Saída para o setor de TI é encontrar nichos de mercado, diz presidente da Ci&T

por andre_inohara — publicado 30/05/2011 12h19, última modificação 30/05/2011 12h19
André Inohara
São Paulo – Câmbio valorizado e falta de mão de obra especializada encolhem mercado de TI no exterior, obrigando empresas nacionais a focar nichos.
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Gargalos de competitividade limitam a criação de novas companhias brasileiras de Tecnologia da Informação (TI) e sua atuação no mercado internacional. Nesse contexto, a saída é encontrar nichos de mercado como design de soluções e novas tecnologias, disse o CEO da Ci&T, César Gon.

O executivo participou do Café de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo na última quinta-feira (26/05), onde debateu com presidentes de empresas exportadoras os desafios enfrentados para conquistar mercados internacionais.

A Ci&T é uma consultoria especializada em implantação e desenvolvimento de sistemas gerenciais e marketing digital e foi considerada pelo jornal Valor Econômico em 2009 como uma das 25 empresas mais internacionalizadas do País.

Pesquisa da Amcham sobre comércio exterior, divulgada na última quinta-feira (26/05), indicou que as limitações da infraestrutura logística lideram as preocupações dos empresários da cadeia exportadora. Para a indústria de serviços em Tecnologia da Informação (TI), porém, o maior impacto negativo está no câmbio valorizado e na escassez de mão de obra especializada, afirmou Gon.

Veja a entrevista de Gon ao site da Amcham:

Amcham: Quais as principais dificuldades que as empresas de TI encontram para competir no mercado internacional?

César Gon: O câmbio valorizado e a formação de mão de obra de qualidade. Em relação à mão de obra, não somos competitivos para prover soluções de call centers ou mesmo processos de codificação. O Brasil não é, por definição, competitivo para esse tipo de serviço. Além disso, o câmbio nos empurra para os nichos de mercado de alto valor agregado. Isso significa ficar restrito a um mercado pequeno, menos competitivo e que, na linha do tempo, tende a gerar empresas não tão dinâmicas quanto as que estão disputando mercados mais sofisticados. O mercado de serviços é extremamente competitivo, e o desafio se torna bem maior quando se considera o processo de apreciação do real, porque os contratos em geral são de longo prazo. Muitos dos contratos que fechamos foram com o dólar a R$ 2,20 ou R$ 2,30, e agora precisamos de executá-los a R$ 1,60 ou R$ 1,58. Temos trabalhado com centros de desenvolvimento a partir da China e da Argentina, além do Brasil, para oferecer serviços onde a influência cambial esteja mais diluída.

Amcham: Como está o desempenho das empresas brasileiras de TI no exterior?

César Gon: Em geral, a indústria tem ido mal. O fato de a Ci&T provavelmente ser a única empresa brasileira de TI que fatura dois dígitos com exportações, cerca US$ 35 milhões, não é motivo de comemoração, mas lamentação. Sem os gargalos competitivos, poderíamos ter um parque maior de empresas testando, evoluindo e se modernizando em mercados mais competitivos. Isso de maneira geral diminui a eficiência da indústria como um todo e reduz nossas chances de ter uma forte indústria local de TI. O pouco espaço conquistado pela indústria nacional vem diminuindo pelo processo de desvalorização do dólar e falta de competitividade das empresas locais.

Amcham: Que nichos de serviços de alto valor agregado em TI o Brasil poderia ocupar?

César Gon: Design de soluções e novas tecnologias são as áreas onde o Brasil tem mais vocação competitiva, até pela maturidade da indústria local. Porém, mesmo nesses espaços, já enfrentamos barreiras de escassez de capital humano. As discussões de competitividade giram muito em torno de portos, infraestrutura logística e exportação de commodities, mas a agenda de incentivos à exportação de serviços de maior valor agregado está bem distante. Veja o caso dos produtos manufaturados, que seriam os intermediários de alto valor agregado. Eles também enfrentam problemas. Contudo, quando o assunto são serviços de tecnologia, estamos falando do topo da pirâmide de produtos de valor agregado. Ela envolve propriedade intelectual, capital humano, know how e tecnologia.

Amcham: E qual o nível de qualidade da mão-de-obra brasileira?

César Gon: O Brasil forma uma pequena quantidade de mão de obra capacitada. Parte menor dela vem de universidades de elite como USP, Unicamp, ITA e as federais. Há um gargalo grande de formação e qualificação, e as empresas têm dificuldade de encontrar capital humano de ponta. O Brasil avançou muito pouco na questão da educação e tem problemas estruturais nesse quesito. É claro que uma melhora orgânica vai acontecendo por pressão da sociedade e da própria evolução do País, mas não estou vendo nenhuma ação efetiva pública que vá trazer resultados palpáveis tanto na quantidade de formação de engenheiros como na questão do inglês, um outro gargalo importante.

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