Ciência sem Fronteiras é oportunidade para fomentar cultura de inovação industrial no Brasil

por andre_inohara — publicado 08/05/2012 18h14, última modificação 08/05/2012 18h14
São Paulo – Pesquisa e desenvolvimento do Brasil ainda se concentram nas universidades e pouco nas empresas; por isso, a inovação voltada para a criação de patentes fica em segundo plano.
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Com o programa Ciência sem Fronteiras (CsF), o governo quer mudar o perfil da produção científica no Brasil, considerada muito acadêmica, para a de geradora de inovações industriais.

“Para conseguir essa cultura de inovação, de registros de patentes e criação de produtos que logo vão retornar com grande lucro para as empresas, precisamos submeter nossos alunos a ambientes extremamente competitivos”, disse Emerson Willer, coordenador técnico substituto da Coordenação de Cooperação Bilateral do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Willer debateu sobre o CsF com executivos de empresas brasileiras e estrangeiras nesta terça-feira (08/05) em reunião na Amcham-São Paulo, e disse que a produção de ciência brasileira é muito acadêmica e ainda pouco voltada à criação de patentes. “Mesmo em uma universidade de excelência no Brasil nossa ciência está restrita à academia, que muitas vezes coloca em segundo plano a competição e o registro de patentes.”

O CsF surgiu para suprir a carência de engenheiros, pesquisadores e outros profissionais necessários para desenvolver conhecimentos científicos e tecnológicos voltados ao aperfeiçoamento industrial.

Até 2015, os melhores estudantes e pesquisadores brasileiros que se inscreverem serão selecionados pelo governo (75 mil bolsas) e pela iniciativa privada (cerca de 26 mil bolsas) para estudarem ciências exatas e biomédicas nas principais universidades do mundo e trazerem conhecimentos inovadores para criar produtos e processos tecnologicamente avançados.

O orçamento do programa está estimado em cerca de R$ 3,2 bilhões, disse Willer. Esse é o montante que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior  (Capes) e o CNPq têm para pagar as bolsas de estudos e os custos com moradia, transporte e saúde dos estudantes. Há vagas em universidades nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Coreia do Sul e outros. Também estão em negociação convênios com instituições na China, Japão, Finlandia e Índia.

Produção científica brasileira pouco voltada à inovação industrial

No Brasil, o conhecimento científico produzido é mais voltado para o universo acadêmico. O País é o 13º país do mundo que mais produz artigos científicos, o que equivale a 3% da produção mundial. Isso porque os pesquisadores mais graduados, como os doutores, quase não produzem conhecimento para a indústria. Em países como Canadá, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, a situação se inverte: há mais doutores trabalhando em empresas.

“Se verificarmos a quantidade de doutores alocados no Brasil, quase 80% estão no setor de educação, 11% na administração pública e de 3% a 5% nas empresas. Precisamos reverter esse quadro”, destaca Willer.

Quando se fala em inovação industrial, a posição brasileira é desconfortável. “O Brasil está muito aquém do registro de patentes porque não temos a cultura de proteger o trabalho inovativo, de criação e inventividade”, observa ele.

Veja aqui: Presidente do INPI defende modernização do instituto em encontro com empresários americanos

Países que escolheram investir em educação nas décadas de 1970 e 1980, como Coreia do Sul e China, estão colhendo agora os frutos dessa política. “Esses países têm aumentado muito sua participação em depósitos de patentes por conta do investimento massivo em educação e tecnologia”, assinala.

A parceria com o setor privado

O coordenador do CNPq destacou a importância de o setor privado abrir suas portas aos estudantes e pesquisadores, para que eles apliquem os conhecimentos adquiridos de forma prática. Entre 2011 e 2015, o governo pretende oferecer cerca de 30 mil bolsas de graduação sanduíche (com duração de doze meses e voltada a estudantes que cursaram de 20% a 90% de seu curso regular).

Nesse período, as aulas duram cerca de oito meses (quatro por semestre) e os alunos poderiam preencher o tempo restante estagiando em alguma empresa. “O grande papel das empresas no processo é permitir que os estudantes aproveitem o conhecimento em pesquisa ou estágio”, argumenta Willer.

Em contrapartida, o papel dos bolsistas é se aplicarem nos estudos, ressalta Marileide Maria Augusto Vieira, coordenadora de Bolsas da Capes. "Eles não estão indo para o exterior a passeio", frisa. A instituição será responsável pelo gerenciamento de 40 mil das 75 mil bolsas públicas, ficando o restante a cargo do CNPq.

Nessa divisão, a Capes ficou encarregada de direcionar as bolsas de graduação sanduíche para os EUA e o CNPq, para o resto do mundo. “A Capes e o CNPq trabalham juntos, mas, como temos poucos recursos e funcionários, fizemos essa divisão”, afirma.

A primeira leva de estudantes de graduação dessa modalidade para os EUA foi de 1500 alunos, sendo que uma parte saiu em janeiro e outra irá em julho.

Necessidade de maior divulgação no exterior

O CsF tem o mérito de promover a educação em massa, disse Luiz Valcov Loureiro, diretor executivo da Fundação Fullbright. Para ele, a iniciativa privada sempre reconheceu a necessidade de formação de mão de obra e já financiou estudos no exterior na década de 1990, em menor escala que o programa CsF hoje.

A fundação tem um papel importante para o CsF nos Estados Unidos, realizando o mapeamento de instituições para o programa. A primeira onda de estudantes brasileiros, que chegou em janeiro, deve encontrar algumas dificuldades para encontrar estágios, em função do ineditismo, prevê Loureiro.

“O programa não é tão conhecido nos Estados Unidos, e há um tempo de resposta para as coisas acontecerem”, comenta. As próximas levas de estudantes devem ter menos problemas, segundo Loureiro.

As instituições têm um papel fundamental no desenvolvimento do programa e que vai além do patrocínio de bolsas, argumenta Loureiro. “Dinheiro é bom, mas tão importante quanto isso é dar oportunidades de estágio.”

Os escritórios brasileiros das empresas americanas podem ajudar, intermediando o contato no exterior e aproveitando o estudante no Brasil. “Queremos que as empresas ajudem os alunos a terem experiências além da faculdade”, observa.