Brasil precisa de um Estado estratégico, com dirigentes preparados, diz Marcovitch

publicado 02/08/2013 17h07, última modificação 02/08/2013 17h07
São Paulo – Em entrevista ao site, professor da USP fala que protestos reforçam que governança pública tem de mudar
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A insatisfação popular nos protestos a partir de junho foi motivada, principalmente, pela conjuntura atual da governança pública. Segundo Jacques Marcovitch, professor da USP, o Brasil precisa ter um Estado estratégico, com a responsabilidade de responder rapidamente às demandas reivindicadas pelo povo.

Ele foi um dos palestrantes do Seminário “Momento Político Atual: Impacto no Negócio”, que aconteceu no dia 30 de julho, na Amcham-São Paulo. Também estiveram presentes no evento o ex-ministro Delfim Netto, o economista-chefe do Credit Suisse, Nilson Teixeira, o presidente do Conselho de Empresas e Entidades, Pedro Wongtschowski, e o CEO da Amcham Brasil, Gabriel Rico. (Leia mais)

Em entrevista ao site, ele fala sobre a necessidade de desenvolver uma “massa crítica” no Brasil para gerar um reposicionamento político. Marcovitch lembra que todos os anseios expostos em cartazes e gritos das pessoas já existiam e só precisavam mesmo de um espaço para serem manifestados. “Foi uma conjunção de quatro fatores: incerteza econômica, questionamento da governança pública, infraestrutura e os grandes eventos internacionais”, explica.

Abaixo, confira a conversa com Marcovitch.

O senhor destacou a necessidade de criação de um “Estado estratégico”. Para atingir esse estágio na governança política, qual seria o primeiro passo?

Jacques Marcovitch - Fazer com que o governo seja integrado no seu mais alto nível, com dirigentes, ministros e secretários que tenham uma leitura da dinâmica que acontece em países com um Estado estratégico. Isso poderá ajudar o próprio governo a se reposicionar diante das mudanças extraordinárias que estão acontecendo hoje. Isso não quer dizer que é preciso que todos os integrantes do governo tenham essa percepção, mas é necessário desenvolver, no mínimo, uma massa crítica para ajudar o país a se reposicionar rapidamente. Hoje nós vivemos em um quadro de mudanças evidentes.

Como o senhor explica a onda de protestos por todo o Brasil?

JM - Podemos observar que todos os países estão procurando se preparar para esse mundo em transformação rápida. O que nós testemunhamos no Brasil, durante o mês de junho, decorre de uma evolução tecnológica que permite uma conexão direta entre pessoas, sem passar pela intermediação de associações ou de partidos. Só que, diante de um quadro de mudanças tão rápidas, a questão que se coloca é como todos os atores sociais se reposicionam no Brasil. E eu me refiro não só ao governo, mas ao setor privado, às ONGs e à própria academia, como todos se reposicionam, a partir de agora, diante do mundo em transformação.

E, na opinião do senhor, esse processo de reposicionamento já começou com as manifestações populares em relação ao poder público?

JM - Eu acho que as manifestações nada mais foram do que a visualização de apreensões e sonhos que existiam e já eram conhecidos. O fato é que, numa sociedade, você tem certos momentos, como agora, em que é possível ver mais claramente esses anseios. Na minha opinião, os protestos aconteceram por quatro fatores: a incerteza econômica, o questionamento da governança da questão pública, a questão da infraestrutura – que inclui o transporte público – e os grandes eventos internacionais, que exigem da sociedade um grande sacrifício em termos de investimentos. A impressão de todos é que esses investimentos são infinitos e ilimitados, porque hoje o governo prioriza mais o urgente em vez do importante.

Quais seriam as estratégias para valorizar as realidades regionais do Brasil? Durante o seminário, o ex-ministro Delfim Netto chegou a mencionar a questão do voto distrital. Qual é a sua opinião?

JM - Há vários cientistas políticos que estudam os modelos de organização política do país. O que me parece fundamental não é essa questão, mas a proximidade entre o eleito e o eleitor. É essa a principal inspiração que podemos tirar de países com um Estado estratégico. O que eu achei interessante, e foi apresentado no seminário, é que o eleitor poucas horas ou dias depois do voto não se lembra mais de qual político escolheu. Decorre de um modelo de anonimato, em que a decisão é tomada à luz de uma conjuntura e não como uma relação duradoura e permanente entre o eleitor e o eleito.

Durante o debate, o senhor mencionou a importância da comunidade em volta das escolas e universidades também apoiarem o desenvolvimento da educação. No Brasil, esse seria um ponto a ser melhorado?

JM - Voltamos um pouco à diversidade regional que nós temos no Brasil. É evidente que, em certos espaços, esses sistemas educacionais vão ter configurações diferenciadas. Mas, quando nós olhamos para as regiões mais desenvolvidas ou as regiões urbanas, é claro que as melhores escolas e as melhores universidades são aquelas que conseguiram construir uma aderência maior do seu entorno com o projeto educacional.

Isso quer dizer o quê? Que seja uma iniciativa do Governo ou da iniciativa privada, um projeto educacional dos chamados “stakeholders”, que são aqueles com interesse na evolução e no sucesso desse sistema. E quem são eles? Começa pelos pais daqueles jovens, daquelas crianças que estão estudando. Esses são os primeiros corresponsáveis pelo sistema educacional.

Em segundo lugar, é preciso ter uma boa gestão daquela escola, que também ocorre com o engajamento dos pais, porque eles acompanham e se preocupam com quem vai dirigir a escola. E o terceiro elemento é a comunidade que está em volta, e isso inclui o setor privado e as empresas interessadas na melhoria da educação para o seu próprio interesse, o seu próprio futuro. 

Veja hoje: no estado de São Paulo, onde estão as empresas mais competitivas? Estão muito próximas a sistemas educacionais: São Carlos, Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba e aqui mesmo, em São Paulo. Nós temos, portanto, a busca pela simbiose entre o sistema educacional e a empresa, com o intuito de formar as gerações do futuro.

E qual é a sua expectativa para os próximos anos? A realidade do Brasil vai mudar?

JM - Eu confio que sim, não por ser um voluntarista, mas porque confio na história. Em 1900, tínhamos 17 milhões de brasileiros e, em 11 décadas, a população cresceu de forma vertiginosa e o Brasil sempre foi capaz de superar as adversidades. Não por uma opção, mas porque o país não tem outra alternativa.

Quando nós temos metade da população abaixo de 27 anos, não existe a opção de desenvolver ou não desenvolver. Haverá sempre uma expectativa de desenvolvimento, pois existe uma demanda de jovens que exige essa evolução. A realidade é diferente de outros países, cuja média etária é muito superior, e então pode haver ou não haver essa forte pressão pelo desenvolvimento. Mas, no caso do Brasil, nós estamos falando de quase 100 milhões de jovens. Nesse caso, não temos outra alternativa senão desenvolver.