Cogeração é o principal caminho para a autoprodução de energia

por marcel_gugoni — publicado 27/03/2012 17h15, última modificação 27/03/2012 17h15
Marcel Gugoni
São Paulo - Preços altos e baixa qualidade no fornecimento forçam companhias a buscarem alternativas de provisão.
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Energia é um insumo básico de qualquer empresa, mas os preços altos e voláteis do produto, a muitas vezes baixa qualidade no fornecimento e a insegurança por conta de riscos de apagões (ainda que localizados) levam as companhias a buscarem alternativas. Gerar a própria energia é uma saída cada vez mais comum entre grandes usuários de eletricidade, como as indústrias, mas ainda é um processo que custa caro. A cogeração surge como melhor solução para o problema, na avaliação de Erik Eduardo Rego, diretor executivo da Excelência Energética Consultoria Empresarial.

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“A cogeração é a melhor de todas as saídas porque não só evita a alta de custos da geração de energia como economiza no transporte da energia”, afirma o especialista, que participou nesta terça-feira (27/03) do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo

O processo é resultado da produção simultânea de tipos distintos de energia, seja ela mecânica ou térmica, por exemplo, originados a partir de um único conjunto de materiais. Durante o uso de um combustível, em torno de 70% de sua energia são transformados em calor e perdidos para o ambiente. A cogeração visa ao aproveitamento desse material que seria perdido. 

André Gohn, diretor de energia da Braskem, indústria do setor químico, afirma que a sinergia pode e deve ser aproveitada pelas empresas. “Uma cogeração pode ser montada usando biomassa como combustível, o que permitiria o uso de algum gás residual como fonte de energia térmica para otimizar o custo total da autoprodução; ou combinar energia eólica com uma hidrelétrica para aproveitar a sazonalização inversa de quando uma está parada, e a outra  gerando energia.” 

Ele diz que a própria Braskem utiliza a cogeração em três de suas plantas. Considerando a matriz energética das 28 unidades de produção da empresa no Brasil e nos EUA, 67% da energia provêm de combustíveis residuais. O gás natural alimenta 17%, a eletricidade, 10% e o óleo, 1%. “A energia elétrica é apenas parte da equação energética”, afirma. 

Hidrelétrica própria 

Rego afirma que as fontes alternativas ficam ainda mais atrativas devido à perda de competitividade das hidrelétricas na matriz da autoprodução. “Nos anos 1990, o autoprodutor podia comprar uma concessão e construir a usina inteirinha para o seu próprio consumo. Hoje em dia, ele é obrigado a vender 70% da energia dela no mercado”, explica. 

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As regras do setor aprovadas no começo dos anos 2000 determinam que a empresa deve buscar um parceiro que não seja um autoprodutor para instalar o que se chama de pequena central hidrelétrica (PCH). “Se uma indústria preferir fazer um investimento sem parceiros, terá que deixar de ser um autoprodutor. Isso porque só poderá ficar com uma parcela para si e vender grande parte da sua energia a um preço muito baixo. Isso desincentiva os projetos.” 

Ele cita ainda a dificuldade de fazer PCHs por conta da demora regulatória e de marcos ambientais. “O consumidor industrial não tem tempo para ficar esperando quatro, cinco anos por uma licença. Quando decide investir, precisa começar a obra já para produzir energia no curtíssimo prazo.” 

Preço baixo e segurança 

Michael Lehmann, gerente executivo da Divisão de Energia da Volkswagen, afirma que, apesar do alto custo de construção, a hidrelétrica era a melhor alternativa para atingir a meta da companhia no Brasil de ser “autossuficiente em 80% do consumo de energia elétrica nas empresas do grupo”. A companhia tem cinco unidades em São Paulo e Paraná e não teria como depender de fornecedores externos, tampouco poderia contar com sistemas de geração de energia em cada planta, o que encareceria o projeto. 

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A montadora tem duas PCHs montadas no Rio Sapucaí, perto de São Joaquim da Barra (município a 380 km de São Paulo), com capacidade instalada entre 22,7 MWh e 25,5 MWh, cada uma. “Esse foi um investimento que fizemos com gosto”, lembra. “Apesar de o retorno ter demorado entre seis e sete anos, a redução do preço da energia elétrica ficou em 7%, proporcionando uma economia anual de R$ 1,2 milhão.” 

Ele ainda cita a vantagem de poder assegurar o preço de energia em um patamar estável no longo prazo e a proteção que tem contra blecautes. “E ainda geramos 500 empregos diretos na construção e 5000 indiretos, contribuindo com o aumento da receita dos municípios vizinhos à hidrelétrica”, afirma. 

Novas oportunidades 

Para Gohn, o mundo ideal é aquele em que as empresas não precisariam investir em autoprodução, tendo que se preocupar apenas em comprar do próprio mercado uma energia garantida, eficiente e barata e tendo mais recursos disponíveis para focar em seu negócio principal, “que é a fabricação de seu produto ou a oferta de seu serviço”. 

Os investimentos em energia são “mais fáceis de ser realizados pelos agentes do setor elétrico, que têm os recursos e o conhecimento técnico”, analisa. “Mas, dadas as condições de energia no País, o consumidor se vê obrigado a realizar esses investimentos.” 

Há quatro premissas que devem ser consideradas no processo de autoprodução: a energia tem que ser competitiva, isto é, ter um custo menor do que aquele oferecido pelas empresas do setor (algo possível ao se evitar a alta carga de impostos que incidem sobre a energia vendida pelas concessionárias); vir de fontes sustentáveis, ou seja, que não aumentem as emissões da empresa; ser confiável, como uma usina que seja ligada a uma rede direta até a indústria; e promover eficiência no uso da energia durante a produção. 

Rego diz que ainda há oportunidades no que tange o debate da autoprodução, como é o caso das cooperativas industriais. A ideia, que ainda carece de debates na Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), é a de ganhar escala ao manter uma única geradora de energia em um parque industrial que forneça para várias empresas diferentes, com baixo custo e confiabilidade.

“Uma indústria que consome 10 MWh, que já é um consumo intensivo, não pode ficar presa só à pequena geração porque uma PCH pode não atender o perfil da indústria. Mas, quando se juntam várias empresas em um parque de 100 MWh, ganha-se volume suficiente para fazer desenvolver várias gerações energéticas aos mais variados perfis e ratear a energia”, explica. 

Segundo ele, “essa seria uma saída bastante interessante porque traria competitividade à indústria” em um ramo tão essencial quanto é o fornecimento desse insumo tão básico à produção. 

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