Cenário favorece avanço das empresas brasileiras e abertura de capital figura como melhor opção para financiar as mais preparadas

por giovanna publicado 16/11/2010 19h28, última modificação 16/11/2010 19h28
São Paulo – Potencial de ampliação do investimento no Brasil é estrondoso, diz ivce-presidente do Goldman Sachs.

O banco Goldman Sachs projeta que, em 2030, o Produto Interno Bruto (PIB) dos países emergentes ultrapassará o dos desenvolvidos. Os Brics responderão pela maior parte dessa façanha, computando US$ 51 trilhões, muito acima dos US$ 23 trilhões esperados dos Estados Unidos, por exemplo. Dentro desse mesmo prazo, os mercados emergentes também se tornarão maiores que os desenvolvidos, algo na casa de US$ 80 trilhões versus US$ 66 trilhões, respectivamente, sendo que 40% do total dos emergentes ficarão nas mãos dos Brics. Os mercados emergentes também crescerão em importância em termos de participação nas alocações de fundos de renda variável: de 6% hoje, tendem a alcançar nada menos que 18% ao final dos próximos 20 anos.
 
Vislumbra-se, portanto, um cenário extremamente favorável para os emergentes, os Brics em particular e o Brasil de modo especial, especialmente em se considerando as grandes oportunidades que devem se abrir no País nos próximos anos por conta do início da exploração do pré-sal, da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, e da ascensão das classes C e D. As empresas brasileiras têm, como se vê, uma chance inigualável de ir além do crescimento orgânico e dar um salto de performance e resultados. Para financiar essa expansão, há múltiplas alternativas, como os investimentos de fundos de private equity ou fusões, mas é por meio da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), o processo mais longo e também custoso, que as mais maduras e preparadas conseguirão concretizar plenamente seu potencial.
 
“O Brasil vive um momento muito positivo em relação a outras economias. China, Índia e Rússia são percebidas como menos amigáveis ao investimento estrangeiro. Logo, o potencial de ampliação do investimento no Brasil é estrondoso. Para companhias bem posicionadas, a perspectiva de aproveitarem essa fase é imensa”, avalia Claudio Sassaki, vice-presidente do Goldman Sachs. Ele foi um dos participantes do projeto “O processo de construção de valor para sua empresa”. O programa, promovido pela Amcham em parceria com Ernst&Young, BM&FBovespa, Totvs, Goldman Sachs e Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados, realizou em setembro em outubro uma série de eventos em Campinas, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Goiânia. Além disso, lançou em São Paulo nesta quarta-feira (17/11) um estudo que mapeia empresas com alto potencial de crescimento e perspectivas de que realizem IPOs.
 
“Temos uma janela de oportunidade. O momento é de decisão sobre como promover o crescimento das empresas”, completa Paulo Sérgio Dortas, sócio de Strategic Growth Markets da Ernst & Young Terco e líder do Centro de Inteligência em IPO da consultoria na América do Sul.
 
Reforço positivo
 
A conjuntura benéfica a IPOs no Brasil é reforçada por movimentos conduzidos ao longo da última década, entre os quais se destacam o estabelecimento em 2000 da Resolução 2689 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que facilitou o ingresso de investidores estrangeiros no mercado nacional; a criação também em 2000 do Novo Mercado, que reúne as companhias listadas na bolsa com os mais elevados padrões de governança corporativa q que propiciou o aumento do interesse de investidores locais e internacionais pelo mercado acionário brasileiro; o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) para operações em bolsa, que tornou o mercado acionário nacional mais competitivo a partir de junho de 2002; e os esforços da BM&FBovespa para estender a base de investidores por meio de programas de popularização voltados a investidores individuais e aumento dos trabalhos de divulgação do mercado brasileiro.
 
A BM&FBovespa tem atuado também em outras frentes com o objetivo de se preparar para essa esperada maior adesão ao mercado de capitais. Entre as iniciativas adotadas, estão a instituição de uma área de fomento e desenvolvimento de empresas, e de programas e convênios para capacitar investidores e empreendedores.
 
Justificativas e requisitos
 
Seja para captar recursos para dar continuidade à sua jornada de crescimento, obter maiores reconhecimento e posicionamento no mercado, melhorar a classificação de rating e reduzir custos de capital para financiamentos, ou como evolução natural, o certo é que as empresas que optam pelo IPO querem se tornar mais competitivas e sustentar seu desenvolvimento.
 
A efetivação do IPO costuma levar cerca de 18 meses e demanda que a companhia esteja bem estruturada do ponto de vista de processos, tecnologia e pessoas. “Não adianta ter processos sofisticados se não existir capital humano para operá-los. Além disso, é preciso maturidade para absorver tecnologia”, salienta Lélio Souza, diretor de Consultoria e Serviços de Valor Agregado da TOTVS.
 
Outro passo fundamental é avançar em termos de governança corporativa, o que envolve seguir princípios de transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. “Parte importante do processo de IPO é estruturar a empresa para que tenha condições de dar ao mercado informação de maneira legal e correta”, diz Alexandre Barreto, sócio fundador do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados.
 
“A transparência tem de vir caso realmente se queira dar esse passo. O veículo que demonstra isso é a apresentação de demonstrações financeiras auditadas”, acrescenta Luis Marini, sócio de Auditoria da Ernst & Young Terco.
 
“É de fato muito importante introduzir a governança. Atualmente, 72% do volume negociado na BM&FBovespa acontecem nos três níveis que consideram essas práticas (Nível I, Nível II e Novo Mercado, em ordem crescente de exigência)”, reforça José Antonio Gragnani, diretor executivo de Desenvolvimento e Fomento de Negócios da BM&FBovespa.
 
O banco Goldman Sachs lista exigências básicas que podem ser uma boa referência para empresas interessadas em abrir capital:
•         Oportunidades de mercado com grande potencial de crescimento;
•         Estratégia para aumento de lucratividade do negócio;
•         Produto/ tecnologia diferenciados;
•         Modelo financeiro atraente e estável;
•         Receita recorrente e previsível;
•         Processos de previsão trimestrais que podem ser repetidos, com controles de geração de relatórios financeiros;
•         Produto de valor agregado, com margens competitivas;
•         Oportunidade de expansão de margem;
•         Administradores experientes que passem credibilidade e qualidade;
•         Conselho de administração e outros princípios de governança.
 
A instituição financeira também elenca armadilhas a serem evitadas:
•         Volatilidade das demonstrações financeiras;
•         Modelo financeiro ineficiente (com estrutura de margem desconhecida, por exemplo);
•         Alta rotatividade dos auditores independentes;
•         Concentração da receita em poucos clientes;
•         Movimento estratégico inoportuno que altere e prejudique o modelo de negócios;
•         Litígio pendente;
•         Existência de várias outras empresas do setor listadas com modelo de negócio idêntico;
•         Ofertas de tamanho reduzido, que criam pouca liquidez no mercado.
 
Por fim, o Goldman Sachs aponta fatores críticos de sucesso em processos de IPO:
•         Acesso ao mercado de maneira oportuna e confluente com o posicionamento dos negócios, o desempenho do setor e a receptividade do mercado para a nova emissão;
•         Otimização do volume da transação para atender às necessidades da empresa e dos acionistas vendedores, enquanto fornece liquidez suficiente para os investidores do mercado público;
•         Equilíbrio entre os requisitos de capital da empresa e a liquidez desejada aos acionistas vendedores conforme a capacidade do mercado;
•         Planejamento de um plano de marketing equilibrado (incluindo road show para potenciais investidores) que fortaleça a demanda trazendo diferentes grupos de investidores;
•         Definição do preço por ação da oferta e alocação de ações por investidor para estabelecer uma base de acionistas qualificada e de longo prazo que assegure um forte desempenho no mercado secundário.
“Na precificação, não se quer que a ação despenque nem que saia abaixo do valor”, resume Sassaki.
 
Quadro geral
 
Em 2007, foram realizados globalmente 734 IPOs, número que caiu dramaticamente a 148 em 2008, no auge das turbulências internacionais, ensaiou retomada em 2009, alcançando 256 operações, e em 2010 encontra-se em 431. No Brasil, foram 66 em 2008, apenas três em 2008, seis em 2009 e até o momento oito em 2010. O valor médio de um IPO no cenário global é hoje de US$ 310, bastante abaixo dos US$ 518 registrados no Brasil.
 
No País, os setores que concentram a abertura de capital desde 2007 são construção civil (33%), financeiro (20%), consumo e varejo (11%), transportes (6%), saúde (4%), agronegócio (4%), energia (2%) e gás (2%).
 
A BM&FBovespa é atualmente a segunda maior bolsa do mundo em valor de mercado, perdendo só para a Bolsa de Hong Kong.  “As bolsas de Nova York, Nasdaq e Londres, juntas, os três pilares do mercado internacional, somam um valor inferior ao da do Brasil”, informa Gragnani.