Brasil precisa se cuidar contra protecionismo ambiental, recomenda ex-ministro Pratini de Moraes

por andre_inohara — publicado 06/08/2012 16h13, última modificação 06/08/2012 16h13
São Paulo – De acordo com ele, nações que veem seus mercados ameaçados pelos produtos brasileiros acusam o País de agressão ao meio ambiente.
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A competitividade do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais preocupa várias nações, que começam a restringir seus mercados com a justificativa de que o Brasil se utiliza de meios de produção que agridem os princípios de sustentabilidade ambiental.

Para continuar ganhando terreno, o Brasil precisa acentuar a defesa de seus mercados com mais tratados comerciais e transparência sobre o modo de produção agrícola. “O Brasil é importante no cenário internacional e temos que ter cautela com interesses enormes, políticos inclusive, que existem”, analisa o ex-ministro Marcus Vinícius Pratini de Moraes e atualmente conselheiro da JBS Friboi.

A experiência de Moraes em ministérios é ampla: ocupou a pasta de Agricultura e Abastecimento entre 1999 e 2002, e foi titular do ministério de Minas e Energia em 1992 e da Indústria, Comércio e Turismo (atual Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) entre 1970 e 1974.

No seminário Competitividade Setorial – Agronegócios, promovido pela Amcham-São Paulo na última sexta-feira (03/08), Pratini de Moraes também falou de outros assuntos ligados à agricultura como acordos comerciais e restrição à compra de terras por estrangeiros.

Veja aqui: Cadeia do agronegócio reforça necessidade de investimentos em infraestrutura logística e livre concorrência

Leia abaixo a entrevista de Pratini de Moraes ao site da Amcham:

Amcham: No seminário, as pesquisas da Amcham e da Economist Intelligence Unit (EIU)/ DuPont (sobre segurança alimentar) abordaram o potencial brasileiro para liderar a produção mundial de alimentos. Na opinião do sr., o que falta para atingirmos a primeira posição nesse ranking global?

Pratini de Moraes: Dos cinco países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai) da pesquisa da EIU, só vejo dois que efetivamente podem combater a fome e fornecer alimentos na região: Brasil e Argentina. Em menor escala, vêm o Paraguai e Uruguai. O México é o maior importador de produtos lácteos do mundo. E por que isso? Porque o México fez uma reforma agrária que não deu certo. Eles são os maiores importadores mundiais de lácteos, pois compram tudo mais barato dos EUA. E os americanos também estão inclusos como grandes produtores, que hoje produzem até álcool (etanol) de milho em grande escala.

Amcham: Como o Brasil e a Argentina podem suprir a necessidade mundial de alimentos?

Pratini de Moraes: O desafio da alimentação humana é produzir proteína animal (carne) e, para isso, é preciso ter milho e farelo de soja. O que é um porco ou um frango senão uma máquina de transformar proteína vegetal em animal? Só os grandes produtores dessas proteínas podem ser grandes supridores de alimentos, por causa da estabilidade (na produção). Mas também temos que atacar a questão do protecionismo.

Veja aqui: Pesquisa Amcham: Infraestrutura deficitária e burocracia do sistema tributário desafiam agronegócio brasileiro

Amcham: Poderia dar mais detalhes?

Pratini de Moraes: O problema hoje é um tipo de protecionismo que chamo de ambiental. De repente, uma empresa de idoneidade duvidosa resolve achacar dinheiro de produtores. O que ela faz? Manda telegrama para os compradores de mercadorias brasileiras dizendo que os produtores criam gado em área de proteção indígena, ou que não honram os compromissos assumidos para coibir trabalho escravo. Quem recebe essa mensagem lá fora olha torto para o Brasil. Isso não é bem assim, e não podemos permitir que informações distorcidas sejam usadas contra nós.

Amcham: E esse tipo de crítica tem fundamento?

Pratini de Moraes: Um país do nosso tamanho tem problemas, sim. Mas muitos países não fazem o esforço que fazemos para combater essas práticas. Ocorre que estamos assistindo a um excesso de propostas de controle e críticas que muitas vezes são direcionadas por ONGs (organizações não governamentais) que são patrocinadas por empresas de concorrentes estrangeiros. O Brasil é importante no cenário internacional e temos que ter cautela com interesses enormes, políticos inclusive, que existem.

Amcham: Que interesses políticos seriam esses?

Pratini de Moraes: O Brasil não precisa se perder nisso agora, esse assunto vai ter mais importância no futuro. Mas, no seminário, alguém falou sobre o Mercosul. Vou dar um exemplo: preferencialmente, temos que comprar trigo da Argentina. Quando a safra está boa, o preço cai muito e o trigo argentino acaba ficando mais barato [prejudicando os produtores brasileiros]. Então, temos que encontrar uma forma de não criar embaraços para nós mesmos. Outro ponto é que temos que discutir mais acordos internacionais. O Brasil tem pouquíssimos acordos em um mundo em que 70% do comércio são feitos por tratados bilaterais.

Amcham: Outro assunto abordado no seminário foi a restrição à compra de terras por estrangeiros. O que o sr. pensa sobre esse tema?

Pratini de Moraes: Não tenho nenhuma restrição à compra de terras brasileiras por estrangeiros, mas é preciso separar as coisas. Em política, as coisas funcionam como um céu com muitas nuvens: não é algo estático. Não há decisões nem princípios que não sejam mutáveis. O que o mundo está mandando de mensagens ao Brasil é que não plante, não modernize porque isso vai contra o meio ambiente. No mundo, existem reuniões para combater as queimadas na Amazônia. Falo de instituições acadêmicas como o MIT (sigla em inglês para Instituto Tecnológico de Massachusetts), Columbia, Harvard e Cornell. A proposta das teses é de que os brasileiros parem de plantar e reformem as florestas. A tese é de que os EUA plantariam e o Brasil só cuidaria da Amazônia. O problema da venda de terras a estrangeiros é que eles querem comprar mais barato. O que temos que tomar cuidado é com a venda de terras a estrangeiros perto das nossas fronteiras. Mas proibir a compra de terras para eles plantarem é burrice. Os brasileiros deveriam apoiar a compra porque, se tiver mais gente querendo comprar, o preço aumenta. O Brasil é encolhido e tem receio dessas coisas.

Por: André Inohara