Roberto Abdenur: Brasil ganha ao explorar mais negócios com China

por giovanna publicado 10/11/2010 19h10, última modificação 10/11/2010 19h10
Daniela Rocha
Para embaixador, que acompanhou comitiva da Amcham ao gigante asiático, há oportunidades para produtos manufaturados brasileiros.
abdenur_materia.jpg

O Brasil tem muitas oportunidades a explorar com a China, desde a atração de investimentos até a inserção de produtos manufaturados naquele mercado. A avaliação é de Roberto Abdenur, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na China e acompanhou a primeira missão comercial da Amcham ao gigante asiático, realizada de 11 a 19/10.

Em entrevista ao site da Amcham, ele destacou aspectos da história chinesa, de seu trabalho como diplomata naquele país e a evolução da relação bilateral. Acompanhe:

História
“Falando em termos mais amplos da relação Brasil-China, lembro de certas experiências que fazem parte de minha própria biografia. Participei de momentos fundacionais da relação bilateral, que foram as primeiras visitas de alto nível político por autoridasdes brasileiras à China. A primeira se deu em 1982, pelo então chanceler brasileiro Saraiva Guerreiro, de quem eu era colaborador, responsável por assuntos comerciais. Este foi o primeiro contato depois do reconhecimento da China comunista pelo Brasil, o que ocorreu no governo de Ernesto Geisel em meados da década de 70, de modo que essa visita do chanceler brasileiro consistiu no lançamento do diálogo político com os chineses. Guerreiro foi recebido, na ocasião, pelo líder máximo da China, Deng Xiaoping, que sucedeu Mao Tsé-tung e lançou o processo de reforma de abertura do país. Em 1982, a China dava os primeiros passos no afastamento do maoísmo. Depois, em 1984, participei de outro momento histórico, a primeira visita de um presidente brasileiro à China, João Baptista Figueiredo. Atuei na preparação, no acompanhamento e depois no seguimento dos pontos decididos nessas visitas.
A China que vi nos anos 80 era ainda muito pobre, isolada internacionalmente, estava muito longe de desenvolver a extraordinária capacidade econômica que hoje demonstra. Passados cinco anos dessas visitas, me tornei embaixador em Pequim, entre janeiro de 89 e meados de 93, portanto por quatro anos e meio, em um período que foi difícil porque logo no início da minha gestão ocorreu o trágico movimento estudantil da Praça da Paz Celestial, resultando em um período de maior isolamento da China pelos países ocidentais. Foi uma fase de incertezas, de disputas internas. A China prevaleceu, então, sob a liderança de Deng Xiaoping, que deu impulso às reformas de abetura.”

Salto
“De 20 anos para cá, a China deu um salto extraordinário de desenvolvimento. Em 1989, meu primeiro como embaixador no país, o Brasil ainda tinha uma economia maior do que a chinesa. O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro estava um pouco abaixo de US$ 400 bilhões e o da China era de cerca de US$ 370 bilhões. Em duas décadas, a China sustentou uma taxa de crecimento de 10% ao ano e o Brasil esteve patinando até muito recentemente, com taxas de 2% a 2,5% ao ano.
A visão que tivemos agora na missão da Amcham à China é de um país pujante, com altíssimo grau de competitividade na sua indústria manufatureira, com uma classe média de quase 400 milhões de pessoas e que cresce a cada ano. As cidades que outrora eram empobrecidas, hoje são vibrantes.”

Brasil-China de hoje
“A China é a segunda maior economia do mundo. Vimos na missão da Amcham de maneira muito material os fenômenos que estão hoje traduzidos nas estatísticas da relação bilateral. Por um lado, o surgimento da China como uma competidora do Brasil em terceiros mercados, inclusive nos Estados Unidos, na América Latina, no Mercosul e também dentro do próprio mercado interno brasileiro. Houve uma transformação rápida da China como primeira parceira comercial do Brasil. Desde o inicio do século passado, os EUA suplantaram a poderosa  Grã-Bretanha e foram até recentemente, de longe, o principal parceiro comercial do Brasil. Porém, com a profunda crise na economia americana e o crescimento virtuoso da chinesa, a gigante asiática será por um bom tempo nossa principal parceira.”

Oportunidades
“Um dos motivos da missão da Amcham à China é a questão dos investimentos. Essa é outra novidade. A China está se transformando numa das principais fontes de investimentos diretos no Brasil. Neste ano, o País deve receber entre US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões, sem em contar créditos que ela já abriu de US$ 10 bilhões, sendo um deles para a Petrobras em troca do fornecimento de petróleo cru. Foi uma experiência muito promissors e inovadora por parte da Amcham introduzir-se na relação Brasil-China como catalizadora na atração de investimentos chineses ao Brasil e também, em alguns casos, na promoção de investimentos brasileiros na China, além da promoção de exportações brasileiras. Notei claramente, na feira de Cantão, que membros da missão brasileira fizeram muitos contatos úteis, algumas encomendas e parcerias que pretendem desenvolver de maneira continuada nos próximos meses e anos.”

Manufaturados brasileiros
“Há um grande potencial para empresas brasileiras investirem e exportarem para a China. Essa é uma dimensão pouco percebida no Brasil, que enxerga a China como grande fornecedora de produtos e uma competidora, o que precisa mudar. Setores do comércio exterior estão muito envolvidos com o dia a dia da relação e deixando de ver oportunidades para empresas brasileiras como mercado para seus produtos. O poder aquisitivo dos chineses aumentou assim como seus hábitos de consumo. Por exemplo, quando eu era embaixador, a China importava algum café, mas não era muito e destinado aos grandes hotéis que recebiam estrangeiros. Hoje os chineses estão viajando e sofisticando hábitos. É comum vermos até Starbucks lá. A China também é um mercado importante para o consumo de vinhos. O Brasil não é grande exportador de vinhos, pode ampliar suas vendas para esse mercado. Além disso, o País conta com empresas altamente capacitadas nas áreas de cosméticos, fármacos, autopeças e tecnologia da informação. Há muitas coisas para vender além dos três produtos que hoje representam 60% ou mais das vendas à China, que são minério de ferro, soja e petróleo. Certamente, o País deve avançar nas vendas de mais produtos manufaturados à China.”

 

 

registrado em: