“Brasil está fazendo a coisa certa, ainda que a aparência seja de tumulto”, diz Delfim Netto

por simei_morais — publicado 15/03/2013 15h38, última modificação 15/03/2013 15h38
São Paulo – Na posse do Conselho da Amcham para 2013, economista afirmou que medidas governamentais estão corretas e precisam de tempo para provocar o crescimento esperado.
delfim_foto01.jpg

Apesar do modo atabalhoado, que acaba provocando perturbação no setor privado, o governo tem adotado medidas acertadas para promover um crescimento maior e sustentado do País. A afirmação é do economista Delfim Netto, que foi o convidado de honra da posse do Conselho de Administração da Amcham, realizada na sede da entidade em São Paulo, na última quinta-feira (14/03). Para ele, há um exagero no pessimismo.

Leia mais: Empresário está otimista sobre economia nacional e seus negócios em 2013, mostra sondagem da Amcham

O ex-ministro da Fazenda falou a uma plateia composta por executivos de empresas associadas nacionais e multinacionais, e pediu ao empresariado que dê um crédito de confiança às transformações em andamento no Brasil.

“Quando maturarem as mudanças todas que estão sendo feitas simultaneamente, teremos transformado as condições de desenvolvimento do País. Deem um crédito de confiança porque o Brasil está fazendo a coisa certa, ainda que a aparência seja de um certo tumulto”, pontuou.

Delfim diz que se devem aguardar os resultados de ações que, segundo ele, foram feitas com pressa e “um pouco de falta de jeito”, introduzindo ruído no setor privado. Ele cita como positivas, por exemplo, a redução de juros e dos custos de energia, a desoneração da folha de pagamento e a parceria com a iniciativa privada via leiloes de portos e aeroportos. “A baixa na taxa de juros é estrutural, tem efeitos na produção e nos investimentos. A desoneração da folha de pagamento tem impacto importante nas exportações. E são permanentes”, explica.

Juros e inflação

O ex-ministro defende, ainda, que não se deve mexer na taxa de juros por um “cabo de guerra” entre o governo e o mercado financeiro. “A manipulação simples dos juros tem um custo social enorme”, adverte.

“Quantos de vocês iriam produzir mais bens e serviços, se houvesse redução de 0,25 pontos percentuais? Essa taxa é importante para os vendedores de papel, não para o setor produtivo”, opina.

Ele declara esperar que o choque de oferta que acelerou a inflação seja controlado no segundo semestre, com a queda natural dos preços – o que dispensaria também elevação dos juros. “Se aumentarmos hoje, o estatístico vai dizer em agosto que a regressão provou que a alta dos juros reduziu a inflação”, comenta.

Delfim elogiou o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e assegura que o órgão não vai alterar a Selic (taxa básica de juros) por pressão do mercado financeiro. Para ele, Tombini está alinhado com o sistema financeiro internacional e a maioria dos analistas no País.

O ex-ministro relativizou o tripé “BC autônomo, equilíbrio fiscal e câmbio flutuante”, apontando-o como uma ideia interessante, mas definindo-o como uma construção mental dos economistas. “Que país obedece a esses três pilares?”, questionou.

“A empregada doméstica que usava sabão de coco hoje usa Dove. Seria preciso ser um economista irresponsável para imaginar que elevando a taxa de juros se faria com que ela voltasse a usar sabão de coco. Não é possível imaginar que esse seja o controle da economia”, comenta.

Expectativa

Delfim Netto lembra que a indústria passou três décadas sob a maior carga tributária do mundo, câmbio supervalorizado e alta taxa de juros real. “O milagre é a indústria ter sobrevivido. Hoje estamos construindo [um novo cenário]”, afirma.

Em contrapartida, cita a sondagem que a Amcham fez, durante o almoço, que mostrou que a maioria dos executivos espera, para 2013, crescimento da economia nacional maior que o do ano passado e expansão de seus negócios, na grande maioria, acima da do País como um todo. “A estimativa dos senhores não está muito longe da verdade. Temos as condições para o crescimento”, analisa.

O economista acredita que o governo vai prosseguir com o controle da inflação, com política fiscal razoável e baixando a carga tributária. “E entendam que o câmbio é fundamental para manter o sistema funcionando adequadamente. Não se está violando o tripé. Todo país interfere em seu câmbio”, acrescenta.

“Agora, é hora de apostar que essas mudanças comecem a produzir resultados, tenhamos um crescimento um pouco maior e possamos continuar nos desenvolvendo. Não é apenas o crescimento que interessa, mas o crescimento com inclusão social, que vai alimentar nosso mercado interno, e portanto, nossa indústria”, finaliza.