Exportação de soja para a China quadruplica com guerra comercial, mas há lado ruim para o Brasil, diz Marcos Jank

publicado 12/09/2018 13h15, última modificação 17/09/2018 11h32
São Paulo – Alta no preço da soja afeta competitividade do setor de carnes, que usa o insumo na produção

A guerra comercial entre China e Estados Unidos traz uma notícia boa e uma ruim para o Brasil, disse Marcos Jank, CEO da Asia-Brazil Agro Alliance. “A boa é que a exportação para a Ásia (principalmente a China) realmente cresceu muito. No agronegócio, foi de 10 bilhões de dólares para quase 45 bilhões de dólares”, observa, durante o comitê de Comércio Exterior da Amcham-Brasil na terça-feira (11/9). Jank é ex-presidente da UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) e ex-diretor global de Assuntos Corporativos da BRF.

O bom desempenho foi gerado por um único produto, a soja, e justamente por desvio de comércio, acrescenta Jank. “Nesse momento a soja entra até com certo incentivo da China, por conta da guerra comercial (com os EUA). A China sobretaxou a soja americana, mas é supercomplicado.”

A má noticia é que a alta procura pela soja brasileira vai afetar a exportação de carnes, outro item representativo da pauta exportadora. “Se o Brasil tem prêmio de preço na soja (por conta da alta procura), destrói a competitividade das nossas carnes. Que são feitas (alimentadas) por farelo de soja”, argumenta.

Quando o Brasil exporta carne, está vendendo um produto por quatro a dez vezes mais valor por tonelada do que a soja. “O grão vai a menos de quinhentos dólares por tonelada, e a carne vai de dois mil dólares a cinco mil dólares”, compara Jank.

Nem tudo são flores

De modo geral, o Brasil não está se beneficiando da disputa entre China e Estados Unidos, observa Jank. “A relação com a China não é de flores. Apesar de a gente imaginar que a guerra comercial ia jogar a China para o nosso lado, ela faz o que quer. E o que ela tem feito no agronegócio é comprar soja, cada vez mais. O resto todo é complicado, principalmente no setor de carnes e açúcar.”

O gigante asiático está criando dificuldades para as exportações dos dois produtos. “Nesse momento, estamos com problema de antidumping de frango e salvaguarda no açúcar. Dois produtos que vêm na sequência da soja e estão hoje sendo barrados na China”, exemplifica o executivo.

Enquanto o Brasil discute o assunto na Organização Mundial do Comércio (OMC), as exportações dos dois produtos vão se reduzindo. Por causa da salvaguarda, o volume exportado de açúcar para a China “quase desapareceu”, pontua Jank. “O frango agora começou a implantação de antidumping faz alguns meses, com tarifas de 18% a 38%. Também estamos correndo risco de sofrer.”

Efeitos da guerra comercial

Para Jank, o maior problema da guerra comercial é que ela provoca disrupção das cadeias de valor. “Você tem a mão poderosa dos estados afetando as vantagens competitivas. No caso da soja, é uma notícia ruim para a gente.”

Se o Brasil tivesse se dedicado a fechar acordos bilaterais de comércio, haveria mais mercados para redirecionar os produtos, lamenta o executivo. Para comparar, Jank cita o caso da Austrália, que tem mercados abertos em praticamente toda a Ásia.

O Brasil, por sua vez, tem mercado aberto em poucos países, concentrados principalmente na região do Oriente Médio. Há restrições de exportação de carne na Rússia e China, e portas fechadas no Japão, Coreia do Sul e Índia. “Essa é a tragédia de ficar 20 anos olhando os outros fazerem acordos, acertarem os sistemas sanitários, rastreabilidade e, principalmente, reduzindo tarifas e ampliando cotas”, assinala Jank.

Guerra comercial no cenário de risco das empresas

A tensão comercial global e o cenário de guerra entre os Estados Unidos trazem uma pressão extra para o governo brasileiro que será eleito em outubro. A Câmara Americana de Comércio (Amcham) entrevistou 130 executivos de empresas com operação no Brasil e identificou que 66% deles já trabalham com cenário de risco e impacto econômico e comercial nos negócios do País.

A enquete foi realizada em 25/7, com os executivos que participaram do seminário da Amcham-São Paulo ‘As Novas Dimensões do Comércio Global’. Para acessar a pesquisa, clique aqui.