Azambuja: “é urgente esperar” para aprofundar relações bilaterais entre Brasil e EUA

publicado 19/09/2017 15h01, última modificação 19/09/2017 15h41
São Paulo – Embaixador acredita que escalões intermediários da administração dos países devem conquistar mais avanços do que a alta liderança
Marcos Castrioto Azambuja

"É mais provável que do encontro [entre alta liderança de Estado] surjam mais divergências do que convergências", defende o conselheiro do CEBRI

Marcos Castrioto Azambuja, embaixador e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), acredita que as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos devem ser tocadas pelos escalões intermediários da administração de cada país e do empresariado. Durante participação no Seminário Relação Bilateral Brasil – EUA da Amcham – São Paulo, realizado na sexta-feira (15/9), Azambuja salientou que o encontro da alta liderança nos países pode trazer mais conflitos e riscos do que promessas.

“Não são questões que reclamem nível presidencial. É mais provável que do encontro [entre alta liderança de Estado] surjam mais divergências do que convergências, contém mais riscos do que promessas O debate entre Brasil e Estados Unidos se dá naquele nível em que a competência dos profissionais é suficiente”, afirmou. Para o especialista, o melhor é “esperar melhores ventos” para investir em relações mais profundas devido à situação em que os dois governantes dos países se encontram.

Peter Schechter, Former Director of Latin America at the Atlantico Council, lembrou que várias questões geopolíticas externas e conflitos internos nos EUA estão ocupando a administração de Trump: conflitos com a China, Irã e Coreia do Norte e a saída do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) têm sido levados como prioridade pelo governo norte-americano.

Em sua avaliação, não há espaço agora para aprofundar as relações com o Brasil e que isso não seria a consequência de uma “falta de entendimento” do governo Trump sobre o Brasil. “Não vejo nenhuma grande abertura ou iniciativa importante sobre relações entre os Estados Unidos e Brasil. Acho que há razões brasileiras e norte-americanas para isso”, salientou, trazendo também que as questões internas brasileiras - crise econômica e política, por exemplo -, também têm deixado o país mais voltado para si.

Patrícia Campos, repórter especial da Folha de S.Paulo, lembra que, além da situação peculiar em que os países se encontram, ainda há muitos postos vagos no Departamento de Estado dos Estados Unidos, o que dificulta ainda mais as relações bilaterais. “Algumas coisas que não dependem do primeiro escalão estão acontecendo, há avanços que são importantes para o empresariado. Um exemplo é a facilitação de comércio, pouco sexy, mas muito importante, ou padronização de regulamentações”, comentou.

Brad Brooks, Correspondente-Chefe da Reuters no Brasil, afirma que a imprevisibilidade de Trump é algo que atrapalha, mas que as pessoas que votaram nele vão apoiá-lo até o fim. “Estamos ainda no primeiro capítulo dessa presidência. É difícil entender o que é esse governo, como serão as relações entre Brasil e Estados Unidos, e entre Estados Unidos e o resto do mundo”, opina. Nesse cenário, Brooks vê oportunidade para China e Brasil aumentarem sua influência geopolítica.

Algo que deve alertar os empresários brasileiros, segundo Carolina Costa, Director Brazil & Southern Cone Practice McLarty, é o discurso protecionista de Trump, que marcou tanto sua campanha quanto sua gestão. “O discurso protecionista deve deixar um alerta para o Brasil, independe de estarmos no radar ou não da administração norte-americana hoje. Nessa onda, a cotação de produtos brasileiros pode ser impactada, no setor de aço ou de químicos, são alguns dos alvos iniciais que devemos prestar atenção”, salienta.

Com as negociações do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), a especialista acredita que o país deve se aproveitar, fortalecer o Mercosul e torná-lo mais executivo. Além disso, Costa recomenda que o Brasil tome a liderança nas discussões voltadas ao multilateralismo e a proteger os ganhos que a Organização Mundial de Comércio (OMC) trouxe nos últimos anos para a economia global.

Ela ainda fez um alerta para o empresariado brasileiro, frisando a necessidade de realizar planejamentos de cenário no futuro e definir as ambições do Brasil em relação aos Estados Unidos. “Hoje, mais que nunca, é necessário que o empresariado brasileiro invista nos EUA para entrar nos debates que estão acontecendo em Washington de maneira mais proativa, e deixar sua posição ser conhecida para que defenda seus interesses comerciais”, reitera.