Donald Trump: o que empresários e especialistas esperam da nova gestão americana

publicado 23/01/2017 10h32, última modificação 23/01/2017 10h32
São Paulo - CEO da Stefanini, diplomata Marcos Troyjo e cientistas políticos contribuem com análises
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Em uma das eleições mais acirradas, Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, venceu a candidata Democrata Hillary Clinton. Durante a campanha, Trump deu declarações e propostas polêmicas - como a construção de um muro separando o México dos Estados Unidos - e adotou um discurso altamente protecionista na economia. Na sexta-feira (20/01), ele assumiu o cargo em cerimônia de posse em Washington ainda em meio a muitas incertezas a respeito de seu governo.

O portal Amcham ouviu um time de especialistas para ajudar você a traçar perspectivas e cenários. Confira as visões do empresário Marcos Stefanini, do diplomata Marcos Troyjo e dos cientistas políticos Maurício Rocha e Rodrigo Galllo:

Marco Stefanini, fundador e presidente da empresa de TI Stefanini

Em todo governo novo, temos que esperar para saber qual será a política, [a gestão] ainda não começou. Normalmente, para entender qualquer governo, tem um período para acompanhar. Temos a expectativa de que essa relação com a América Latina continue essa aproximação cada vez maior, principalmente com a América do Sul.

Marcos Troyjo, economista, diplomata e diretor do BRICLab da Universidade Columbia

É uma grande incógnita. Os próprios americanos têm dificuldade em saber qual será a política de Trump para a América Latina pela possível razão de que talvez não exista nenhuma. Temas como narcotráfico, segurança hemisférica e relações comerciais de investimentos, acabam sendo todos varridos para baixo da política que ele mencionou durante a campanha e que está sendo repetida nesse período que antecede a sua posse.

O Brasil não tem superávit comercial com os EUA. O Brasil deveria fazer mais negócios com os EUA. Os investimentos americanos deveriam ser muito maiores. Mas não há nenhuma perspectiva positiva por enquanto sobre esse cenário da presidência Trump.

Maurício Rocha, cientista político e professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

O que o Trump disse durante a campanha foi muito diferente do que foi o consenso entre Democratas e Republicanos pelo menos desde da 2ª Guerra Mundial. O risco de uma instabilidade política no governo dele é grande. Tem a questão de como vai ser a relação dele com o Partido Republicano, já que ele está defendendo posições que não são posições históricas do partido, o que pode resultar em um problema com o Congresso. Uma instabilidade política na maior economia do mundo, em um país tão importante para o Brasil, é má notícia, principalmente se olharmos para a crise econômica brasileira.

Para o Brasil, há duas grandes perguntas envolvendo o Trump. Uma é a questão do protecionismo comercial, já que durante a campanha ele teve um discurso muito hostil aos acordos de livre comércio e investimento estrangeiro de empresas americanas em países em desenvolvimento. Até que ponto esse discurso vai virar política pública? Se isso acontecer, é claro que o impacto para o Brasil é muito ruim. O segundo risco que Trump traz é a questão migratória. Temos mais de um milhão de brasileiros vivendo nos EUA e evidentemente não são todos que estão regularizados. Eles estão vulneráveis, podem ser deportados.

Rodrigo Gallo, cientista político, Mestre em Ciências Sociais e História Social e professor do curso de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Eu tenho dito que nós temos que desconstruir aquela figura que nós temos das campanhas. Uma coisa é o Trump candidato, outra coisa é o Trump presidente dos EUA. Muitas promessas que o Trump fez, que poderiam causar problemas como a expulsão de imigrantes, a construção do muro separando os EUA do México, são promessas que vão esbarrar em alguns problemas internos. O Trump vai assumir a presidência dos EUA em um momento em que o país, aparentemente, está bastante dividido politicamente falando. Existe um conflito ideológico muito sério ali. Do ponto de vista simbólico, um presidente que assume com um discurso de ódio, perseguição a imigrantes e coisas do tipo pode, de fato, causar tensões desnecessárias para as relações entre os próprios americanos internamente no país, mas que também podem abalar as relações entre os EUA e outros países.

Do ponto de vista internacional e no que inclui o Brasil de forma mais concreta, eu não vejo grandes mudanças, pelo menos não em um curto ou médio prazo. Acho que o sistema internacional vai acabar exigindo, de uma certa forma, que o Trump se comporte de um modo a manter pelo menos a política econômica e comercial funcionando como ela funciona hoje. Ou seja, nós ainda vivemos em uma crise econômica, então, o país tem que manter a balança comercial estável. O país tem que continuar se importando certos produtos. Nesse aspecto, por mais que ele seja o presidente dos EUA, não tem como ele bater de frente com outros países e cortar, por exemplo, essas relações econômicas. Em relação ao Brasil, as tensões serão um pouco menores porque a gente também tem um governo federal mais neoliberal agora. Pelo menos do ponto de vista econômico, as coisas estão em consonância.

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