Em 2013, Brasil deve exportar mais manufaturados aos EUA e perder mercados na América Latina para a China, indicam especialistas em comércio exterior

por andre_inohara — publicado 12/12/2012 17h35, última modificação 12/12/2012 17h35
São Paulo – Venda de bens acabados brasileiros para a América Latina tende a cair por falta de competitividade interna e desentrosamento comercial e político com o continente.
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Os exportadores brasileiros de bens manufaturados terão que lidar com boas e más notícias em 2013. O movimento de recuperação da economia americana, iniciado no último trimestre de 2012, deve se estender no próximo ano e puxar as exportações brasileiras da categoria.

A conjuntura internacional também deve favorecer a pauta de produtos básicos, diante da retomada dos preços das commodities. A alta esperada das cotações será muito influenciada pelo aumento de produção da China, maior compradora de insumos básicos do Brasil.

A contrapartida negativa é que parte desses produtos será comprada pela América Latina, fazendo com que o gigante asiático conquiste fatias de mercado das indústrias brasileiras – as tradicionais fornecedoras da região.

Essas foram as conclusões de dois especialistas em economia internacional que vieram ao comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (12/12), abordando as perspectivas para a balança comercial brasileira em 2013.

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“As exportações de produtos industriais tendem a melhorar em 2012, tendo um parceiro importante como os EUA, que começaram a absorver mais bens industrializados nos últimos meses de 2012”, afirma Rodrigo Branco, economista da Funcex (Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior).

As estimativas da Funcex para 2013 são de superávit de US$ 21 bilhões na balança comercial brasileira, resultantes de exportações da ordem de US$ 262 bilhões e importações de US$ 241 bilhões.

A fundação também estimou os números da balança comercial para 2012. Caso eles se confirmem, haverá um crescimento de 9% do superávit entre este ano e o próximo. De acordo com Branco, o saldo positivo esperado para 2012 é de US$ 19 bilhões, fruto de US$ 243 bilhões em exportações e US$ 224 bilhões de importações.

Ainda de acordo com a Funcex, a produção industrial terá desempenho mais forte, contribuindo para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 3,5% no próximo ano. “Achamos que o perfil exportador focado em commodities não muda, mas a indústria tende a se recuperar internamente, o que deve contribuir para o aumento das exportações.”

EUA continuam como principal comprador de manufaturados brasileiros

Apesar de os EUA terem perdido o posto de principal parceiro comercial do Brasil para a China, eles ainda são os principais compradores de produtos acabados nacionais. O grande interesse dos americanos é por aviões, peças automotivas, motores e máquinas, descreve Branco.

“Recentemente, as exportações de etanol – produto de alto valor agregado – para os EUA subiram 9% em função da quebra de safra americana, mas isso é pontual e não deve se repetir”, acrescenta o economista.

Apesar da expectativa de desempenho melhor em 2013, Branco ressalta que o País precisa acelerar sua competitividade industrial para reverter o desinteresse dos mercados internacionais pelos manufaturados brasileiros.

“Há dez anos, nossa pauta de exportações de bens acabados aos EUA era liderada pela venda de aviões, celulares e automóveis. Em 2012, a inversão foi completa, com o petróleo (commodity) encabeçando as vendas aos EUA com 22% do total, seguida por bens siderúrgicos”, detalha o especialista.

Sem políticas comerciais para a América Latina, perda de influência brasileira na região

O desenvolvimento econômico da América Latina está intensificando o interesse chinês, e o Brasil está vendo sua hegemonia comercial na região ser cada vez mais ameaçada.

Os produtos chineses tem conquistado espaço crescente, e se nada for feito em curto espaço de tempo, o País também acabará perdendo terreno para economias locais mais dinâmicas, como o México, Chile e Peru.

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A tarefa de defender um mercado tradicional é dificultada pela falta de políticas objetivas do governo brasileiro para a região, e os constantes desentendimentos entre os próprios países. Quem diz é Mário Marconini, diretor-presidente da consultoria Teneo Holdings Latam e diretor de negociações internacionais da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo

“Em termos de agenda de negócios, o Brasil se comporta como uma ilha”, lamenta Marconini.

O volume de comércio do Brasil com a região não é tão grande quanto na América do Norte e Europa, mas contribui favoravelmente para a balança comercial brasileira, e tem importância estratégica. “Sempre tivemos superávit na América Latina, e hoje isso está se deteriorando. Temos que retomar o comércio na região”, observa Marconini.

Para o executivo, as estratégias passam pela aproximação com países como México, Peru, Colômbia e Chile, negociando acordos setoriais para fortalecer as cadeias competitivas. “O Brasil precisa se internacionalizar mais”, defende o executivo.

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