Brasil precisa melhorar a competitividade para retomar espaço no mercado americano, diz Rubens Barbosa

por marcel_gugoni — publicado 09/04/2012 16h50, última modificação 09/04/2012 16h50
Marcel Gugoni
São Paulo – Resolver a questão cambial, diminuir a taxa de juros e minimizar os gargalos de energia, de tributação e da burocracia são caminhos apontados por ex-embaixador.
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O Brasil perdeu espaço no mercado americano e culpa o câmbio pelos problemas da falta de competitividade, avalia o embaixador Rubens Barbosa, que ocupou o cargo da diplomacia brasileira nos EUA entre 1999 a 2004. Para ele, resolver os entraves internos da economia do País são mais necessários para o comércio exterior do que um esforço de requalificar a pauta de exportação.

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“No passado, 80% dos produtos brasileiros exportados para os EUA eram manufaturados, e os outros 20% eram matérias-primas. Hoje, boa parte da exportação brasileira é agrícola”, afirmou, em entrevista ao site da Amcham. “A pauta se deteriorou para o Brasil e os EUA deixaram de comprar produtos manufaturados pela competição maior que existe no mercado americano e pela perda de competitividade dos produtos brasileiros.”

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Ele diz que as empresas e o governo precisam fazer um esforço para “depreciar o câmbio, diminuir a taxa de juros e melhorar aquilo que a gente conhece como ‘custo Brasil’, dos altos custos de energia até o custo trabalhista”. Barbosa avalia que as medidas tomadas pelo governo da presidente Dilma Rousseff para incentivar a indústria “vão na direção correta”, mas “são insuficientes para retomar a competitividade”.

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Na última terça-feira (03/04), a presidente anunciou um conjunto de ações que vai desonerar a folha de pagamento de 15 setores produtivos, baratear o crédito ao consumo, aumentar o volume de empréstimos a empresas exportadores e reduzir impostos de produtos como automóveis e eletrodomésticos.

Balança favorável

Para Barbosa, a questão é de incentivar o setor privado tirando a burocracia. “Há um programa do [presidente dos EUA, Barack] Obama para dobrar as exportações em poucos anos. E as exportações americanas estão reagindo muito bem.”

Na agenda comercial americana, o Brasil é o oitavo principal parceiro comercial, movimentando cerca de US$ 70 bilhões em exportações, em 2011, responsáveis pela criação direta de 255 mil empregos nos EUA. No caminho contrário, o Brasil manteve um déficit de US$ 11 bilhões. Até 2007, o saldo era positivo para o Brasil, mas, após a crise, a balança se inverteu.

Barbosa explica que há enormes oportunidades comerciais, porque o Brasil é “um mercado maior que se abre para os EUA”. “Se a economia brasileira continuar a crescer no ritmo que estamos crescendo, teremos cada vez mais peso [comercial no mercado americano] e alvo de interesses comerciais e investimentos de empresas americanas.”

Visita de Dilma

Ele afirma que a visita de Dilma aos EUA, um ano após a vinda do presidente americano, permite apertar os laços em parcerias estratégicas em “pontos importantes para o Brasil como inovação, educação, energia e infraestrutura”.

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“Dentro da inovação, acho que há muito a se falar, como a ideia do Ciência Sem Fronteiras de levar 100 mil estudantes de graduação e pós ao exterior. Isso é importante porque estabelece um networking e um conhecimento recíproco”, destaca. “Ganham as universidades americanas, ganham os estudantes e ganha a economia brasileira, que vai receber de volta pessoas mais qualificadas.”

O embaixador destaca que a grande novidade é a mudança qualitativa do diálogo entre os dois países. “Desde quando eu estive nos EUA, nos últimos sete ou oito anos mudou qualitativamente o tratamento dos assuntos. Certos temas que não eram tratados porque o Brasil não tinha posições públicas fora da América Latina, hoje são pontos importantes da política externa brasileira”, aborda.

Entre os temas se destacam desde a preocupação com o Oriente Médio e o Irã até as questões de direitos humanos, como as revoltas na Síria. “Isso não tinha antigamente. E é importante porque mostra o Brasil efetivamente caminhando fora da região.” No livro O Dissenso de Washington (Agir, 2011) ele trata dessas mudanças e aponta que, “do lado americano, os EUA terão que lidar com o fato de o Brasil ter voz sobre esses assuntos”.

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“A presidente Dilma é muito mais objetiva e está tratando da relação dos EUA com menos viés ideológico. A grande convergência é dos valores que ambos defendem nos aspectos econômicos, haja vista que há interesses econômicos dos dois lados.”