Nenhum país inova se estiver isolado dos outros, analisa diretor do Itamaraty

por marcel_gugoni — publicado 17/08/2012 15h45, última modificação 17/08/2012 15h45
São Paulo – Para Ademar Seabra da Cruz, inovação pode crescer se País abrir mais seu mercado e seguir exemplos estrangeiros de comportamentos de inovação sistêmica.
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A competitividade brasileira em um mundo globalizado está diretamente ligada à capacidade de o País estreitar laços com parceiros a fim de inovar em conjunto. A avaliação de Ademar Seabra da Cruz, chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, é de que nenhum país inova se estiver isolado. 

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“Inovação é coevolução. Isso implica em que diversos atores interajam”, afirmou ele, que participou do seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado pela Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (16/08). “Com a globalização das economias e dos processos produtivos, não temos como inovar no Brasil de maneira autóctone, isolada. A internacionalização, da qualidade e da competitividade, da mudança do perfil produtivo, envolve interação cada vez mais forte.” 

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É imperativo que o Brasil reforce suas parcerias com países da vanguarda tecnológica, entre eles Estados Unidos, China e Coreia do Sul, para que ganhe eficiência internamente. Neste sentido, o representante do Itamaraty diz que políticas de conteúdo local podem ser úteis em uma etapa inicial do desenvolvimento de certos setores, mas no longo prazo têm resultados limitados. “Há uma política de conteúdo nacional que é importante para dar proteção seletiva a fim de gerar desenvolvimento de certos setores, mas precisamos ter uma porta de saída desses mecanismos para evitar que empresas ou setores se tornem dependentes desses apoios”, analisa. 

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Seabra da Cruz considera que, no Brasil, temos, sim, exemplos de boas práticas de inovação. “Não somos um deserto de inovação. Há parques de inovação em vários lugares que geram coisas novas”, ressaltou. O exemplo que a economia brasileira deveria seguir dos outros países é a inovação sistêmica, da qual “a economia brasileira ainda está longe”. 

Leia os principais trechos da entrevista com Ademar Seabra da Cruz: 

Amcham: Em que consiste o programa da diplomacia da inovação e quais os primeiros resultados observados?

Ademar Seabra da Cruz: A diplomacia da inovação foi elaborada pouco antes de 2009 para cá, muito embora houvesse [no ministério] práticas nesse sentido, e visa a descobrir de que modo podemos nos conectar com os grandes centros de pesquisa e desenvolvimento do exterior, com as empresas e universidades estrangeiras e com os próprios governos de modo que o Brasil se beneficie dessas relações internacionais para melhorar o ambiente de desenvolvimento tecnológico doméstico. Na diplomacia da inovação, o Itamaraty tem um de seus principais emblemas, mas ela é praticada por qualquer ator do sistema brasileiro de inovação que tenha, no setor internacional, conexão com terceiros e queira compartilhar o processo de transferência, de absorção, de licenciamento e de negociação tecnológica. É como um repositório de experiências de ações que orientam o nosso trabalho. Nossa ambição é entendermos no Brasil a partir de seus principais entraves de inovação, de investimento, de gestão e saber o que podemos buscar por meio de ações conjuntas internacionais para suprir essas necessidades. 

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Amcham: Há exemplos? 

Ademar Seabra da Cruz: Esse conceito já acontece na prática há algum tempo. Veja o caso do programa aeroespacial iniciado entre os anos 1980 e 1990, que passou a ter um grande aprimoramento após um projeto de cooperação com a China, que foi o programa CBERS [China-Brazil Earth-Resources Satellite], que resultou no Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres. Esse programa gerou não só uma capacitação importante da área como também o surgimento de um setor produtivo novo dessa indústria específica, que, mesmo pequeno, teve um impacto tecnológico importantíssimo. Foi a partir daí que iniciamos ou melhoramos a produção de câmeras ‘imageadoras’ e produtos óticos ou que surgiram empresas da área de estabilização de satélites e de radares, por exemplo. 

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Amcham: O sr. diz que nenhum país inova se estiver isolado. Para o comércio exterior, por que essa abertura à inovação é importante?

Ademar Seabra da Cruz: O comércio exterior, feito em bases tradicionais, se não tiver uma preocupação com a diversificação da pauta produtiva brasileira, não tem importância nenhuma porque seu impacto é zero. Nesse sentido, ele pode ter uma importância para a questão de bem estar econômico e social interno, mas não para inovação e mudança do perfil produtivo. Essa questão precisa estar conectada com a política industrial e outros instrumentos econômicos. Entendo que inovação é coevolução. 

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Amcham: O que exatamente essa coevolução significa?

Ademar Seabra da Cruz: Isso implica em que diversos atores interajam. Se uma instituição faz bem sua parte e as demais cumprem de maneira insatisfatória, o processo pode não ser efetivo. No Itamaraty, temos uma percepção clara de que, com a globalização das economias e dos processos produtivos, não temos como inovar no Brasil de maneira autóctone, isolada. A internacionalização, da qualidade e da competitividade, da mudança do perfil produtivo, envolve interação cada vez mais forte para que possamos não exatamente saltar etapas, mas economizar tempo na busca pela eficiência. É aqui que surge o conceito de diplomacia da inovação. Um ponto a considerar que poderia fortalecer a inovação é o da proteção e da abertura do mercado. Sabemos que há uma política de conteúdo nacional e que ela é importante para dar proteção seletiva a fim de gerar desenvolvimento de certos setores, mas temos que ter uma porta de saída desses mecanismos para evitar que empresas ou setores se tornem dependentes destes apoios. No Brasil, temos exemplos de boas práticas. Não somos um deserto de inovação. Há parques de inovação em vários lugares que geram coisas novas, mas a economia brasileira está longe de um comportamento sistêmico da inovação. 

Amcham: Qual a mensagem que fica para o empresário e para o setor público nessa questão de competitividade?

Ademar Seabra da Cruz: Os dois lados precisam se conhecer melhor. É fundamental que o estado conheça as necessidades do setor privado e que as necessidades primordiais das empresas sejam incorporadas à agenda dos negociadores externos. O que queremos e podemos fazer, do ponto de vista normativo no Itamaraty, é incentivar que o setor privado seja mais ambicioso. É preciso buscar competir em mercados além daqueles em que já atuamos. Esse ímpeto pela expansão do negócio é o que acompanha o aprimoramento tecnológico, o aumento da base geográfica e o acesso a novos mercados. Mas volto a dizer: fazer a coisa certa sozinho não faz sentido. Tem que ser coordenado e integrado. 

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