BNDES: incertezas no cenário global inibem IPOs no curto prazo

por daniela publicado 05/12/2011 11h26, última modificação 05/12/2011 11h26
Daniela Rocha
São Paulo - Porém, perspectivas são positivas ao mercado acionário brasileiro no médio e no longo prazos, ressalta Julio Ramundo, diretor do banco.

O clima de incertezas no cenário global, decorrente do baixo dinamismo da economia americana e da crise fiscal na Europa, tem gerado alta volatilidade no mercado acionário brasileiro e inibido as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) no curto prazo. Porém, as perspectivas são positivas a médio e longo prazos devido à solidez dos fundamentos da economia do País e à manutenção das carteiras de projetos e investimentos. A análise é de Julio Ramundo, diretor de Mercado de Capitais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Ele destacou ainda que o banco está preparado para uma atuação anticíclica e disponibilização de instrumentos especiais de financiamentos ao setor produtivo, caso haja necessidade.

Julio Ramundo participou do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo na última quinta-feira (1/12). Após a reunião, ele concedeu a seguinte entrevista:

Amcham: Em linhas gerais, quais são as principais ações que o BNDES está desenvolvendo para fortalecer o mercado de capitais brasileiro (acionário/debêntures)?
Julio Ramundo:
Acreditamos que o desenvolvimento desse mercado é parte importante de nossa agenda, o que aliás está consignado no estatuto de nossa empresa de participações, a BNDESPAR, que tem mais de 35 anos de atuação. No que diz respeito ao apoio aos empreendimentos, atuamos diretamente na subscrição de valores mobiliários, incluindo ações e debêntures conversíveis, em operações públicas e privadas, apoiando a estratégia das empresas ao emitir títulos de equity ou de dívida em complemento ao crédito bancário e aos demais investidores de mercado. O BNDES também estimula a adoção pelas empresas apoiadas de boas práticas de governança corporativa. Naquelas em que se torna sócio, exigimos o compromisso de abertura de capital.
Além disso, nossa empresa de participações é emissora de debêntures padronizadas de longo prazo no mercado doméstico, sempre com a preocupação de levar o produto ao investidor pessoa física. Também no campo dos títulos corporativos de renda fixa, temos um programa específico para debêntures simples em ofertas públicas. Por fim, o mais importante, estamos trabalhando, sob a coordenação do Governo Federal, em medidas para desenvolver o mercado brasileiro de títulos, o que será muito importante para o financiamento de uma enorme gama de projetos de investimento.

Amcham: Qual tem sido a atuação do BNDES em fundos fechados de investimentos?
Julio Ramundo:
Nessa indústria, o BNDES vem atuando decisivamente desde sua criação, sendo atualmente cotista de 35 fundos, abrangendo desde empresas nascentes inovadoras, que apoia por meio do Criatec, fundos voltados para infraestrutura, fundos setoriais com foco em biotecnologia, agronegócio ou ainda dedicados para empresas da cadeia produtiva de óleo e gás.

Amcham: Na sua avaliação, qual é a importância do fortalecimento do mercado de capitais no País?
Julio Ramundo:
O mercado de capitais é, por excelência, um mecanismo transparente e democrático de alocação eficiente de recursos. Através do mercado de capitais, pode-se direcionar poupança excedente em um setor para outro demandante dos recursos. Uma economia será forte e estável se contar com um mercado de capitais desenvolvido, capaz de aplicar recursos de poupança em empreendimentos geradores de valor e desenvolvimento. O BNDES tem enorme interesse no desenvolvimento do mercado de capitais. Ao contrário do que às vezes é dito, o banco não é adversário do mercado de capitais; temos todo o interesse no seu crescimento vigoroso e entendemos que isso é parte fundamental do desenvolvimento brasileiro.

Amcham: Como o sr. analisa o momento atual do mercado acionário brasileiro perante as incertezas no cenário global?
Julio Ramundo:
Frente a um cenário de incertezas, parece natural que no curto prazo se eleve a volatilidade do mercado. Contudo, considerando os fundamentos da economia brasileira, tenho confiança de que, para um horizonte de médio e longo prazos, a perspectiva é certamente positiva. A verdade é que temos fundamentos muito sólidos, um mercado doméstico pujante, cada vez mais inclusivo e, muito importante, uma carteira de projetos e intenções que manterão os investimentos. O mercado acionário, no final das contas, tem de ter fundamento no que ocorre na economia real. E as perspectivas do Brasil são positivas,  reconhecidas, inclusive, por analistas e lideranças internacionais.

Amcham: Quando o sr. avalia que haverá uma retomada dos IPOs no Brasil ?
Julio Ramundo
: São muitos os fatores que influenciam as empresas e os investidores a se mobilizarem para esse processo. Objetivamente, não há como estabelecer hoje um prazo para que ocorram novos processos de abertura de capital. Certamente, considero que a volatilidade e as incertezas atuais são muito prejudiciais para a retomada vigorosa dos IPOs.

Amcham: O BNDES está preparado para ampliação de concessão de crédito às empresas no País, caso haja um aperto da crise externa e restrições das fontes privadas de financiamentos? Como vem agindo hoje? há alguma medida especial já em vigor para dar conta desse cenário?
Julio Ramundo:
Uma das principais consequências da crise financeira iniciada em 2008 foi o reconhecimento da importância e, de certa forma, a volta dos bancos de desenvolvimento ao centro do debate internacional. Nesse campo, o Brasil é também referência internacional. O BNDES é uma instituição brasileira de 60 anos e seus resultados, organização de processos, corpo técnico e sobretudo instrumentos conferem uma possibilidade de atuação muito eficaz e eficiente em cenários como o que vivemos. Podemos atuar de forma anticíclica, como foi o caso da crise de 2008/2009, como um mecanismo estabilizador, ajudando a amortecer os impactos negativos que a volatilidade natural dos mercados financeiros trazem para a economia real. A situação atual vem sendo acompanhada muito de perto pelos economistas do banco e, se chamado a atuar pelo Governo Federal, o BNDES está pronto para responder.