Secretário americano de Comércio defende aumento do intercâmbio bilateral para reduzir déficit brasileiro

por andre_inohara — publicado 21/03/2011 18h27, última modificação 21/03/2011 18h27
São Paulo - Cooperação ampliará oportunidades de empresas brasileiras nos EUA, diz Gary Locke.

O déficit comercial entre Brasil e Estados Unidos, gargalos logísticos, China e Rodada Doha foram algumas das questões endereçadas ao secretário de comércio dos EUA, Gary Locke, durante encontro com jornalistas na Amcham-São Paulo nesta segunda-feira (21/03).

Sobre o comércio bilateral, Locke disse que é preciso estimular as exportações brasileiras como forma de diminuir o déficit comercial com os EUA. Para o País ganhar maior competitividade naquele mercado, o secretário disse que uma forma seria diminuir os gargalos logísticos que aumentam os custos dos produtos brasileiros.

O secretário afirmou estar confiante no avanço das negociações sobre comércio mundial da Rodada Doha como forma de expandir o intercâmbio e aumentar a renda dos países mais pobres. Em relação ao câmbio sobrevalorizado da China, Locke disse ser preferível que a moeda chinesa flutuasse mais.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista de Locke:

 

Déficit comercial brasileiro com os EUA

"Queremos estreitar os laços comerciais e gostaríamos de exportar mais para o Brasil, porque sabemos que o País tem grandes necessidades de desenvolvimento em infraestrutura, educação e tecnologia.

As companhias americanas podem ajudar o governo e o povo brasileiro a alcançarem seus objetivos. Ao mesmo tempo, a forma de reduzir o déficit comercial não é limitar as exportações americanas ao Brasil, mas ajudar a elevar as vendas brasileiras aos EUA.

É por isso que buscamos cooperação econômica e oportunidades para investimentos. Há muitas companhias brasileiras fazendo negócios significativos nos EUA, como a Embraer e a Petrobras. Desejamos mais investimentos brasileiros nos EUA e mais comércio com o Brasil como forma de diminuir os déficits."

Gargalos logísticos brasileiros

"Um dos problemas está nas alfândegas, em quanto tempo as mercadorias americanas esperam o desembaraço aduaneiro nas docas. Tempo é dinheiro. E muitas companhias dos EUA têm fábricas no Brasil que contratam pessoas. Em algumas delas, trabalham de dez a 12 mil empregados.

Precisamos que os produtos cheguem logo, mas algumas matérias-primas que os abastecem vêm dos EUA ou de outros países e ficam paradas na alfândega. Isso aumenta os custos e se traduz em menos rentabilidade, com as fábricas contratando menos empregados.

Também é do interesse do Brasil ter alfândegas eficientes para melhorar os processos de desembaraço aduaneiro. O Brasil quer exportar mais para o mundo. Porém, se os produtos ficam parados nos portos e não podem ser carregados nos navios, o tráfego marítimo aumenta e machuca a competitividade dos produtos brasileiros.

Alguns dos problemas são de infraestrutura. Luciano Almeida, presidente da agência paulista de exportações Investe São Paulo, disse que o Estado precisa de aeroportos, estradas e ferrovias."

Rodada Doha de liberalização do comércio mundial

"O presidente dos EUA, Barack Obama, instruiu nossos negociadores a se empenharem na possibilidade de concluir o acordo neste ano. Estamos torcendo para que os países em desenvolvimento tenham acesso aos mercados em torno do mundo. Essa é uma forma de crescimento econômico e um meio de elevar o padrão de ascensão econômica das pessoas em alguns dos países mais pobres.

Ao mesmo tempo, nem todos os países em desenvolvimento estão no mesmo estágio. Há alguns países mais avançados que outros, como China e Índia, que deveriam abrir seus mercados para os Estados Unidos e outros países.

Sabemos que é importante para os países mais pobres ter acesso aos mercados americano e dos países desenvolvidos para vender produtos, de forma que seu povo possa ter renda para sair da pobreza."

Concorrência dos produtos chineses e câmbio sobrevalorizado

"Ambos os governos sofrem o impacto da sobrevalorização da moeda chinesa, bem como os países do G20, grupo do qual o Brasil é um membro-chave. Eles gostariam que o câmbio (chinês) flutuasse mais livremente.

A sobrevalorização da moeda chinesa tem efeito nos custos dos bens americanos e brasileiros. A posição dos EUA sobre o câmbio chinês é muito clara. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, já falou sobre isso."

Tarifa sobre o etanol

"O Congresso americano, que é o responsável pela aprovação ou não das tarifas, é um corpo independente da Administração. Poderíamos focar nas oportunidades de aumentar o desenvolvimento do mercado de biocombustíveis, abrindo todos os mercados ao redor do mundo para o Brasil e os EUA."

Tratado para evitar tributação

"A comunidade empresarial precisa identificar em que áreas a bitributação é mais sensível e fazer recomendações específicas. Ambos os governos (Brasil e EUA) estão esperando as propostas e estratégias para essa questão. A Amcham entregou propostas que tratam de questões específicas sobre a bitributação."

 

 

Dados sobre o comércio bilateral

O fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos apresenta um movimento de expansão, passando de um patamar de US$ 26,08 bilhões em 2000 para US$ 46,34 bilhões no ano passado. Houve recuo significativo somente em 2009, como reflexo da crise financeira global que eclodiu nos Estados Unidos no final de 2008. 

Em 2010, o intercâmbio atingiu US$ 46,34 bilhões, sendo que o Brasil apresentou um saldo negativo de US$ 7,73 bilhões. Em 2009, a corrente de comércio foi de US$ 35,6 bilhões, também com um déficit brasileiro de US$ 4,4 bilhões. Entre 2000 e 2008, o Brasil sempre apresentou resultados positivos na balança comercial com os EUA.

Os principais produtos brasileiros embarcados aos EUA são: óleos brutos de petróleo; café não torrado em grão; pastas químicas de madeira de não coníferas; ferro fundido bruto não ligado; granitos trabalhados; produtos semimanifaturados de ferro e aço; pneus novos para automóveis de passageiros; aviões a turbojato; ferroniobio (liga usada em siderurgia); e fuel oil (óleo combustível).

Já os itens mais importados dos EUA são: óleo diesel; hulha betuminosa não aglomerada; partes de turborreatores ou turbopropulsores; turborreatores de empuxo; partes de aviões e helicópteros; propanos liquefeitos; óleos lubrificantes sem aditivos; coque de petróleo calcinado; e vacina conta a gripe em doses.

Investimentos

Em 2010, com o arrefecimento da turbulência financeira global, as companhias brasileiras voltaram a tocar seus projetos de internacionalização e o mercado americano foi considerado um dos destinos preferenciais. O indicador de Investimento Brasileiro Direto (IBD) nos Estados Unidos atingiu US$ 3,71 bilhões (fatia de 12,7% do total), acima do US$ 1,78 bilhão de 2009.

Como receptores de recursos brasileiros, os americanos aparecem atrás de paraísos fiscais como as Ilhas Cayman, que ainda se revelam atrativos pela possibilidade de evitar pagamento de impostos comumente cobrados em duplicidade, isto é, em ambos os países.

“O estabelecimento de um tratado que elimine a bitributação entre Brasil e Estados Unidos, objetivo pelo qual a Amcham trabalha há longa data, contribuiria para que boa parte desse capital nacional fosse reorientada para território americano e fortaleceria ainda mais o relacionamento bilateral”, defende Gabriel Rico, CEO da Amcham.

Na outra via, os investimentos americanos no País somaram US$ 6,21 bilhões em 2010, contra US$ 4,91 bi em 2009.

registrado em: