Prometeu e cumpriu: os impactos dos 10 dias da presidência Trump no Brasil, segundo evento Amcham

publicado 31/01/2017 15h10, última modificação 31/01/2017 15h10
São Paulo – Diplomata Marcos Troyjo analisa os impactos das primeiras medidas do novo governo
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Donald Trump completou 10 dias na presidência dos Estados Unidos e com sinais claros que seu lema de governo seguirá a linha do “prometeu, cumpriu”. A Câmara Americana de Comércio (Amcham) analisou os impactos das primeiras ações em evento online promovido nesta segunda-feira, dia (30/1). 

 “Ao contrário do que muitos apostavam, Trump deve manter no mandato o tom e as diretrizes de sua campanha”, contextualizou o diplomata Marcos Troyjo, em participação no “WebCOMEX Amcham: Os 10 primeiros Dias de Governo Trump”.  

O novo governo já começou em ritmo acelerado colocando em prática três promessas de campanha: 1) saída dos Estados Unidos do TTP (Tratado TransPacífico); 2) decreto para a construção de um muro na fronteira com o México; e 3) proibição para a entrada de habitantes de alguns países de maioria muçulmana.

Impacto no Brasil

Para o Brasil, as medidas protecionistas não devem ser tão impactantes. “Do ponto de vista comercial, o Brasil não será afetado. Mas não é para soltar rojões. É por uma razão ruim. Nosso comércio com os EUA é muito baixo, temos déficit comercial com ele, inclusive”, contextualiza Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia.

Na visão do diplomata, a disputa ficará concentrada em dois pontos focais. “As baterias da Casa Branca estão tão voltadas contra México e China que quase não sobra espaço para outros candidatos a vítima. De modo, acho que o comércio brasileiro pode não ser afetado.”

Na verdade, para Troyjo, o que deve acontecer com o Brasil é um efeito positivo, que não vem das políticas protecionistas, e sim da expansão da infraestrutura. Durante a corrida eleitoral, o candidato Trump deixou claro que gostaria de modernizar a infraestrutura dos Estados Unidos.

Na visão do diplomata, a alta probabilidade deste programa ser colocado em prática vai aumentar a demanda por minérios e trazer a necessidade de compra de matérias-primas. “E é justamente nesse ponto que o Brasil pode sair ganhando”, explica.

No entanto, a promessa de investir em infraestrutura do país, modernizando-a, pode diminuir a entrada de capital estrangeiro no Brasil, especialmente, no contexto macroeconômico frágil e de baixa capacidade de investimento.

 “Nós, Brasil, vamos precisar de grande montante de capital estrangeiro e, nessa política do Trump querer modernizar a infraestrutura do país, é natural que capitais dispostos a investir neste tipo atividade se sintam mais atraídos para os EUA.”

Efeitos no mundo

Se para o Brasil, as políticas de Trump podem alternar consequências boas e ruins, para o mundo, no geral, não deve ser tão positivo, assim como para os EUA. Segundo Troyjo, a desoneração de impostos pode ser uma boa notícia a princípio, só que ela pode aumentar a já alta dívida dos Estados Unidos. O governo aposta que o crescimento causado pela medida equilibrará a equação. “Caso a expansão da infraestrutura não seja custeada com parcerias com o setor privado, a matemática pode ficar insustentável”, alerta Troyjo.

As medidas protecionistas, no entanto, devem ser ruins para todos. Donald Trump é o primeiro presidente que não trabalha para a abertura de marcado. “Não existe um presidente americano de (Harry) Truman a (Barack) Obama que não tenha trabalhado para a abertura de mercado”.

Na questão com o México, a proposta de aumentar em 20% a taxa sobre produtos importados do país latino vai ser rebatida para o consumidor final. Para Troyjo, essa conta só tem como ser paga de duas maneiras: ou o consumidor compra mais caro, ou compra outros produtos. A provável taxação de produtos vindos do México e da China, principalmente, pode onerar o custo de bens para o próprio cidadão norte-americano. “E eu acho que a ficha deles ainda não caiu”, emenda.

Já, no que diz respeito ao TTP (Tratado TransPacífico,  a saída dos Estados Unidos é ruim para o mundo, conta o professor. “Porque uma maneira de diminuir as assimetrias do comércio internacional, é a criação de padrões. O TTP contava com 40% da economia global, era um mercado importantíssimo”, analisa. 

Para Troyjo, o TTP representava uma evolução no  percurso que a economia global vinha fazendo em direção a acordos comerciais. “Se 40% da economia global, estabelecesse padrões regulatórios e de propriedade intelectual, criaríamos também melhores condições para proteção ambiental e desenvolvimento sustentável. O TTP representava uma evolução. Agora, estamos regredindo algumas casas na ausência dele”, conclui Marcos Troyjo. 

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