Ajuste do mercado de trabalho é necessário para retomada da produtividade, segundo Citi

publicado 05/04/2016 16h18, última modificação 05/04/2016 16h18
São Paulo – Custo unitário do trabalho superou média histórica, segundo Marcelo Kfoury (Citi)
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A recuperação da produtividade brasileira tem que passar por um ajuste no mercado de trabalho, o que inclui a redução do custo da mão de obra, de acordo com Marcelo Kfoury Muinhos, superintendente do departamento econômico do Citi Brasil. “Se você olhar na indústria, o custo unitário do trabalho está 10% acima da média histórica. Isso porque a queda da produção foi ainda maior que as demissões na indústria”, afirma, durante o evento ‘A Competitividade e o Ambiente de Negócios no Brasil’, realizado na terça-feira (5/4) pela Americas Society/ Council of the Americas  (AS/COA) e Amcham.

Kfoury participou do painel sobre o impacto da competitividade na economia junto com Jorge Arbache, chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Julia Leite, chefe do escritório de São Paulo da Bloomberg News, foi a moderadora do debate.

Nos últimos anos, a indústria perdeu competitividade em função do câmbio favorável às importações e o alto custo da mão de obra, elevado pelos aumentos reais de salário. Além disso, o endividamento das famílias e a queda no consumo agravaram o cenário produtivo.

Um ajuste para baixo nos salários prejudicaria o poder de compra das pessoas, mas ainda assim seria preferível à perda de empregos, segundo Kfoury. “O ajuste menos doloroso é do lado do preço (salários)”, argumenta.

Usando dados da PME (Pesquisa Mensal de Empregos), o economista disse que a massa salarial caiu 10%. “Isso é muito ruim para o consumo, que caiu 4% no ano passado e deve continuar caindo devido à reprecificação de salário. Mas o efeito positivo é o afrouxamento do mercado de trabalho e a restauração da competitividade.”

Para ele, a recuperação deve ocorrer em médio prazo. “Especialmente na indústria, com o Brasil exportando mais produtos e substituindo algumas importações, além de ver a melhora da inflação.”

Em curto prazo, Kfoury disse que a retomada industrial deve ocorrer em função do uso de capacidade ociosa, atualmente em torno de 27%. “No primeiro momento, teremos competitividade sem novos investimentos. Mas para 2018, talvez precisemos investir em recuperação do mix de produção, renovação de equipamentos e capacidade produtiva”, detalha.

 


Diversificação da economia

Para o governo, somente reduzir custos não é o suficiente para reconduzir o Brasil ao aumento de produtividade. É preciso investir em inovação e integração de cadeias produtivas, segundo Arbache. “A parcela, por exemplo, de mão de obra no custo de produção da indústria vem caindo em nível global em detrimento das que vêm de pesquisa e desenvolvimento, design, softwares customizados, marketing e branding”, comenta.

Fazer parte da cadeia de produção de comércio empresarial se torna fator determinante para se produzir e ser competitivo. “Ter parque produtivo diversificado e sofisticado se torna cada vez mais importante, assim como uma infraestrutura voltada a atividades de maior agregação de valor. Por exemplo, um parque de telecomunicações que favoreça novos empreendimentos e modelos de negócios pode ser mais importante do que uma ferrovia que leva soja de um estado do Centro Oeste ao Porto de Santos.”

Julia Leite, da Bloomberg News, mencionou em suas ponderações que há uma instabilidade no cenário político que influencia as decisões econômicas, mas que, em curto prazo, encontrar saídas para retomar a produtividade brasileira é o mais importante.