Brasil tem atuação responsável no campo e necessita mostrar isso, diz sócio da PwC

por andre_inohara — publicado 07/08/2012 09h35, última modificação 07/08/2012 09h35
São Paulo – Segundo José Rezende, países ameaçados pela concorrência brasileira no agronegócio podem acusar o Brasil de explorar trabalho escravo e infantil como argumento para fechar seus mercados.
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O agronegócio brasileiro tem que mostrar ao mundo que está promovendo práticas sustentáveis de produção, de forma a não dar motivos para o surgimento de novas barreiras comerciais nos mercados internacionais - uma nova forma de protecionismo, disse José Ronaldo Vilela Rezende, sócio e líder de Agribusiness da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

“Assim que eles não acharem mais justificativas fitossanitárias de proteção aos mercados, vão começar a falar que o agroempresário brasileiro está produzindo à custa do empobrecimento do produtor rural”, assinala o consultor.

Rezende participou do seminário Competitividade Setorial – Agronegócios, promovido pela Amcham-São Paulo na última sexta-feira (03/08), onde exerceu o papel de moderador do debate.

Ao site da Amcham, Rezende fez um balanço do evento e também falou de assuntos como a restrição à compra de terras por estrangeiros. Para o sócio, essa seria uma nova forma de atrair investimentos.

Veja aqui: Cadeia do agronegócio reforça necessidade de investimentos em infraestrutura logística e livre concorrência

Leia abaixo a entrevista de Rezende:

Amcham: Quais as principais conclusões que se pode tirar do evento?

José Rezende: As discussões mostram que o Brasil tem um potencial esplêndido para ser o celeiro do mundo, e há oportunidades tanto em produção quanto exportação que trariam melhoria de renda ao produtor. Temos gargalos que precisam ser trabalhados, como a grande utilização de transporte rodoviário em detrimento do ferroviário, a deficiência de portos e o baixo uso de hidrovias. Também há temas importantes como capacitação de mão de obra, o que demanda investimentos, e a carga tributària, que é outro entrave a ser trabalhado. Mas estamos evoluindo nessas questões, embora ainda haja muito a ser feito. Muitos desses projetos poderiam ser feitos via PPP (Parcerias Público-Privadas). As empresas têm se movimentado, e o governo tem a responsabilidade de incentivar esses investimentos e criar mecanismos de incentivo.

Amcham: A pesquisa Amcham levantou desafios para o agronegócio brasileiro, como os gargalos de infraestrutura e potencial de crescimento. Como o sr. avalia a conexão da sondagem com o debate?

José Rezende: Grande parte dos temas discutidos foi bem capturada pela pesquisa Amcham. Um deles foram os problemas de logística, mas como eles devem ser resolvidos? Infelizmente há limites até de tempo, além de pessoas de variadas qualificações. No final, o próprio investimento privado acaba tendo que tomar a iniciativa em detrimento do público como forma de solucionar as carências.

Veja aqui: Pesquisa Amcham: Infraestrutura deficitária e burocracia do sistema tributário desafiam agronegócio brasileiro

Amcham: Algum outro ponto chamou a atenção em especial?

José Rezende: Outro tema abordado foi a dificuldade de se fazer qualquer coisa em termos de rodovias, ferrovias e anéis viários. [A liberação de obras] Passa por muitas questões ambientalistas, onde às vezes há setores que jogam contra ao invés de tentar facilitar e tentar trabalhar juntos. De forma alguma sou contra a proteção ao meio ambiente, mas é possível fazer coisas preservando o equilíbrio ecológico. Muitas empresas têm feito isso de forma exemplar.

Amcham: Falando na questão ambientalista, como a votação do novo Código Florestal é vista pela cadeia do agronegócio?

José Rezende: Realmente, a definição do código está um pouco complicada. Ainda há algumas questões em discussão que foram lançadas por medida provisória. Falta resolver o tema e dar mais transparência e confiança ao investidor de que a qualquer momento não será surpreendido por alguma mudança no código.

Amcham: E a questão da restrição de compra de terras por estrangeiros, como o sr. vê?

José Rezende: Esse é outro tema importante porque vivemos em um mundo globalizado. Querer restringir o capital estrangeiro para a compra de terras vai um pouco na contramão disso. Acho fundamental que isso seja esclarecido e se estabeleçam regras claras, transparentes e que seja permitido esse investimento até certo limite. Temos terras, produtores, água e luz, mas precisamos de capital. O País, por si só, carece de dinheiro para investir em tudo. Temos que permitir, sim, a entrada de estrangeiros, do mesmo jeito que as empresas brasileiras do agronegócio estão entrando nos EUA e na Austrália. É uma via de mão dupla. Posso ir para fora, mas aqui se restringir a entrada de alguém é um assunto que precisa ser bem trabalhado.

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Amcham: Um dos assuntos abordados no seminário foi a necessidade de novos acordos internacionais. Em um período de enfraquecimento dos países ricos, como o sr. vê a possibilidade de volta do protecionismo?

José Rezende: É um problema complicado. Veja o caso da laranja, onde o Brasil supre 80% do mercado mundial. Os EUA descobriram que o Brasil usa um fungicida permitido aqui, mas não para eles (Os americanos suspenderam em fevereiro um lote de importações de suco brasileiro com o fungicida carbendazim). Isso trouxe um prejuízo enorme para a cadeia citrícola, que conseguiu contornar parte das perdas passando a exportar suco com mais água, o non concentrated juice. Outras barreiras criadas são para proteger mercados locais, como aconteceu há três anos com o embargo de carne bovina pela Europa. Aquilo foi uma ação da Irlanda, que é a maior prejudicada. Temos como produzir carne a custo competitivo, e eles não. Isso [a escalada protecionista] não vai parar.

Amcham: Como esse assunto deve evoluir?

José Rezende: Temos que cuidar do tema de sustentabilidade ambiental e social porque isso vai ser motivo de embargo. Assim que não acharem mais justificativas fitossanitárias de proteção aos mercados, vão começar a falar que o agroempresário brasileiro está produzindo à custa do empobrecimento do produtor rural. O setor canavieiro tem feito um trabalho enorme de educação para desmistificar a existência de trabalho escravo e infantil. Tinha problemas? Sim, mas foram resolvidos. Por isso, temos que estar com a casa arrumada para evitar argumentos que levem a mais protecionismo.

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