Setor privado quer mais tratados internacionais de comércio

publicado 29/08/2013 16h56, última modificação 29/08/2013 16h56
São Paulo – Diplomatas de diversos países apresentaram as vantagens de se ter uma economia aberta
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Três das maiores entidades empresariais brasileiras, a CNI (Confederação Nacional da Indústria), FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e Amcham, defenderam que cada país do Mercosul tenha a liberdade de fechar acordos unilaterais de comércio, e que o Brasil busque novos tratados com o resto do mundo.

No seminário de Acordos Comerciais da Amcham-São Paulo, realizado na quinta-feira (29/8), a pesquisa realizada com 80 empresários e altos executivos de empresas associadas apontou, com unanimidade, que o Brasil teria maior inserção no comércio mundial se aumentasse o número de acordos e investimentos com outros países.

Além disso, 87% responderam que a flexibilização de regras do Mercosul – bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela – possibilitaria ao Brasil ampliar sua rede própria de acordos de comércio exterior. Atualmente, os países membros têm que negociar os tratados de forma conjunta.

Carlos Abijaodi, diretor de desenvolvimento industrial da CNI, disse ser importante que cada país tenha a liberdade de decidir quando se abrir para o comércio mundial. “Não queremos acabar com o Mercosul. O que queremos é marchar de acordo com as necessidades de avanço do Brasil. Se outros não querem ou sentem essa necessidade, que o façam em seu próprio momento”, destaca ele.

Aumentar o grau de integração com o mundo é uma forma essencial de agregar valor à cadeia produtiva brasileira, acrescenta Mário Marconini, diretor adjunto do departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da FIESP.

“Mesmo se a balança brasileira ficar deficitária ao abrir o mercado para os países desenvolvidos, vamos ganhar em tecnologia, inovação e inserção nas cadeias globais de produção”, comenta ele.

O CEO da Amcham, Gabriel Rico, disse que a convergência de opiniões entre as entidades é ‘histórica’. “Estamos vendo unidade de pensamento e planos de ação cada vez maiores, e os dados da pesquisa comprovam o anseio dos associados na mesma direção”, destaca Rico.

Acordos comerciais impulsionaram países

Os acordos comerciais fechados por Canadá, México, Peru e Tailândia tornaram as economias mais dinâmicas e competitivas. A abertura do mercado tailandês ao comércio internacional foi um processo que exigiu ajustes no setor produtivo, mas ajudou a diversificar a pauta agrícola, antes restrita ao arroz e pescados, disse Tharit Charungvat, embaixador da Tailândia no Brasil.

“Quando negociamos acordos de livre comércio, vimos que eles criam perdedores e vencedores entre as indústrias. Então às vezes precisamos de liderança e engajamento político para dizer que algumas delas têm que ser mais competitivas e melhorar a eficiência”, ensina o embaixador.

O cônsul geral do Canadá em São Paulo, Stéphane Larue, contou que a população de seu país não se mostrou inicialmente favorável a um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, na década de 1980. “Não havia consenso no setor privado nem na população. Mas depois de muitos e interessantes debates, acabamos negociando o primeiro acordo com os EUA e depois com o México, e foi um tremendo sucesso”, destaca Larue.

É importante ouvir a população, resssalta o consul canadense. “Acordos de livre comércio são focados em bens, serviços e investimentos, mas as pessoas não podem ser esquecidas. O comércio segue os investimentos e as pessoas, o comércio. Sem isso, não há benefícios.”

México e Peru

A grave crise da dívida externa do México nos anos 1980 fez com que o governo da época resolvesse se abrir ao comércio internacional, como forma de fortalecer a sua economia. Nessa época, fechou um acordo de livre comércio com os EUA e o Canadá, o Nafta.

Como resultado, houve o surgimento de cadeias produtivas integradas com os EUA que aumentaram a produtividade da indústria mexicana. O compromisso do país é se abrir ao comércio com o mundo, não abrindo mão do desenvolvimento regional, segundo o cônsul geral do México em São Paulo, José Gerardo Trasloheros Hernandez.

“Acordos comerciais são ferramentas para maior produtividade”, define o diplomata. Atualmente, o México negocia acordos com o bloco do sudeste asiático, Asean, e a Parceria Transpacífica – formado por países como EUA, Austrália, Chile, Cingapura, Vietnã e Japão. Além disso, formou neste ano a Aliança do Pacífico, com Peru, Chile e Colômbia.

Para atrair investimentos externos, o Peru decidiu não diferenciar a origem do capital. “O investidor estrangeiro é tratado como local, com poucas restrições à transferência de capitais. Damos garantia de propriedade privada, acesso a crédito e aceitamos moeda estrangeira”, descreve Jorge Arturo Jarama, cônsul geral do Peru em São Paulo. Atualmente, o Peru é uma das economias mais dinâmicas do mundo, e participa de blocos como a Aliança do Pacífico e a Parceria Transpacífica.

CNI e FIESP

Tanto a FIESP como a CNI defendem políticas de longo prazo para o comércio exterior. “O que me incomoda nesse cenário, e até em relação às negociações, que não vejo uma linha mestra de política externa, apenas reações”, lamenta Marconini, da FIESP.

Abijaodi, da CNI, quer que o governo adote uma postura mais ativa na política de comércio exterior. “Se nos afastarmos dessas negociações, seremos riscados do mundo e acabaremos isolados. E essa é uma preocupação constante de quem vive o dia a dia de empresário”, comenta ele.

Participação do Mercosul na corrente de comércio estabiliza

A participação do Mercosul na corrente de comércio brasileira atingiu o auge em 1998, mas recuou desde essa época e permanece no mesmo patamar desde 2003.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), no ano em questão a balança comercial do Brasil com o mundo chegou a US$ 108,9 bilhões, sendo que US$ 18,3 bilhões (16,8%) provinham de negócios gerados pelo bloco.

Os resultados comerciais foram crescentes para o Brasil entre 1991, ano da fundação do bloco sul-americano, a 1998. A participação do Mercosul na corrente comercial brasileira vem decaindo desde essa época, estacionando no patamar médio de 9% desde 2003.

Em 2012, a balança comercial brasileira em relação ao mundo somou US$ 465,75 bilhões, e a contribuição do Mercosul para o resultado foi de 9,03%, ao gerar volume de US$ 42,05 bilhões.

 

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