China e Estados Unidos vivem ‘duelo de titãs’ no comércio internacional, afirma Abdenur

publicado 26/07/2018 10h55, última modificação 26/07/2018 11h21
São Paulo – Embaixador analisa que conflito vai além das barreiras tarifárias

Para o Embaixador Roberto Abdenur, membro do Conselho Curador do CEBRI, a China e Estados Unidos vivem um “duelo de titãs” no plano internacional. A imposição de tarifas aos produtos chineses nos Estados Unidos e a retaliação chinesa deve ser entendido como algo muito mais amplo do que o comércio internacional. Durante o Fórum “As Novas dimensões do Comércio Global: Fim do sistema multilateral?”, realizado na Amcham - São Paulo em 25/07, Abdenur classificou as ações dos EUA como uma estratégia para conter e reverter práticas que são fundamentais para a estratégia do desenvolvimento chinês. “O que ocorre agora não é só uma guerra tarifária, nem uma guerra comercial, é uma guerra econômica mais ampla”, opina.

 

A ameaça do America First

Segundo Abdenur, os Estados Unidos, que anteriormente lideraram a criação de órgãos internacionais de abertura comercial, hoje debilitam essa ordem. Ele se lembra da ameaça de impor tarifas de importação a automóveis europeus ou mesmo a declaração de que a Europa era uma “inimiga” da nação – atitudes que mostram esse novo posicionamento.

“São os EUA que debilitam a ordem internacional que propiciou a comunidade internacional paz, estabilidade e desenvolvimento ao longo das últimas sete décadas”, critica. “É difícil prever o que vai ocorrer: Trump parece decidido a ir em frente, ignorando os riscos sistêmicos para economia e comercio internacional, ignorando os prejuízos que essas decisões podem acarretar aos próprios Estados Unidos”.

Rebecca Liao, China Analyst e VP de Business Development e Strategy da Skuchain, participou via transmissão ao vivo e aponta que esse tipo de ação vem do pensamento norte-americano de que a China estaria tirando vantagem nesses acordos e que os organismos internacionais não estariam punindo devidamente.

A especialista lembra que, apesar da China ser um mercado difícil para empresas, o país é de grande interesse por conta do seu imenso mercado consumidor. Uma dificuldade atinge particularmente as empresas de tecnologia: pela regulamentação do país, qualquer organização que queira entrar no país é obrigada a transferir inteligência e propriedade intelectual aos chineses. “O mercado chinês é irresistível as empresas americanas mesmo que, em geral, essas empresas percam dinheiro na China. É um mercado gigante e não há nenhum motivo estratégico para as companhias não irem a esse mercado”, relata.

Liao ressaltou ainda que, frente a esse episódio, além da retaliação de tarifas, a China começou a apelar apara a comunidade internacional, passando o recado de que se colocam como um legítimo parceiro econômico e que respeita as regras internacionais: “Além da retaliação, a China está apelando a comunidade internacional e dizendo 'somos diferentes agora. nos últimos anos, nos tornamos membros pagantes da WTO [Organização Mundial do Comércio], somos participantes ativos do FMI'. A China se tornou parte do sistema Bretton Woods”.

           

Quais serão os efeitos sentidos no Brasil? O que fazer?

Cristina Pecequilo, Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), lembra que os conflitos entre China e Estados Unidos terão impacto direto no Brasil, já que são os dois maiores parceiros econômicos do país. Ela aposta em uma visão mais pragmática de que polarização gera fechamento de espaços na estrutura internacional. “O Brasil é e pode ser mais uma vítima da guerra comercial. Se hoje temos portas abertas, não necessariamente vamos ter (no futuro). Em uma guerra, todos podem sair feridos”, pontua.

A saída, para ela, é usar a estratégia que chama back to the future: ou seja, se aproximar de outros parceiros políticos e econômicos além da China e Estados Unidos. “Onde está a integração regional da América Latina? Não só do ponto de vista político, mas do ponto de vista econômico? Por que não repensar o Mercosul? Não podemos colocar todos os nossos ovos em uma cesta. Lógico que isso não significa abrir mão dos parceiros principais, mas sim buscar outros”, ressalta.

 

É o fim do sistema multilateral?

Pecequilo não vê a situação como um fim do sistema multilateral, mas sim como um enfraquecimento do modelo comercial criado nos anos 50: “Agora, se vamos sair desse definhamento melhor ou pior, é uma questão em aberto. Não é bom que a gente não tenha um sistema multilateral funcionando, mas também não é bom que seja um sistema baseado em soluções individualistas”.