Brasil precisa aprender a crescer num ambiente macroeconômico estável, diz professor da USP

por marcel_gugoni — publicado 25/09/2012 14h28, última modificação 25/09/2012 14h28
São Paulo - Pedro Garcia Duarte afirma que debate sobre investimentos e prioridades passa por definir metas de longo prazo para o País.
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Pensar no longo prazo é essencial para a economia brasileira, que está acostumada a debater questões imediatas como crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), inflação e taxa de juros. Para Pedro Garcia Duarte, professor assistente do departamento de economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil precisa aprender a crescer num ambiente macroeconômico estável.

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Ele participou na última quinta-feira (20/09) do seminário “O que devemos fazer já para crescer 5% pelas próximas duas décadas?”, organizado pela Amcham-São Paulo. “Historicamente, tivemos problemas para controlar o ambiente macroeconômico”, afirma. Ele se refere ao período que vai dos anos 1980 até o lançamento do Plano Real (1994), quando a inflação acumulada bateu na casa dos 13 trilhões porcento.

“Em um período de hiperinflação, questões de longo prazo não eram sequer pensadas. Os desafios de curto prazo eram sempre prioridade”, lembra. “Acho que o cenário mais de longo prazo é favorável e o Brasil tem condições de se debruçar sobre essas questões. Temos capacidade para crescer mais.”

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A avaliação é de que “a discussão tem que mudar de patamar”, afirma. A discussão deve deixar de se pautar exclusivamente por conflitos como combate a inflação versus crescimento do PIB e mais por como ampliar a capacidade produtiva e expandir o mercado de trabalho e o mercado consumidor.

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Para resolver a questão, ampliar os investimentos e facilitar o contato entre o setor privado e o público são medidas essenciais. “Esse reconhecimento das limitações que um setor tem e outro não é um passo fundamental para que o diálogo ocorra. Se o objetivo é melhorar a educação ou o saneamento básico, por que não combinar as vantagens do setor público e do setor privado de maneira transparente a fim de se alcançar os resultados de maneira mais eficiente e menos custosa?”

Leia os principais trechos da entrevista com Pedro Garcia Duarte:

Amcham: Qual o maior desafio da economia brasileira, atualmente?

Pedro Garcia Duarte: O Brasil precisa aprender a crescer num ambiente macroeconômico estável. Historicamente, tivemos problemas para controlar o ambiente macroeconômico. Em um período de hiperinflação [entre os anos 1980 e começo da década de 1990], questões de longo prazo não eram sequer pensadas. Os desafios de curto prazo eram sempre prioridade: a dívida pública e a inflação. Hoje começamos a pensar nessas coisas que até parecem triviais, como expansão do crédito e a taxa de juros. E há muitas questões abertas que não sabemos como resolver. Entre as propostas que apresentei [no seminário], vejo que é possível promover um crescimento sustentável de 5% ao ano aproveitando o bônus demográfico e melhorando a produtividade do trabalho. Reorientar a política econômica para manter a estabilidade de preços é essencial. E, para conseguir esse tipo de crescimento sustentável sem pressão inflacionária, o fator crucial é a ampliação da capacidade produtiva. Essa capacidade depende de dois fatores: aumento da força de trabalho – o bônus demográfico – e da produtividade do trabalho. A possibilidade de haver um círculo virtuoso depende do tamanho do mercado: ampliar o mercado permite especialização maior das empresas, o que traz consigo redução de custos, que sustenta o próprio crescimento. Para fazer isso, é importante investir porque o investimento tem relação direta com a relação da produtividade do trabalho. Ambientes de maior crescimento oferecem taxa de produtividade maior. Um ambiente de crescimento maior permite uma taxa de 2 pontos percentuais a 2,5 pontos maior do que em um ambiente de mercado reduzido. Para os asiáticos, essa evidência aponta para uma taxa de 3,5 pontos superior à taxa de crescimento em ambiente com mercado reduzido.

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Amcham: Como o sr. enxerga o encaminhamento desses investimentos?

Pedro Garcia Duarte: O cenário mais de longo prazo é favorável e o Brasil tem condições de se debruçar sobre essas questões. Temos capacidade para crescer mais. Mas ainda vemos a discussão dos jornais repetir sempre os temas de curto prazo: se o PIB deste ano será maior do que o do ano passado, se reduzir o desemprego levará a maior crescimento, se combater a inflação prejudicará o crescimento ou se impulsionar o consumo elevará a inflação. A discussão tem que mudar de patamar. E a condução da política econômica acaba sendo muito guiada pelo curto prazo. Os últimos governos já têm mostrado que o controle da inflação é fundamental, mas dentro dessa questão tem se buscado margens para agir a fim de permitir um crescimento maior. A discussão tem que focar cada vez mais no longo prazo.

Amcham: Aproximar a esfera pública do setor privado é fundamental para melhorar esse debate. Como fazer isso?

Pedro Garcia Duarte: A confiança é peça fundamental para construir uma relação que tem que continuar. Isso parte do reconhecimento de que ambas têm vantagens e desvantagens. Esse reconhecimento das limitações que um setor tem e outro não é um passo fundamental para que o diálogo ocorra. Isso significa reconhecer qual é a contribuição efetiva que cada um pode dar a um determinado objetivo. Se o objetivo é melhorar a educação ou o saneamento básico, por que não combinar as vantagens do setor público e do setor privado de maneira transparente a fim de se alcançar os resultados de maneira mais eficiente e menos custosa?

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Amcham: Que exemplos de relação entre o setor público e o setor privado de outros países o Brasil poderia se espelhar?

Pedro Garcia Duarte: Essa é a pergunta mais difícil de responder. O problema é que todos os pontos que foram abordados são específicos. Fico receoso em buscar modelos porque penso que, se o País tiver preocupações claras de onde quer chegar, é possível achar as respostas. Um país é muito diferente de outro, institucionalmente. Essa aproximação do setor privado e público é muito diferente nos Estados Unidos e na Europa se comparamos com o Brasil. Mas, apesar dessas reticências, vejo que o modelo universitário americano é fabuloso. Eles conseguiram um patamar de excelência no pós-guerra que é de potência, simplesmente ao conseguir atrair as melhores cabeças do mundo inteiro. Mas não dá simplesmente para adotar o modelo americano no Brasil sem qualquer adaptação. Em outro exemplo, a proporção do investimento do PIB [em educação] precisa crescer, mas não temos como pegar exemplos de outros países, em termos percentuais, para seguir uma receita. Na área de infraestrutura, temos gargalos que precisamos resolver...

Amcham: Quais destes desafios precisam ser resolvidos agora, na sua avaliação?

Pedro Garcia Duarte: São desafios que já deviam ter sido resolvidos para ontem. Problemas sérios como educação e infraestrutura já eram para ter começado a ser solucionados.

 Amcham: Qual a mensagem que fica para o empresariado?

Pedro Garcia Duarte: Existe uma cooperação muito produtiva que pode existir e crescer entre o setor privado e o setor público. Os desafios brasileiros não estão colocados externamente ao nosso mundo. Várias destas questões passam pelo cotidiano das pessoas que estavam aqui. Não podemos esperar o governo fazer. É uma questão de encarar os problemas de frente em que ambos podem cooperar. Esse tipo de discussão precisa sempre ser feito e renovado, porque os desafios se renovam constantemente.