Com exceção da Receita Federal, demais órgãos intervenientes do comércio exterior estão pouco equipados

por daniela publicado 30/05/2011 16h17, última modificação 30/05/2011 16h17
Daniela Rocha
São Paulo - Essa defasagem impede maior interlocução e oferta de serviços mais ágeis, diz Hermeto Alcides Bermúdez, CEO da Tito Global Trade Services.
hermeto_bermudez.jpg

Com exceção da Receita Federal, os demais órgãos que são intervenientes das operações de comércio exterior no País não estão equipados adequadamente, seja em tecnologias ou número de fiscais. A avaliação é de Hermeto Alcides Bermúdez, CEO da Tito Global Trade Services, empresa que realiza gerenciamento de transporte, documentação e processos alfandegários.

Segundo ele, essa defasagem no aparelhamento é o que impede a maior interlocução e a oferta de serviços mais ágeis.

Bermúdez participou na última quinta-feira (26/05) do Café de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo, quando foi divulgada a pesquisa “O Cenário do Comércio Exterior Brasileiro”, realizada pela Amcham junto a uma amostra de 103 empresas de variados portes que fazem parte da cadeia de comércio exterior ou são impactadas por essas transações. No final do evento, o executivo concedeu a seguinte entrevista ao site da Amcham:

Amcham: A pesquisa conduzida pela Amcham detectou que o gargalo da infraestrutura é uma das maiores preocupações das empresas que fazem parte da cadeia de comércio exterior. Quais as suas considerações sobre esse resultado?
Hermeto Bermúdez:
 Em curto e médio prazos, é difícil termos alguma solução; já no longo, sim, isto é, mais portos e mais estradas, principalmente. Com mais portos no Norte e Nordeste do País, será possível aliviar os portos do Sul e Sudeste, que estão sobrecarregados. Nossa previsão é de que, a partir de agosto, haja um caos no escoamento da safra agrícola nos portos de Santos, Paranaguá e Rio Grande. Na área de portos, acredito que a política deve ser de menos governo e mais participação da iniciativa privada.

Amcham: Os tributos são o segundo aspecto de redução da competitividade do comércio exterior, especialmente das exportações brasileiras, conforme o levantamento da entidade...
Hermeto Bermúdez:
O que a pesquisa da Amcham refletiu bem é uma incidência de tributação interna no produto que é exportado e que precisa ser desonerado - ou, ao menos, que os créditos sejam devolvidos rapidamente.

Amcham: A burocracia aduaneira também figura em terceiro lugar na lista de problemas enfrentados. Por que no Brasil os procedimentos são tão complexos?
Hermeto Bermúdez:
Todo País tem a burocracia que quer, ela é decorrente de setores que desejam ser protegidos. Assim, se criam mais licenciamentos, mais documentos e taxas.

Amcham: Mas está havendo maior diálogo entre os órgãos públicos que são intervenientes do comércio exterior?
Hermeto Bermúdez:
 Há vigilância da entrada e saída de mercadorias do País pela Receita Federal, mas, no processo de controle, há participação de outros órgãos. Por exemplo, no caso dos medicamentos, a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) tem de emitir um certificado e, se determinado produto é de origem animal, o Ministério da Agricultura precisa intervir. O problema é que a Anvisa e o Ministério da Agricultura não se aparelharam tanto quanto a Receita Federal, então há defasagens de tecnologias, sistemas e, principalmente, falta gente. São necessários mais fiscais para atender a demanda.

Amcham: Na sua análise, porque o câmbio apareceu somente em sexto lugar na pesquisa como fator limitador?
Hermeto Bermúdez:
É porque, de fato, não há muito o que fazer. O Brasil tem muita divisa estrangeira entrando e o real fica muito valorizado. É um dado macroeconômico de difícil de solução, tanto que os ministérios do Planejamento e da Fazenda não sabem muito o que fazer. Acredito que a questão do câmbio não apareceu muito no levantamento porque o real está em patamar elevado, mas, de certa forma, estável. Câmbio ruim para operação de comércio internacional é câmbio instável. Hoje, sobressaem-se outras questões para a redução do custo que comprometem a produtividade, como a melhoria da infraestrutura.

 

 

registrado em: