para as empresas brasileiras.

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“A China é uma potência que vai manter seu crescimento baseado em consumo interno”, afirmou Carla Santos, analista da unidade de Inteligência Comercial e Competitiva da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Importações (Apex Brasil). “A população urbana já superou a rural, e hoje mais de 140 milhões de lares são de famílias da classe C.”

Os desafios e as oportunidades do mercado chinês ao Brasil foram debatidos no comitê aberto de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (27/11).

Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que, em 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 9,2%, mesmo em meio à crise internacional. Naquele ano, o gasto do consumidor chinês subiu 26,8% enquanto os principais países compradores dos produtos chineses viam retração econômica.

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Entre 2010 e 2011, a economia chinesa avançou 10,4% e 9,2%; enquanto consumo cresceu 15,7% e 14%, respectivamente. “O crescimento do consumo é constante na economia chinesa e, com o aumento visto na renda, principalmente da classe média e dos operários, há um grande potencial de aumento de importação de alimentos [pela China]”, afirma Carla.

A perspectiva do FMI é de que o PIB continue avançando a uma média de 8,3% ao ano entre 2012 e 2015. Apenas como comparação, a economia brasileira tem 193 milhões de habitantes, com pouco mais da metade na classe média. Em 2011, o País cresceu 2,7%, e tende a manter uma média de crescimento de 3,5% anual nos próximos três anos.

Alimentos e bebidas

O Brasil é o sexto maior fornecedor de produtos para a China, com uma pauta de exportação baseada em minério de ferro (44% do total exportado em 2011), soja (24,7%), petróleo (11%), celulose (2,9%) e açúcar (2,6%). Para a analista da Apex, o mercado de alimentação oferece o maior potencial de melhoria dessa lista de produtos.

“Vemos a demanda de soja aumentando ainda mais. O país importou 61 milhões de toneladas de grãos em 2011, e 80% disso foram de soja”, diz.

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O enorme contingente populacional e o aumento da renda dos trabalhadores geram uma melhora na dieta, com acréscimo de mais proteínas. A previsão da Apex é de que o consumo de carne bovina e de frango deva crescer 50% até 2020, enquanto o de carne suína tende a ficar em torno de 30%.

Para os exportadores brasileiros, a oportunidade de ampliar negócios com carne implica em elevar também a transação de farinhas e grãos que estão na base da alimentação animal. “A China possui 20% da população mundial, 10% da terra arável e apenas 7% da água potável do mundo. Além disso, a urbanização reduz ainda mais água e terras disponíveis para agricultura.”

Há também grande potencial de ampliação de venda de sucos e outras bebidas industrializadas. “O consumo de sucos foi de 15 bilhões de litros em 2011, e deve alcançar 26,8 bilhões de litros até 2016. O Brasil é o maior fornecedor de suco de laranja, mas exporta pouco de outros sucos para o mercado chinês.”

O café também tem grande potencial para entrar na pauta chinesa. “O consumo de café fresco cresce especialmente entre jovens e funcionários de escritórios”, analisa a especialista. O chinês consome, em média, 0,1 kg por pessoa ao ano. No Brasil, esse consumo é de 46 kg por pessoa.

Para Carla, o consumo de vinho e cachaça do Brasil também é grande foco de oportunidades de negócios. “Hoje a China é o 5º maior mercado de vindo do mundo, onde marcas estrangeiras viraram símbolo de status”, aponta. “De 2005 a 2010, o consumo de vinhos na China cresceu 72,8%, alcançando quase 3,5 bilhões de litros [no período].”

Valor agregado

O mercado chinês demanda produtos de luxo, principalmente moda. “A moda também está relacionada ao aumento da renda dos chineses”, explica Carla. Para ela, mercados como o de calçados de couro e roupas de luxo, de pedras preciosas e bijuterias e até de jóias e metais preciosos oferecem grande potencial.

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A mensagem é uma só: o Brasil não deve tentar competir no mercado chinês com preço, mas com maior diferenciação de produtos. Camila Moura, gerente de Comércio Exterior da Amcham, que também participou do evento, aponta que o foco do empresariado brasileiro deve ser conhecer o mercado chinês.

“Eles já estão entre os maiores consumidores de luxo do mundo. O consumo vai crescer e, falando de mercado chinês, os números são sempre relevantes em termos absolutos.”

Em outubro, Camila liderou uma comitiva de empresários brasileiros organizada pela Amcha, que visitou feiras de negócios e fábricas chinesas em busca de parceiros de negócios e oportunidade de parcerias.

Um dos empresários que participaram da viagem foi Douglas Bermeijo, diretor de Tecnologia e Produtos da Control Informática, empresa voltada para negócios e gerenciamento de dados de produção e distribuição. O executivo integrou a missão da Amcham buscando um produto específico na China: um tipo de rastreador capaz de calcular rotas de transporte logístico para caminhões.

“Conheci oito empresas na Canton Fair [uma das maiores feiras multissetoriais do mundo], saí de lá com cinco visitas agendadas, gostei de duas fábricas e fechei negócio com uma”, relatou ele. “Ver a fábricas das empresas mostrou que é importante ter o face a face.”

O contraste era aparente: ele conta que viu um estande atrativo de uma empresa na feira, mas cuja planta de produção era precária, apesar do preço barato. “Na companhia com que fechei negócio, em dois dias me foi oferecido um protótipo exatamente com o produto que eu buscava”, adianta ele.

Karla Miranda, gerente de Comércio Exterior da The Marketing Store, também participou da missão da Amcham à China. Ela trabalha na área de produtos da empresa, que tem clientes como McDonald’s, Kraft Foods e Shell, e revela que a viagem ajudou a prospectar parceiros comerciais para produzir brindes e brinquedos.

Fica a lição: “é preciso fazer um bom trabalho de identificação e seleção de parceiros porque na China podemos encontrar tanto produtos muito bons quanto muito ruins”, afirma ela. No caso dos brindes para os lanches do McDonald’s, ela exemplifica que um “produto ruim” seria aquele que solta peças que correm o risco de ser engolidas pelas crianças.

“Apesar disso, a capacidade de customização é total”, reconhece. Para ela, em poucos dias é possível obter exatamente o que se quer nas empresas chinesas.

Sobre esse trabalho de busca de parcerias, Camila, da Amcham, reforça a necessidade de buscar os parceiros pessoalmente para que haja negociações seguras e claras, e diz que a flexibilidade e a capacidade de produção locais são pontos positivos. “O empresário brasileiro, ao negociar na China, precisa persistir porque lá tudo é possível, mas nada é fácil.”

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