Mailson da Nóbrega critica aumento de IPI para veículos com baixo grau de nacionalização

por andre_inohara — publicado 05/10/2011 14h44, última modificação 05/10/2011 14h44
André Inohara
São Paulo – Para ex-ministro da Fazenda, trata-se de uma questão sensível, no momento em que o mundo desenvolvido ainda tenta se recuperar da crise de 2008 e as economias tendem a se fechar para o comércio.
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A decisão do governo brasileiro de aumentar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos importados ou com menos de 65% de peças nacionais, anunciada em setembro, é criticada pelo consultor e ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. Para ele, encarecer os produtos importados, apesar de previsto em tratados comerciais, pode ressuscitar práticas protecionistas.

Trata-se de uma questão sensível, no momento em que o mundo desenvolvido ainda tenta se recuperar da crise de 2008 e as economias tendem a se fechar para o comércio.

Leia a entrevista de Nóbrega ao site da Amcham, concedida após o evento “Business Round Up – Perspectivas 2012” ocorrido na terça-feira (04/09) na Amcham-São Paulo.

Amcham: Como a economia brasileira poderia ser contaminada pela crise externa – via crédito ou comércio?
Maílson da Nóbrega:
Depende. Se pensarmos no melhor cenário, não haverá contaminação por nenhum dos dois canais. Nesse contexto, o Brasil crescerá menos porque o mundo não se expandirá tanto (variável externa), e também porque é preciso ajustar o ritmo de crescimento à estabilidade de preços e metas para inflação (variável interna). No pior cenário para o Brasil nos próximos anos, a grave crise da dívida soberana grega provocaria uma saída desorganizada, com os governos da Zona do Euro tendo dificuldades para definir a melhor forma de resgate. Neste caso, a contaminação seria pelo canal de crédito, mas acho que não é o cenário mais provável. O outro quadro seria o colapso da China, isto é, se as previsões muito pessimistas de desaceleração do seu crescimento para 5% entre 2012 e 2013 se materializarem. O contágio, então, seria pelo canal do comércio, porque a China representa 17,5% das exportações brasileiras. Mas esse também não é o cenário em que mais acreditamos. O mais provável é a redução do ritmo de atividade econômica do Brasil por medidas do governo. O Banco Central já emitiu sinais de queda de taxa de juro, medidas macroprudenciais e de contenção de gastos este ano.

Amcham: Pelo lado do comércio, o sr. teme uma escalada de protecionismo mundial, inclusive da China, em função de o Brasil aumentar o IPI de bens importados?
Maílson da Nóbrega:
Acho que não teremos retaliação da China ou de qualquer outro país, até porque a expectativa é que essas medidas sejam revogadas em algum momento futuro. O Brasil adotou uma medida inteiramente legal do ponto de vista dos tratados de comércio e, dentro do bom senso, não vejo nenhuma retaliação acontecendo. Essas medidas foram fruto de precipitação do governo, tanto que ele já está começando a abrir exceções. Isso já acontece com o Uruguai e virá para outros países, daqui a pouco. Mas não há, como lembrou o economista José Roberto Mendonça de Barros, nenhuma indústria automobilística que tenha começado a operar em algum país tendo que trabalhar com 65% de conteúdo nacional. Isso é uma coisa despropositada que o governo tenderá a rever. O risco que vemos é de maus-exemplos como esse, de ressuscitar visões protecionistas dos anos 1970, começarem a se tornar característica de outros países.

Amcham: Do lado do crédito, já ocorrem casos de empresas brasileiras com dificuldade de captar recursos no exterior. Como contornar esse desafio?
Maílson da Nóbrega:
Se um calote desordenado na Grécia ocorrer, colocaria a estabilidade do sistema financeiro europeu sob risco. Em especial, os bancos da França, Reino Unido e Alemanha. Isso evoluiria para um travamento de crédito com repercussões muito graves para a economia brasileira e mundial. O acesso de empresas brasileiras ao crédito externo seria bloqueado, tanto para expansão operacional como exportações. Como o BC tem reservas internacionais robustas, esse travamento pode ser resolvido temporariamente. A exemplo do que fez em 2008, a autoridade monetária poderia substituir essas linhas de crédito externas com a concessão de financiamento em moeda estrangeira para bancos brasileiros.

Amcham: Enquanto a presidente Dilma Rousseff discursa sobre o fim do protecionismo no exterior, sua equipe econômica aumenta o IPI de produtos importados. O sr. enxerga algum contrasenso entre o discurso e as ações desse governo?
Maílson da Nóbrega:
O governo acredita em algumas ideias. Entre elas, a de proteger a indústria automobilística brasileira e a de que aumentar o IPI não é protecionismo, mas política de competitividade, e que isso em algum momento beneficiará os consumidores. Acho que ele está errado, pois essas medidas não beneficiam o consumidor. É uma guinada, sem dúvida alguma, da política econômica, cujos efeitos temos de esperar para ver. Precisamos dar o benefício da dúvida, pois isso é o que um grupo importante de economistas brasileiros sempre pediu.