Brasil tem condições de sustentar crescimento de 4,5% ao ano, diz Eduardo Giannetti

por daniela publicado 25/11/2010 17h08, última modificação 25/11/2010 17h08
Mariana Pires
Porto Alegre - Conforme economista, reformas são fundamentais para que o Brasil se desenvolva acima desse patamar, em seu pleno potencial.
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Em 2011, os países emergentes continuarão com um bom desempenho e o Brasil terá de descobrir qual será a velocidade de crescimento que pode realmente sustentar, avalia o economista e cientista social Eduardo Giannetti. Para ele, que também é professor do Instituto de Ensino e Pesquisa em São Paulo (Insper), essa taxa será algo em torno de 4,5% ao ano.

 

Giannetti considera que os maiores desafios que o novo governo deve perseguir são a ampliação do nível de investimentos e o aperfeiçoamento do ambiente de negócios, hoje muito deficiente.

 

Ele ressalta que o Brasil deveria ainda aproveitar este momento de transição e muito favorável à economia para implementar as reformas tributária e da Previdência e, assim, expandir a sua economia em pleno potencial.

 

O economista avalia que o anúncio sobre a saída de Henrique Meirelles da presidência do Banco Central e a entrada de Alexandre Tombini na posição suscita dúvidas a respeito do compromisso de autonomia da instituição.

 

Eduardo Giannetti participou do CEO Fórum, evento que faz parte do projeto III Ciclo de Decisões da Amcham-Porto Alegre, na quarta-feira (24/11), quando concedeu entrevista ao site da Amcham. Confira pontos-chave da conversa:

 

Amcham: Quais são suas projeções para a economia mundial em 2011?

Eduardo Giannetti: A economia mundial ainda está vivendo os desdobramentos da grande crise financeira de 2008, mas a esta altura parece praticamente descartada a hipótese do double dip, chamado de duplo mergulho ou dupla queda. O mundo desenvolvido deve manter, no próximo ano, um processo lento de recuperação. A economia americana dá sinais de que se recupera aos poucos, a Europa está conseguindo conter o perigo do contágio por conta da crise da dívida soberana dos países da chamada periferia europeia, e o Japão não é um caso de sucesso de crescimento espetacular, mas também não está em recessão. Já os países emergentes têm tido um bom desempenho econômico e devem continuar assim em 2011. Ao que tudo indica, o cenário mundial não será algo extremamente pertubador a esta altura dos acontecimentos.

 

Amcham: E para o Brasil, quais são as previsões do próximo ano?

Eduardo Giannetti: O Brasil, por outro lado, cairá em uma discussão de como poderá crescer sem gerar desequilíbrios macroeconômicos. O ano de 2010 foi de crescimento bem acima da média. É possível afirmar que a taxa de 7,5% se trata de um ponto fora da curva de crescimento. Em 2011, encontraremos nosso speed limit, ou seja, qual é a velocidade de crescimento que o País pode realmente sustentar. Será algo mais parecido com 4,5% ao ano. Então, entramos nas grandes questões que limitam nossa velocidade de crescimento: o baixo nível de investimentos, de um lado, e nosso ambiente de negócios muito deficiente, do outro. São estes os dois grandes desafios e frentes que deveriam ocupar as atenções do novo governo.

 

Amcham: Quais são as perspectivas, em sua visão, a respeito da transição do governo de Luís Inácio Lula para o de Dilma Rousseff?

Eduardo Giannetti: O Brasil deveria aproveitar este momento de transição e muito favorável à economia para implementar as reformas profundas que há muito tempo vem adiando, como a reforma tributária e da Previdência. Infelizmente, não vejo nas declarações da nova presidente e, até mesmo, na equipe que está sendo montada para a área econômica, essa disposição. Se as reformas não forem feitas, não teremos nenhuma crise aguda, mas o País continuará vivendo abaixo do que seria seu pleno potencial, os juros terão de continuar elevados e frustaremos boa parte do que o Brasil poderia ser em um momento em que os ventos sopram a nosso favor. Acho que temos tudo para ter um crescimento um pouco melhor do que foi, na média, ao longo do período Lula, mas nada muito espetacular. Temos de prestar muita atenção também à preservação do arcabouço que permitiu ao Brasil manter estabilidade macroeconômica durante todos esses anos. Será necessário acompanhar e monitorar a equipe da nova presidente para ver se terá o mesmo grau de seriedade que teve, na essência, especialmente no primeiro mandato, a equipe do governo Lula.

 

Amcham: A saída de Henrique Meirelles da presidência do Banco Central e a entrada de Alexandre Tombini é uma situação que pode significar mudanças na linha econômica do País?

Eduardo Gainnetti: Da maneira como aconteceu, ficou um ruído que só o tempo desfará. Foi indicado um funcionário de carreira do Banco Central que não tem reputação estabelecida no tocante a seu compromisso com a política monetária. Há um ponto de interrogação a esta altura porque Meirelles, aparentemente, condicionou sua permanência à autonomia do Banco Central. Para o Brasil continuar com a economia estável, deverá sustentar o tripé de superávit primário, câmbio flutuante e compromisso com as metas de inflação. Para isso, o Banco Central precisa ter autonomia operacional para poder manter definida a meta de inflação e usar os instrumentos de política econômica para persegui-la. O ruído criado em torno da indicação do novo presidente do BC está gerando uma certa apreensão quanto a esse compromisso e à independência da instituição.

 

Amcham: Quais são as principais medidas que deverão ser tomadas pela gestão de Dilma Roulsseff para melhorar a competitividade do Brasil?

Eduardo Giannetti: Se pudesse elencar as prioridades de reforma no Brasil, certamente destacaria reforma no mercado de trabalho, certificação e flexibilização da legislação trabalhista, revisão forte dos encargos que insidem na folha salarial e redução da incerteza jurídica que paira sobre qualquer contrato de trabalho no Brasil. Isso teria uma série de efeitos muito benéficos de incorporar a grande população à economia formal, ajudaria a aumentar a competitividade do Brasil, inclusive atenuando o problema da supervalorização cambial, e daria oxigenação às relações econômicas. O Brasil precisa tornar esse mercado muito mais ágil do que é hoje.

 

Amcham: Essa reforma trabalhista passa também pelo problema de falta de qualificação em mão de obra?

Eduardo Giannetti: Sim. Melhorar a educação e qualificar mão de obra é um objetivo que sempre foi prioritário, em qualquer momento, no País. O capital humano é o desafio secular do Brasil e deve ser enfatizado como máxima prioridade. Essa reforma trabalhista seria o que no curto prazo poderia ser uma resposta mais imediata nas melhorias das condições econômicas.

 

Amcham: Como realizar os investimentos em infraestrutura necessários para o Brasil?

Eduardo Giannetti: Teremos de investir de um jeito ou outro porque temos grandes eventos esportivos internacionais previstos para 2014 e 2016. O crescimento econômico no Brasil requererá um esforço de infraestrutura de suporte para produção, segmento em que o nível de investimento ainda é muito baixo. A melhor coisa que o governo poderia fazer imediatamente é melhorar os marcos regulatórios para que o capital privado possa fazer os aportes de investimentos de longo prazo. Dificilmente o governo terá, ele próprio, recursos e competência gerencial para fazer esse esforço. O que o governo pode e precisa fazer é criar o ambiente para que o setor privado complemente e resolva investir seriamente na formação dessa infraestrutura em portos, aeroportos, ferrovias, geração elétrica, distribuição elétrica e telecomunicações da banda larga.

 

Amcham: Qual o peso da eficiência do Estado para a competitividade do Brasil?

Eduardo Giannetti: O Estado brasileiro é grande demais, tanto que não cabe dentro do Produto Interno Bruto (PIB) do País. O ideal seria que o Estado reduzisse seu tamanho, mas não é de se esperar isso do perfil do governo que acabou de ser eleito, porque ele é intervencionista e estatizante. O máximo que podemos esperar agora é que o Estado aumente sua eficiência, que ele faça, do tamanho que é, coisas mais relevantes para o desenvolvimento do País em vez de gastar com despesas correntes.

 

Amcham: E a desburocratização, o sr. a vê como  um item importante a ser trabalhado?

Eduardo Giannetti: O Banco Mundial faz um relatório anual, chamado Doing Business, em que classifica 183 países de acordo com facilidade de abrir, gerenciar e fechar empresas. No último relatório, de 2010, o Brasil ficou em 123° lugar. Muito disso está ao excesso de burocracia. Exportar no Brasil, por exemplo, é uma questão ainda totalmente disfuncional. Há muita coisa a ser feita ainda, principalmente nos portos e legislação.