Cadeia do agronegócio reforça necessidade de investimentos em infraestrutura logística e livre concorrência

por marcel_gugoni — publicado 03/08/2012 17h45, última modificação 03/08/2012 17h45
André Inohara e Marcel Gugoni
São Paulo – No seminário Competitividade Setorial – Agronegócios – da Amcham, representantes do setor dizem que o crescimento e oportunidades na área estão sendo limitados por gargalos de competitividade.
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Se dependesse apenas dos solos férteis, clima adequado e tecnologia de produção, o agronegócio brasileiro – que já é um dos mais eficientes do mundo – poderia ampliar facilmente sua vantagem sobre os demais países e liderar a produção mundial de alimentos nos próximos anos.

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O aumento da produção esbarra em algumas limitações tecnológicas, mas o principal agravante ao salto do agronegócio é que ainda falta ao Brasil escoar, de forma rápida e eficiente, toda a produção alimentícia das suas fazendas para o mundo. Para que isso aconteça, é preciso melhorar o sistema logístico e regulatório, conforme reiterou a cadeia do agronegócio.

“Temos tecnologia, terra e mão de obra, uma enorme vantagem comparativa sobre outros países. Todas as empresas do mundo querem entrar aqui, mas temos vários entraves logísticos”, disse José Ronaldo Vilela Rezende, sócio e líder de Agribusiness da Consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

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No seminário Competitividade Setorial – Agronegócios, promovido pela Amcham-São Paulo nesta sexta-feira (03/08), representantes influentes do agronegócio debateram os desafios do setor e reforçaram a necessidade urgente de melhorar a infraestrutura logística de escoamento da produção, além de reduzir a interferência regulatória.

O ex-ministro da agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, que hoje é membro do conselho administrativo da JBS Friboi, diz que o Brasil tem que se libertar das teses intervencionistas e reguladoras e passar a atuar plenamente conforme as leis de mercado. “O sucesso que estamos vendo recentemente na agricultura brasileira é baseado num sistema importado de Chicago, de saber entender a lei da oferta e da procura, e não ficar tentando mexer nela”, afirma.

Sem infraestrutura, não há como aproveitar oportunidades

Se o Brasil tivesse uma malha de escoamento produtivo mais eficiente das fazendas até os portos, teria condições de atender prontamente ao mercado americano neste momento.

Uma seca no meio-oeste dos EUA deve provocar um desabastecimento de 80 milhões de toneladas de milho, segundo Luiz Pretti, diretor presidente da Cargill Agrícola. Dados de mercado avaliam que a produção total estimada dos EUA neste ano cairá de 380 milhões de toneladas para 300 milhões.

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“Com essa deficiência, o Brasil poderia aproveitar e ser o grande exportador para o mercado americano”, observa Pretti. Por conta do desabastecimento, os preços aumentaram muito – uma alta de 40% em junho, para um câmbio de R$ 2 – e há produto em excesso no Brasil. Na safrinha (colheita fora de época), o País produziu 34 milhões de toneladas de milho, que poderiam ser direcionadas aos EUA.

“É um momento único para o fazendeiro brasileiro”, comenta Pretti. “Temos milho em excesso a preços recordes, que estão até fora dos silos, mas que nem conseguimos transportar. A falta de infraestrutura é algo que precisamos resolver logo”, lamenta o executivo.

Pretti disse que a burocracia excessiva desestimula os investimentos do setor privado em infraestrutura. O Brasil possui a segunda maior operação da Cargill no mundo, o que revela o quanto País é estratégico para a empresa.

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Nesse aspecto da burocracia, pesa a demora na concessão de licenças ambientais para a construção de obras. “O investimento em portos pode levar até sete anos para que se consiga toda a finalização, e mais três anos para expansão. O que pedimos é a aceleração desses processos”, destaca Pretti.

O executivo assumiu o posto de presidente da operação brasileira da Cargill em julho, e pretende dar continuidade aos projetos de construção de uma nova fábrica de processamento de milho no Paraná e uma usina sucroalcooleira.

“Queremos continuar investindo em infraestrutura, e é importante que haja consciência de que se melhore a infraestrutura básica para fazer os modais funcionarem. Não adianta ter o melhor porto do mundo se não há logística para levar, nem ferrovias e rodovias para transportar“, assinala.

ADM: Brasil perde com atraso na infraestrutura

A posição do Brasil como produtor e exportador de commodities agrícolas e proteína animal está consolidada, e com uma cadeia de negócios muito evoluída. Mas as oportunidades do País para ser o grande supridor de alimentos do mundo estão sendo desperdiçadas por conta das deficiências logísticas e regulatórias, elenca, na mesma linha, Valmor Schaffer, presidente da processadora de alimentos ADM do Brasil.

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Para ele, é preciso diversificar a matriz modal brasileira, que poderia oferecer alternativas mais baratas que a rodoviária, como o transporte ferroviário e cabotagem. “Ter 66% do transporte baseado em caminhão é jurássico”, dispara.

A burocracia e deficiências na legislação são tão prejudiciais à agricultura quando a falta de modais de escoamento. “Um estado chegou a mudar a legislação fiscal 13 vezes e nossa lei laboral está cada vez mais engessada, quando deveria ser mais flexível. Precisamos de mais simplicidade na legislação fiscal e tributária”, destaca.

“Uma empresa como a nossa tem até 60 pessoas na área fiscal para dar conta da complexidade. É simples para o governo fazer uma reforma neste sentido”, avalia.

Schaffer também aborda a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil pode aumentar a produtividade das lavouras sem necessariamente expandir a área plantada. “Em milho, ainda temos metade da produtividade americana. Existe um espaço tremendo de incremento de produção sem precisar de novas áreas”, ressalta.

Burocracia e legislação atrasada afetam setor atacadista

Roger Laughlin, presidente do grupo Makro Atacadista, vê esses gargalos brasileiros não como problemas, mas oportunidades que as companhias têm de enfrentar em busca de retornos melhores. “A logística é onde temos as maiores oportunidades. Um caminhão que sai de Manaus demora 30 dias para chegar a São Paulo porque a infraestrutura é deficiente e há burocracia para o transporte.”

Segundo ele, em vez de reclamar que o produto não chega, sua empresa prefere pensar em como transportar os itens com o menor número de interrupções possível. “Temos que incorporar estes problemas e fazer melhor que nosso concorrente. Quem reclama do Brasil não sabe como é operar no Paquistão ou na Venezuela, por causa de problemas e instabilidade política. E mesmo assim nós estamos nestes países e buscamos as oportunidades que eles oferecem.”

Brasil tem que se livrar do intervencionismo, diz ex-ministro

O ex-ministro Pratini de Moraes critica o intervencionismo do setor público e os movimentos comuns de modificar taxas e impostos para beneficiar um ou outro segmento. “Se falta milho por quebra de safra, o preço sobe e o governo começa a taxas exportações [para privilegiar o mercado interno]. O Brasil deveria se libertar destas teses intervencionistas e reguladoras.”

É preciso, antes de intervir, fornecer maior financiamento para casos adversos. “No caso dos agricultores que perderam a safra, há necessidade de renegociar a dívida e ajudar, também, a financiar a compra de equipamentos modernos. Financiar a agricultura é sempre bom negócio, mas o segredo é oferecer juros baixos e opções de securitização visando à segurança, por exemplo.”

Outra solução proposta pelo ex-ministro para estimular maior avanço do agronegócio brasileiro passa pelos acordos internacionais. “O Brasil tem poucos acordos bilaterais em um mundo no qual 70% do comércio é feito por negociações do tipo.”

Investindo e vendendo

Para o ex-ministro, a lição que fica às empresas é de que elas se movimentem. “Gastamos 90% do tempo falando de dificuldades, mas pouco resolvendo os problemas”, afirma. “Em vez de ficar se queixando, que é um problema recorrente das empresas no País, tomamos uma decisão corajosa de investir. É preciso arranjar investidor, e todo o mundo quer vir para o Brasil.”

Ele cita o caso de outra empresa da qual é conselheiro: “atuamos na área sucroalcooleira e tínhamos capacidade de movimentação de 300 mil toneladas de açúcar. Estamos construindo e elevando essa capacidade para 14 milhões de toneladas de estoque, depósitos e transporte.”

Para ficar na mira dos investidores estrangeiros, o agrobusiness precisa trabalhar a própria imagem, defende também Pratini de Moraes. “Não devemos afastar quem está disposto a investir. Por isso, o segundo maior problema a se enfrentar no agronegócio brasileiro é de marketing: não sabemos vender. Precisamos sempre conseguir mais mercados. Esses são os desafios permanentes que teremos nos próximos anos por causa das nossas deficiências.”