Estabilidade política e crescimento econômico no sul da África trazem oportunidades em infraestrutura e agronegócios aos empresários brasileiros

por andre_inohara — publicado 24/07/2012 18h10, última modificação 24/07/2012 18h10
São Paulo – Estratégia comercial brasileira é diversificar parcerias na África Austral (sul do continente), onde estão a África do Sul e países de língua portuguesa como Angola e Moçambique.
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O comércio entre Brasil e África pode ir muito além de petróleo e seus derivados – o principal item de comércio bilateral. O crescimento econômico da África Austral (sul do continente), possível graças ao avanço do processo de estabilidade política, traz inúmeras oportunidades de investimentos em infraestrutura, agronegócios e exploração de recursos minerais para os empresários brasileiros.

A estratégia do governo do Brasil para aumentar a presença na África é incentivar os negócios e parcerias comerciais nessa região. Na África Austral, concentram-se países com alto potencial de desenvolvimento como Moçambique e Angola, e também a África do Sul, principal economia do continente, segundo João Ulisses Rabelo Pimenta, analista de Gestão e Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento – Apex-Brasil.

“O aumento da renda na parte austral da África destaca o início da exploração dos recursos naturais por muitos países, com crescimento de infraestrutura. Isso traz verdadeiras oportunidades de integração em transportes, portos e bens de consumo entre Brasil e África”, afirmou o analista, durante o comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (24/07).

Um continente com oportunidades promissoras

Apesar dos distúrbios políticos recentes no norte da África, que culminaram na queda dos regimes ditatoriais do Egito, Tunísia e Líbia em 2011, o continente tem caminhado para a consolidação democrática, observa Rabelo Pimenta.

“Cada vez mais a África melhora sua governança. Ao longo do tempo, os países têm se organizado mais e isso tem se refletido em mais oportunidades de diversificação dos negócios”, comenta o analista da Apex-Brasil.

De acordo com dados da Mo Ibrahim Foundation de 2011, entidade que mapeia os países africanos com melhor ambiente democrático, a África Austral possui os melhores índices de governança do continente.

Depois da Ásia, particularmente a China, a África é a região do mundo que mais cresce. “Na região austral, temos Angola, Moçambique e Zâmbia como as economias que mais vão crescer até 2015”, observa Pimenta.

Em Angola, o desenvolvimento da indústria petrolífera e de recursos minerais abre espaço para vários produtos brasileiros, segundo o analista. “O país vai precisar de muitos produtos ligados a essas áreas”, destaca.

Por outro lado, Moçambique é um país que precisa de bens de consumo e equipamentos. “O Brasil não é um dos principais fornecedores, mas pode melhorar seu relacionamento com mais exportações de frangos, cereais e tratores.”

Na África do Sul, com perfil econômico mais diversificado, as parcerias poderiam ser no reforço da infraestrutura de transportes. “O país já é uma conexão logística para outros da África e vários continentes. Trabalhando bem o lado oriental (que exporta produtos para Ásia e Oceania), a vazão de mercadorias e serviços pode aumentar.”

A corrente de comércio

Em termos de comércio, o foco da agência brasileira é ampliar o comércio de alimentos – frango e boi – e bebidas, expandindo a cadeia do agronegócio, conforme Pimenta. “Nesses artigos, somos os líderes de exportação. Mas podemos aumentar nossa concentração em açúcar e carne”, comenta o analista.

De acordo com a Apex-Brasil, o intercâmbio comercial Brasil - África entre 2007 a 2011 resultou em uma corrente de trocas de US$ 27,6 bilhões no período e um déficit de US$ 3,3 bilhões para o Brasil. Nesse período as importações brasileiras somaram US$ 15,4 bilhões e as exportações, US$ 12,2 bilhões.

O fluxo comercial com a África é formado, de modo geral, por petróleo e alimentos. A pauta brasileira de exportações à África consiste, basicamente, de minério de ferro (56%), açúcar bruto e refinado (24%) e carne de boi ‘in natura’ (7,3%). As vendas de frango ‘in natura’ somaram 3,3% do total.

Em contrapartida, a África costuma vender muito petróleo e derivados ao Brasil (84,9%), além de produtos diversos (5,1%) e adubos e fertilizantes (5%).

Se comparado aos países desenvolvidos, a participação brasileira na África é pequena. Segundo a Apex-Brasil, o Brasil foi o 16º maior fornecedor do continente em 2010, com 2,1% de participação no fluxo de exportações. A China foi a maior exportadora, com 13,8% da fatia total, seguida de França (8,1%) e Estados Unidos (6,5%).

África do Sul

No continente africano, a África do Sul é um dos melhores países para se fazer negócios, disse o cônsul econômico da República da África do Sul, Willem van der Spuy.

"Muitos países melhoraram o ambiente democrático e restauraram a estabilidade macroeconômica. Isso deu maior credibilidade e transparência, que ajudou a reduzir a corrupção”, afirma.

Com economia diversificada, o país está a procura de investidores em setores como TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), vestuário e calçados, autopeças, química, energias renováveis, turismo e aeroespacial.

Na região, o país é signatário de vários acordos comerciais. Um tratado de livre comércio com a SADC (sigla em inglês que representa a associação de países da África Austral) garante acesso a um mercado consumidor de 200 milhões de pessoas.

O país também negocia acordos mais estreitos de comércio com a Índia e Europa, o que vai aumentar o seu mercado para 700 milhões de pessoas, segundo Spuy. Para o cônsul, uma parceria com o Brasil seria importante não só do ponto de vista comercial, mas de competitividade.

“Não somos apenas consumidores e exportadores de matérias-primas. Também fabricamos manufaturas, e, ao fazer comércio recíproco, podemos complementar nossas cadeias produtivas e reduzir nossos custos”, disse Spuy.

Cotia Trading

Apesar da melhora do ambiente para negócios na África, os empresários ainda precisam tomar alguns cuidados, disse Marcelo Turri, trader da Divisão de Exportação da Cotia Trading.

Com o fim dos conflitos armados e o avanço da democratização da informação pela internet, muitos importadores africanos têm acesso a preços de produtos no mundo inteiro. Até mesmo a corrupção cessou, disse Turri. “Os brasileiros têm que ter muita flexibilidade e competência, porque eles (os africanos) sabem fazer negócios”, afirma.

Usando Angola como exemplo, Turri disse que a forma de pagamento mais comum entre um produtor brasileiro e o importador africano é a carta de crédito. “Ela tem que ser emitida ou confirmada por um banco americano ou europeu de primeira linha, porque o sistema financeiro não é muito desenvolvido”, comenta.

Na negociação, é preciso contornar algumas questões comerciais relativas à confirmação ou substituição de alguns itens. Muitas vezes, o pedido de troca de alguma mercadoria ou mudança de especificação demora uma semana, porque alguns empresários africanos não têm o costume de checar a correspondência eletrônica diariamente, como é feito no Brasil.

“Um simples telefonema resolve, mas é importante ter alguma confirmação por escrito”, ressalta o executivo.

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