Embaixador Rubens Barbosa: visita de Barack Obama ao Brasil sinaliza retomada do interesse americano pela América Latina

por daniela publicado 25/02/2011 10h31, última modificação 25/02/2011 10h31
Daniela Rocha
São Paulo - Diplomata também avalia que o governo Dilma Rousseff dará maior ênfase à relação com os Estados Unidos, diferentemente da gestão anterior.
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O embaixador Rubens Barbosa acredita que está sendo iniciada uma nova fase na relação Brasil-Estados Unidos, na qual os dois países intensificarão as negociações de acordos na área comercial, assim como de cooperação em áreas de interesse comum, como energia.

Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos EUA entre 1999 e 2004, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, afirma que a visita de Barack Obama ao Brasil em março representa a retomada do interesse americano pela América Latina, após perda de espaço para a China nos últimos anos, e também o reconhecimento da posição de liderança brasileira na região.

O diplomata avalia ainda que o governo Dilma Rousseff terá uma abordagem mais incisiva e relevante quanto aos EUA, diferentemente do que se viu na gestão de Lula.

Rubens Barbosa é presidente da Rubens Barbosa & Associados (RB&A), uma empresa de consultoria que presta serviços nas áreas de comércio internacional e investimentos. Ele participou nesta sexta-feira (25/02) do comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo.  Antes de participar da reunião que teve como tema “Brasil, uma economia de destaque mundial a favor do seu negócio”, ele concedeu a seguinte entrevista ao site da Amcham:

Amcham: O que representa, na avaliação do sr, a visita do presidente americano Barack Obama ao Brasil no mês de março?
Rubens Barbosa:
A vinda de Obama para a América Latina sinaliza uma retomada do interesse americano em relação à região. Nos últimos anos, não houve uma prioridade dos EUA na região – nem pelo setor privado nem pelo governo – e o País perdeu espaço diante do crescimento da China. Essa visita é uma tentativa de retomar o contato com a região e, sobretudo, prestigiar o Brasil, que hoje tem uma projeção externa muito grande. Os Estados Unidos querem recuperar o tempo perdido.

Amcham: Como será a relação do governo de Dilma Rousseff com o de Barack Obama? O que muda em relação à gestão de Lula?
Rubens Barbosa:
O governo da Dilma Rousseff tem outra abordagem em relação aos Estados Unidos, um enfoque menos negativo do que tinha o governo anterior. O governo Lula, nos dois últimos anos, em 2009 e 2010, adotou uma série de medidas que se chocavam claramente com a política externa americana, causando uma deterioração das relações. Agora, com a nova administração e com o novo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, as relações começam a se recompor. Acho que há uma percepção clara da importância que os EUA têm como mercado para produtos brasileiros e também como um país que possui valores e interesses comuns. Creio que o novo goverrno, sem reduzir a prioridade da política externa da relação Sul-Sul com países em desenvolvimento, dará mais importância aos países desenvolvidos, como os da União Europeia, os Estados Unidos e o Japão.

Amcham: O fato de a presidente Dilma ter destacado Antonio Patriota como ministro das Relações Exteriores é, então, emblemático no sentido de o País ter maior aproximação com os EUA?
Rubens Barbosa:
Avalio que uma maior aproximação diz respeito a uma política de governo e não a uma política pessoal, mas, certamente, Patriota, que foi embaixador em Washington como eu, tem sensibilidade da importância que os EUA têm para o Brasil. Isso não quer dizer que tenhamos de concordar com tudo que os EUA pensam, ou tudo o que querem. Temos de defender nossos interesses, e, na defesa de nossos interesses, aproveitar melhor as oportunidades que o mercado americano oferece e as possibilidades de cooperação, principalmente na área de energia.

Amcham: Que medidas concretas ou acordos bilaterais poderão ser efetivados durante a visita de Obama?
Rubens Barbosa: Pelo que tenho visto na imprensa, estão sendo discutidos mais de dez acordos, mas acho que o mais importante dessa visita não são os acordos, porque não haverá nada muito dramático, apesar de o documento referente à facilitação de comércio ser importante. Entretanto, o que acredito ser importante é a própria visita, o fato de Obama ter escolhido o Brasil em sua primeira visita à América do Sul.

Amcham: Na sua visão, é realmente fundamental que o Brasil assine um acordo de proteção de investimentos com os Estados Unidos?
Rubens Barbosa: Acredito que sim, que o Brasil deve ter com os EUA um acordo de garantia de investimentos, assim como um tratado para acabar com a bitributação. O Brasil deve ter uma política mais contundente de negociação desses temas, sobretudo com os países onde realiza grandes aportes, como os vizinhos da América Latina e os da África. O elevado nível de investimentos das empresas brasileiras lá fora já justidfica essa postura mais agressiva.


Amcham: O tratado para acabar com a bitributação pode sair esse ano?
Rubens Barbosa:
Acho difícil porque há resistências dentro do governo brasileiro, mas temos de continuar a pressionar, discutir tanto o acordo para acabar com a bitributação quanto o de investimentos, que pode sair com mais facilidade.

Amcham: Qual é sua análise em relação à atuação do Brasil nas recentes reuniões do G-20, especialmente na discussão sobre a desvalorização “artificial” da moeda chinesa, o yuan, e os desequilíbrios que tem causado no mercado global?
Rubens Barbosa: Essa é uma questão muito delicada. Os Estados Unidos estão pressionando a China há vários anos e não estão conseguindo (resultados). O Brasil mudou de posição e passou a dizer que tanto a desvalorização cambial na China quanto nos Estados Unidos o prejudicam muito e também a outras economias emergentes. O governo brasileiro deve ter uma posição mais firme e, agora na última reunião do G-20, já foi mais incisivo. Acho que nesse grupo dos 20, o grande diretório econômico global, a participação do Brasil tem sido ativa e deve continuar assim. O câmbio americano e o chinês prejudicam as exportações brasileiras e a competitividade dos produtos brasileiros no próprio mercado doméstico. A desvalorização do dólar e do yuan vem prejudicando, inclusive, as negociações multilaterais porque dificulta as exportações dos países em desenvolvimento, tornando suas economias mais vulneráveis.

Amcham: Quais são as medidas que precisam ser adotadas para potencializar as exportações brasileiras? O que a nova Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) deveria contemplar?
Rubens Barbosa:
O Brasil necessita de uma política industrial focada na melhoria da competitividade dos produtos brasileiros, assim como no apoio à inovação, para que os produtos exportados tenham maior valor agregado. Essa política também deve passar pelo aperfeiçoamento do sistema de defesa comercial, que, mesmo com maior apoio do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), ainda é precário. Para aumentar a exportações, temos de tentar reduzir o custo interno e as deficiências em infraestrutura. Além disso, o País necessita de um programa intensivo de promoção comercial, de avanços nos acordos de garantia de investimentos, entre outros tipos de apoios ao setor privado.

Amcham: Por que é necessário fortalecer o sistema de defesa comercial brasileiro? Quais os principais problemas que o País enfrenta?
Rubens Barbosa:
O Brasil, por uma série de razões, em especial a indústria de tansformação, está sofrendo com a agressividade dos produtos chineses. O País já tem 42 casos na OMC (Organização Mundial do Comércio) contra a China e acho que temos que equipar melhor o MDIC para que as ações brasileiras sejam mais rápidas para não prejudicar o setor privado.

 

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