Empresários e autoridades falam da relação Brasil-EUA a partir da visita de Obama ao País

por daniela publicado 23/03/2011 17h38, última modificação 23/03/2011 17h38
Daniela Rocha
Brasília- Na visão deles, abrem-se perspectivas positivas de parcerias em variados setores.

Na perspectiva do empresariado e de autoridades, a vinda do presidente americano, Barack Obama, ao País representa o início de uma nova fase de relacionamento entre Brasil e Estados Unidos. Mais importante do que a programação da visita em si e os termos que foram acertados entre os governos, é a criação de um clima favorável para a intensificação de futuras parcerias em diversos segmentos, que representarão ganhos significativos a ambas as nações.

Uma série de entrevistas foi realizada pela Amcham, em Brasília, nos dias 18 e 19/03, em coquetel de recepção à comitiva americana que acompanhou Obama e na Cúpula Empresarial Brasil-EUA, eventos copromovidos por Amcham, Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Brazil-US Business Council. Os entrevistados elencam suas impressões e expectativas sobre essa nova fase que se abre:


“A vinda do presidente Obama demonstra a boa vontade em relação ao Brasil. A presidente Dilma Rousseff também tem dado ênfase aos EUA. Acredito que haverá um fortalecimento das relações comerciais, que são extremamente importantes para ambos os países. Temos potencial para ampliar bastante as exportações ao mercado americano, um importante cliente. O Brasil também pode captar investimentos, assim como serviços e a experiência que os americanos têm em eventos esportivos para a realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Eles sabem trabalhar nessa área de entretenimento com resultado econômico muito bom”, destaca Regina Nunes, presidente da Standard & Poor's no Brasil e conselheira da Amcham.

“O exotismo do encontro entre o presidente americano, que é afro-descendente, e a primeira  presidente mulher eleita no brasil, no mínimo merece reflexão sobre a diversidade. Avalio que o empresariado está entusiasmado com a aproximação entre os dois países. Tirando as questões críticas, como a do subsídio americano ao algodão, há avanços significativos e positivos em termos de aproximação política e diplomática. O Brasil precisa reformular sua infraestrutura  e criar condições para o crescimento e se beneficiará dessa parceria”, diz Herbert Steinberg, presidente da Mesa Corporate Governance e conselheiro da Amcham.

“O Brasil tem fontes de energia abundantes e, para os Estados Unidos, investir em um País estável e democrático como o nosso é mais fácil do que ter relações com o Oriente Médio, que passa por uma situação de conflitos. Há inúmeras oportunidades de cooperação e parcerias nas áreas de petróleo, etanol e biomassa. O Brasil também precisará de investimentos em portos, estradas e ferrovias, sendo que capital de risco e linhas de longo prazo são bem-vindas”, afirma Marcelo Corrêa, diretor presidente do Grupo Neoenergia.

“Haverá crescimento do comércio entre os dois lados em outro patamar. Torcemos para que o relacionamento entre Brasil e EUA seja voltado para as práticas sustentáveis, uma área onde os dois países têm muito a ganhar. A sustentabilidade está na missão da Amcham e entendemos que a inovação com a sustentabilidade é o caminho que será o diferencial do Brasil. Pela diversidade, pelo ambiente que temos, pelas riquezas naturais, somos o país mais bem posicionado no mundo para tratar do tema com autoridade”, analisa Iêda Novais, diretora corporativa da BDO Auditores Independentes, conselheira da Amcham e presidente do comitê de Sustentabilidade da entidade.

“A partir de agora, a relação bilateral será mais prática, com menos viés político. Uma das provas disso é que a comitiva de Obama no Brasil se consistiu dos principais integrantes de sua equipe econômica. A vantagem é que o Brasil, na comparação com os demais paises do Bric, é bastante atrativo aos investimentos por ser uma grande democracia com marcos regulatórios e transparência. Além disso, os EUA detêm muita tecnologia que podemos aproveitar, não necessariamente comprar, mas adquirir conhecimento”, avalia Mark Hyde Pitt, vice-presidente e gerente geral da Sherwin Williams do Brasil e ex-conselheiro da Amcham.

“A visita de Barack Obama inaugura um período de aproximação efetiva da base econômica, de negócios e, com certeza, obstáculos políticos como os enfrentados pelo tratado para eliminar a bitributação, o BTT (Bilateral Tax Treaty), serão desemperrados”, diz Roberto Pasqualin, advogado, conselheiro da Amcham e integrante da força-tarefa de Tributação da entidade.

“Se a presidente Dilma tiver empenho, não tenho dúvida que a aprovação de um Acordo para Troca de Informações Triturárias no Congresso brasileiro poderá acontecer rapidamente. A matéria já passou na Câmara e agora depende de aprovação no Senado, sendo que para isso o apoio da presidente é fundamental. O tema retorna ao foco das atenções com a visita do presidente Obama ao Brasil. O Acordo para Troca de Informações Tributárias é um elemento essencial para que os dois países cheguem a um tratado para evitar a bitributação, enfatiza Luiz Carlos Hauly, que atuou durante muitos anos frente ao Grupo Parlamentar Brasil-EUA da Câmara Federal e hoje é secretário da Fazenda do Paraná.

“O aspecto mais importante é a parceria estratégica entre Brasil e EUA em energia – biocombustíveis, pré-sal e hidrelétricas entre outras fontes. Vemos com bons olhos que os dois países unam esforços, principalmente devido às crises no mundo árabe, que ampliam o preço do petróleo e por conta do tsunami que atingiu o Japão, trazendo à tona questionamentos sobre a segurança nuclear. Quanto ao etanol, para que avance de fato no mercado, é necessária a eliminação da tarifa de importação nos EUA, o que a presidente Dilma tem que defender, ainda mais nesse contexto em que os países cooperam em segurança energética”, ressalta Marcos Jank, presidente da Única (União das Indústrias de Cana-de-Açúcar).

“O momento é muito propício para aproximação bilateral, já que temos um novo governo que está sinalizando com a intenção de se aproximar de parceiros importantes para o País. O Brasil tem potencial de exportar muito mais aos Estados Unidos. Há interesse mútuo de ampliação do comércio. Com o real valorizado, nossas exportações de manufaturados ficam mais caras, mas não se pode desenvolver políticas e estratégias de longo prazo com base no câmbio porque as cotações mudam. Então, independentemente do momento de curto prazo, achamos que o potencial entre os dois países é muito grande. O Brasil também vive uma fase positiva para atrair investimentos, tanto no setor automotivo como em outros. A Ford anunciou investimentos de R$ 4,5 bilhões entre 2011 e 2015, o que demonstra confiança no País. O Brasil deve ainda aproveitar para atrair recursos para infraestrutura; caso contrário, os gargalos impedirão que o crescimento econômico do País atinja o seu pleno potencial”, ressalta Marcos Oliveira, presidente da Ford e conselheiro da Amcham.

“O discurso de Obama consiste em grande avanço no diálogo bilateral. Brasil e Estados Unidos têm muito a fazer juntos. Gostei  muito da simpatia do presidente americano. A visita dele marca a possibilidade de um novo relacionamento entre os dois países, com retornos positivos para ambos”, afirma Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

“Nos últimos anos ou talvez no último governo, nos afastamos um pouco dos EUA, mas, sem sombra de dúvida, eles ainda são a grande potência do mundo e essa nova fase, de maior aproximação, é fundamental ao crescimento do Brasil. Podemos tirar proveito dessa relação, tanto para que exportemos mais nossos bens e serviços ao mercado americano como para importarmos muita tecnologia e conhecimento, abrindo a possibilidade para que o País agregue mais valor aos seus produtos e serviços”, comenta Maria Fernanda Teixeira, diretora presidente da First Data e conselheira da Amcham.

“Desta vez, os Estados Unidos não apoiaram o Brasil para o Conselho de segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), mas se moveram de maneira inédita nessa direção. Barack Obama, em um desdobramento do que fez na Índia, está assumindo um compromisso de tentar levar adiante a ampliação do conselho e está implícito nisso que o Brasil seria incluído. De uma maneira geral, avaliando a visita de Barack Obama ao Brasil, temos de perceber que, no panorama internacional de hoje, abrem-se várias trilhas onde Brasil e EUA podem ser companheiros de verdade. Em termos práticos do que foi acertado, a assinatura do Teca (Acordo de Cooperação Econômica e Comercial) é de maior importância porque abre um canal de interlocução que poderá, no futuro, no longo prazo, criar caminhos para a negociação de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e os EUA. Mas muito antes de cherarmos a isso, o Teca gerará resultados na desobstrução de barreiras técnicas, aduaneiras e sanitárias, além da adoção mais rápida de padrões comuns e agilidade em propriedade intelectual”,  avalia Roberto Abdenur, que foi embaixador do Brasil nos EUA (2004 a 2007) e atualmente presta consultoria à Amcham.

“A visita de Barack Obama foi excelente. Os dois líderes concordaram em construir uma nova relação Brasil-EUA, dando importância ao comércio e aos investimentos. Assinamos um acordo de cooperação econômica com o Brasil (Teca), um passo bastante positivo. Trabalhar as políticas comerciais com o nosso Congresso, embora isso não seja fácil de se acontecer. Temos que trabalhar por mercados abertos”, conclui Thomas Shannon, embaixador dos EUA no Brasil.

 

 

registrado em: