Antonio Britto: Brasil joga na “retranca” do comércio mundial

publicado 11/05/2016 15h53, última modificação 11/05/2016 15h53
São Paulo – Presidente da Interfarma cita causas estruturais para baixa inserção no exterior
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“Em termos de inserção global, o Brasil joga na retranca. O protecionismo latente na cultura brasileira é, na linguagem do futebol, a retranca”, dispara o ex-ministro Antonio Britto, atual presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), sobre a baixa participação do Brasil no comércio internacional. Britto foi um dos debatedores do painel de presidentes e representantes de associações empresariais que participaram do evento de lançamento do estudo Amcham – Fundação Getúlio Vargas (FGV), ‘Impactos para o Brasil de acordos de livre comércio com EUA e União Europeia’, realizado na segunda-feira (9/5).

Além de Britto, participaram Fernando Queiroz, CEO da Minerva Foods, André Clark Juliano, diretor de País do Acciona Brasil, Alexandre Azevedo, CEO da Totvs Private e Fernando Figueiredo, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). No debate, Britto usou a metáfora da retranca de futebol – quando o time joga para se defender muito e atacar pouco – para criticar a falta de agressividade do Brasil em conquistar mercados externos.

Mesmo que o Brasil comece a participar de grandes blocos comerciais agora, não vai ganhar mercados automaticamente. A razão é a falta de condições estruturais necessárias para dar competitividade às empresas brasileiras, argumenta Britto. “Que países jogam como possíveis vencedores o jogo da inserção sem educação? Que jogam o jogo da inserção em cadeias globais sem produtividade?”, indaga.

O Brasil tem que continuar se esforçando para se inserir nas correntes de comércio usando todos os meios possíveis, defende o dirigente. “Temos que buscar reformas regulatórias e perseguir toda a agenda tradicional de melhorias.”

Para Queiroz, que atua no agronegócio, a competitividade do Brasil neste setor vem muito mais das vantagens comparativas do que por aumento de eficiência. “Qual a única competitividade do Brasil? São as commodities do agronegócio, porque temos clima, espaço e água.”

No que se refere à melhoria da competitividade, o Brasil tem o desafio de fazer melhor e planejar os passos para diversificar a pauta exportadora e evoluir em vantagens competitivas, acrescenta o executivo. “Temos que identificar quais os nossos polos de vantagem competitiva e estabelecer uma agenda. O passo seguinte é identificar qual parceiro buscar, porque abrir para todos os parceiros do mundo não é realista.”

Atuando em um mercado dinâmico com o de Tecnologia da Informação (TI), Azevedo, da Totvs, reforça a necessidade de planejamento de longo prazo e preparação para atender clientes internacionais. “Em software existe praticamente um produto para cada país e precisamos de antecedência para atender o mercado.”

Se o Brasil oferecesse regras estáveis e redução de burocracias, sua empresa teria condição de concorrer de igual para igual com empresas internacionais, defende Azevedo. “Se conseguíssemos ampliar de forma mais estruturada para outros mercados e deixar de nos defender dos grandes players que nos atacam, teremos condição de levar essa competição ao mercado deles.”

A importância do investimento

Para Juliano, a eficácia das exportações é proporcional ao tamanho da infraestrutura disponível. “É provável que os únicos espaços de crescimento ocorram no setor externo e investimento, especialmente em infraestrutura. E o Brasil é um dos países que pode jogar o jogo mundial de infraestrutura”, afirma.

Para desenvolver o setor, basta haver estímulo aos investimentos, acrescenta o executivo. “Atrair investimento é papel de qualquer governo, e a infraestrutura é singularmente a grande oportunidade nos próximos anos. Falta recompor a credibilidade no brasil, perdida nos últimos meses.”

Figueiredo, da indústria química, disse que as maiores empresas do setor possuem operações internacionais e são competitivas, mas sofrem os efeitos dos entraves da economia brasileira. “Nossas fábricas são produtivas e competitivas. Os acordos internacionais permitirão acesso a novos mercados. O ódio é quando nos deparamos com custos trabalhistas e tributários, que são fora de qualquer realidade. O previdenciário, por exemplo, ainda nem sabemos o valor real da dívida porque sempre há mudança de regras.”

O dirigente destaca que também é preciso habilidade para negociar no mercado internacional. “A realidade é que não tem bobo no mercado internacional. O que existe é excesso de protecionismo, e é preciso saber contornar os obstáculos.”