Visita de Obama será chance para avanço em iniciativas para promoção de diálogo político, comércio e investimentos

por giovanna publicado 14/02/2011 19h19, última modificação 14/02/2011 19h19
Belo Horizonte – Embaixador Roberto Abdenur, em entrevista, fala sobre expectativa de maior aproximação bilateral no governo Dilma.

Em março, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, virá ao Brasil pela primeira vez. Para Roberto Abdenur, que participou do comitê de Comércio Exterior da Amcham-Belo Horizonte na sexta-feira (11/02). Essa será uma importante chance de avanço bilateral em iniciativas para promoção do diálogo político, do comércio, dos investimentos e do intercâmbio tecnológico entre os dois países.

Acompanhe os principais trechos da entrevista concedida por Abdenur ao site da Amcham:


Amcham: Qual a sua avaliação com respeito à anunciada vinda do presidente americano, Barack Obama, ao Brasil?
Roberto Abdenur:
A visita de Obama ao Brasil é algo muito positivo porque foi inclusive uma surpresa. O que estava sendo planejado seria a ida da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos. Obama telefonou para ela logo depois das eleições brasileiras, convidando-a a ir a Washington, se possível até antes da posse dela, mas ela não pode ir por razões válidas. Dilma anunciou que planejava ir aos EUA nos próximos meses e Obama tomou a iniciativa de vir ao Brasil (antes), o que é um gesto muito significativo, muito expressivo do crescente interesse dos americanos por uma relação cada vez mais positiva para com o País. Creio que isso seja muito do interesse do Brasil, porque nesses últimos anos houve certo esfriamento da relação, mais do que tudo por conta de algumas posturas do País quanto a questões internacionais, em particular o caso de amor entre o governo Lula e o Irã. Enfim, isso foi superado, foi uma situação anômala e o Brasil hoje é realmente um dos mais importantes parceiros dos Estados Unidos no mundo, como também são os EUA seguramente um dos principais parceiros do Brasil no mundo.


Amcham: O que podemos esperar de fato da visita?
Roberto Abdenur:
Vejo a visita do presidente Obama como algo muito importante e espero que dela resultem novas iniciativas para promoção do diálogo político, do comércio, dos investimentos e do intercâmbio tecnológico entre os dois países. Espero também que o presidente Obama e o governo americano procedam a uma reflexão muito detida nessas semanas até a vinda dele sobre o apoio dos EUA a um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

 

Amcham: Quais as chances de esse apoio a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ocorrer?
Roberto Abdenur:
Houve nesses últimos dias na imprensa brasileira sinais emitidos pelo próprio governo americano em Washington, no sentido de que o Obama não apoiaria o pleito brasileiro por um assento no Conselho de Segurança. O presidente Obama, em uma viagem feita há poucos meses à Índia, de maneira formal e solene, comprometeu-se a apoiar outro país (a Índia) em seu pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança. A Índia é vista hoje pelos Estados Unidos como um contrapeso estratégico ao crescente poderio da China. Ora, o Brasil jamais será contrapeso a ninguém, até porque vivemos em uma região do mundo totalmente livre dos grandes focos de tensão geopolítica no plano internacional – e isso graças em boa medida a 100 anos da diplomacia brasileira, começando com (o barão de) Rio Branco. O Brasil, sim, é um país cada vez mais relevante, até decisivo para uma série de questões internacionais que hoje são um desafio para a comunidade internacional, como mudança climática, comércio, finanças, energia, direitos humanos, aspectos sociais, apoio à África e muitos outros temas de paz e de segurança. Por isso, espero que o presidente Obama, ao vir ao Brasil, traga também o apoio dos EUA ao País. Será um grande desapontamento se, depois de ter dado apoio à Índia, ele não der ao Brasil.


Amcham: Em sua avaliação, que principais temas devem dominar as conversas no encontro de Dilma e Obama?
Roberto Abdenur:
Vejo a hipótese de alguns avanços, talvez a assinatura de uma espécie de acordo quadro sobre comércio e investimento. Não se tratará de uma negociação de abertura de mercados, mas o que os americanos chamam de Trade and Investment Framework Agreements (TIFA). Existem 23 diferentes grupos de trabalho e mecanismos de diálogo em todos os níveis, sobre todos os assuntos entre o Brasil e os Estados Unidos. O importante é que esses organismos tenham continuidade, que eles deem resultados, e que haja um novo impulso político de alto nível na relação bilateral. Esse é o maior significado da viagem. Não se trata de dizer se trará tal ou qual resultado. O importante é o impulso político logo nas primeiras semanas do governo Dilma Rousseff. Isso é muito positivo.


Amcham: Podemos acreditar em uma maior aproximação bilateral ao longo da gestão Dilma?
Roberto Abdenur:
Não há dúvida de que já está havendo uma melhora substancial na atmosfera da relação Brasil-EUA e na política externa que a presidente Dilma Rousseff e o novo chanceler Antonio Patriota estão conduzindo. Será uma política mais sóbria, moderada e pragmática, sem deixar de ser ambiciosa na busca de uma posição de cada vez maior influência para o Brasil no plano internacional. O Brasil, contudo, deve compreender que os Estados Unidos não são um obstáculo necessariamente aos desideratos brasileiros.  Ao contrário, devemos ver os EUA como potenciais companheiros de viagem na trajetória do Brasil a um plano superior de influência no cenário internacional – como também de outro lado China, Índia, África do Sul, Argentina e Mercosul –, mas ter uma política externa de fustigar os Estados Unidos, como de certa maneira houve no governo anterior, seria um erro. Creio que o governo Dilma Rousseff percebe claramente que nos interessa ter uma relação mais positiva com os EUA, e isso não é de maneira alguma ter uma relação submissa aos EUA.  O Brasil deve enfrentar os EUA de peito aberto naquelas questões em que haja interesse concreto do País. O que não faz sentido é procurar fustigar os americanos sobre temas em que não há um interesse do Brasil em jogo, como foi o caso do Irã.

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