Há espaço para manufaturados brasileiros na China, diz Abdenur

por andre_inohara — publicado 28/03/2011 16h32, última modificação 28/03/2011 16h32
André Inohara
São Paulo – Crescimento do mercado interno e política voltada ao consumo criam boas oportunidades para produtos do País, avalia ex-embaixador.
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Apesar do muito que se tem dito em contrário, há, sim, espaço para produtos brasileiros de valor agregado na China. Para Roberto Abdenur, que foi embaixador do Brasil no gigante asiático de 1989 a 1993, o mercado interno chinês cresce aceleradamente, e haverá nichos que o País poderá ocupar.

Abdenur esteve na Amcham-São Paulo nesta segunda-feira (28/03) como convidado de evento de capacitação para as empresas que irão à China no próximo dia 11 de abril, em missão comercial da Amcham. Durante o encontro, o embaixador também disse que ampliar as relações comerciais com a China trará mais vantagens ao Brasil do que o contrário. No entanto, é necessário um esforço urgente entre governo e empresas para aumentar a competitividade dos bens brasileiros no exterior.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Amcham: Que passos são necessários para se exportar mais produtos de valor agregado à China?

Roberto Abdenur: A mensagem que a Amcham tem procurado veicular é a de que o empresariado brasileiro precisa despertar para a enormidade do mercado interno chinês. Infelizmente, o Brasil possui níveis baixos de produtividade, mas há nichos de mercado na China onde os produtos brasileiros são muito competitivos e originais.

Por exemplo, o Brasil possui produtos originais no segmento de cosméticos. O consumo desses bens na China é um dos mais altos do mundo. E mesmo onde a China é altamente competitiva, como confecções e calçados, há produtos brasileiros de excelente qualidade e design. Refiro-me a bens de consumo, pois vender bens de capital a esta altura me parece mais difícil.

Amcham: Qual o tamanho do mercado interno chinês?

Roberto Abdenur: É recomendável que as empresas se informem sobre como vender ou produzir na China, para atender a um imenso e crescente mercado de consumo. As estimativas para a nova classe média chinesa vão de 200 milhões a 300 milhões de pessoas, talvez mais. O fato é que ela está se expandindo e seus integrantes têm nível de renda cada vez maior.

Há que se atentar também para um importante desenvolvimento político na China. Com a aprovação do plano quinqüenal de 2011 a 2015, o governo está enfatizando o aumento do consumo como fator de crescimento econômico.

A China tem se baseado, sobretudo, nos investimentos estrangeiros e nas exportações, de modo que o esforço de proporcionar à população um nível maior de consumo representa uma ampliação adicional desse imenso mercado. Não é fácil fazer negócios na China, mas quem souber aproveitar as oportunidades ficará muito bem.

Amcham: E como o Brasil pode enfrentar a concorrência chinesa na América Latina e em outros mercados?

Roberto Abdenur: O desempenho do governo tem sido muito positivo, particularmente o do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, em procurar reforçar nossa capacidade de defesa comercial, sobretudo em casos de dumping à industria brasileira.

Mas precisamos ter em mente que as medidas defensivas são paliativos temporários. Leva-se muito tempo para que, uma vez iniciados, os procedimentos administrativos de averiguação terminem e se chegue à imposição de uma tarifa antidumping, que, por sua vez, tem duração limitada. A China é membro da OMC e tem acesso aos mesmos mecanismos de defesa que os demais.

Quando me perguntam se a China é uma ameaça, digo que não. Ela é um desafio, mas também uma grande oportunidade. Graças à China, os produtos básicos de exportação brasileiros tiveram suas cotações extraordinariamente alcançadas, e têm contribuído em boa medida para o próprio crescimento da economia brasileira. Não podemos nos esquecer disso.

Não se pode, contudo, ter a ilusão de que é possível criar uma Muralha da China às avessas com medidas defensivas. Empresas e governo precisam se mover com a maior velocidade possível para aumentar a competitividade brasileira.

Amcham: Com o novo governo sinalizando um esforço maior no comércio exterior, ficou mais fácil fazer comércio com Estados Unidos e a China?

Roberto Abdenur: Quando fui embaixador nos EUA, de 2004 a 2007, o Brasil tinha saldo comercial bilateral positivo de mais de US$ 8 bilhões. Agora, a situação se inverteu, e o Brasil tem um déficit de US$ 8 bilhões por conta da crise econômica nos Estados Unidos.

Parte do déficit brasileiro se deveu à competição chinesa nos EUA, e aos produtos de países que têm acesso preferencial.  O mercado americano é muito aberto, e o Brasil pode aumentar suas exportações de manufatura mais facilmente para os EUA do que para a China, porque ela é praticamente imbatível nesses bens. Isso não é motivo para desanimar, mas para procurar nichos no mercado chinês.

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