Com câmbio elevado, importações encarecem e preços internos devem ser equiparados aos do mercado internacional a partir do segundo semestre

por andre_inohara — publicado 19/06/2012 16h08, última modificação 19/06/2012 16h08
São Paulo – Produtores nacionais devem ajustar valores dos tradables aos níveis praticados no exterior, prevê consultoria Tendências.
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A desvalorização do real vai trazer impactos significativos para os preços no mercado doméstico a partir do segundo semestre. O encarecimento dos insumos e tradables (commodities e outros bens comercializáveis no mercado internacional) no exterior fará com que os preços no País sejam equiparados, tornando-se mais caros.

Trata-se de um ajuste que será absorvido pela economia, devido ao aumento do poder aquisitivo da população, uma vez que a renda real do trabalhador tende a aumentar em função do ainda aquecido mercado de trabalho, avalia Bruno Rezende, especialista da Tendências Consultoria

“Com o novo cenário para o câmbio, acreditamos em um impacto relevante para as áreas de compras no segundo semestre, principalmente com repasse nos preços internos dos produtos tradable”, afirma Rezende.

O consultor participou do comitê estratégico de Compras Corporativas da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (19/06) juntamente com o colega Márcio Nakane e apresentou um panorama macroeconômico e setorial. Após a reunião, Rezende disse em entrevista ao site que o mercado doméstico deve conviver com preços mais elevados a partir do segundo semestre.

A desvalorização cambial dos últimos meses tende a nivelar os preços no mercado externo e no interno. Em janeiro, o dólar estava a R$ 1,70 e atualmente está na casa dos R$ 2. “Se o produtor de soja está recebendo mais em reais pelo grão que está exportando, vai querer cobrar o mesmo preço no mercado interno. Do contrário, vai preferir vender a sua mercadoria lá fora”, exemplifica Rezende.

Esses preços devem andar juntos, mesmo que ocorra alguma defasagem em um primeiro momento. “Existe espaço no mercado interno para o repasse de preços. Não há como segurar. Essa alta deve ocorrer mesmo”, prevê o consultor.

Os dois lados do câmbio

O câmbio valorizado desfavorece as importações e favorece as exportações. Em relação ao mercado de commodities, a demanda internacional tende a sofrer ligeira queda, mas o quadro ainda é positivo às exportadoras brasileiras.

“Projetamos uma desaceleração das taxas de crescimento da China, que devem ficar próximas a 8% neste ano e 7,5% no próximo. Seria um soft landing (pouso suave), e não uma queda tão brusca”, observa Rezende.

Nesses patamares de crescimento, a China ainda sustentará o consumo mundial de commodities. “O Brasil não sai prejudicado e tem até um beneficio cambial, aumentando as receitas de exportação em reais”, acrescenta o especialista.

Cenário macroeconômico: PIB e juros menores, inflação e câmbio estáveis

Para a Tendências, a economia brasileira vai crescer menos de 2% neste ano. Apesar de uma esperada retomada da atividade econômica no segundo semestre, a consultoria rebaixou sua estimativa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 1,9%, fruto do enfraquecimento da atividade econômica nos três últimos trimestres.

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O economista da Tendências Márcio Nakane disse que a perda de vigor foi mais intensa no primeiro trimestre deste ano, refletindo a baixa taxa de investimentos na economia. “Por conta da preocupação com o crescimento de curto prazo, o governo tem priorizado o componente de consumo do PIB, assegurando ganhos de renda para as famílias consumirem”, argumenta.

O apego do governo ao modelo baseado no consumo não está criando condições estruturais para a melhora da oferta, conforme Nakane. “O atual modelo de estímulo ao consumo pode assegurar a expansão do PIB este ano e o seguinte, mas não em longo prazo.”

O desempenho fraco não veio apenas da falta de investimentos. “Do lado da oferta, outro componente foi o baixo PIB do setor agropecuário, por conta de problemas climáticos. Choveu muito em alguns lugares e houve seca em outros. Foi uma surpresa negativa”, assinala Nakane.

Em relação à taxa básica de juro, o Banco Central deverá baixar a Selic até 7,5%, “diante de contexto internacional e da desaceleração interna atual”, prevê a Tendências. Atualmente, a taxa está em 8,5% ao ano.

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E a estimativa para a inflação é de leve queda, com perspectiva de estabilidade para o final do ano. “A inflação [medida pelo IPCA] fechou 2011 próxima a 6,5% e houve uma desaceleração previsível até agora, que não vai se repetir daqui para a frente. Para o final do ano, nossa expectativa é de 5,1% [perto do patamar atual de 5% no acumulado dos últimos doze meses]”, comenta o economista.

Até o final do ano, o câmbio deve fechar em torno de R$ 2, não muito distante da faixa atual de R$ 2 a R$ 2,1. Segundo Nakane, a intervenção crescente do governo no mercado de câmbio para manter a cotação em determinado patamar mantém a taxa descolada dos fundamentos econômicos (oferta e demanda).

Governo  mais preocupado com crescimento do que com investimentos

Nakane também fez algumas observações sobre as recentes medidas do governo Dilma para a economia. As isenções tributárias para alguns setores, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) no setor automotivo e as medidas de desoneração para capitais estrangeiros têm como objetivo assegurar um mínimo de crescimento para esse ano, opina o economista.

“Não vemos muitos sinais de estímulos aos investimentos por parte do governo”, disse Nakane. Programas como o Brasil Maior, voltados à melhoria do ambiente de investimentos e incentivo à inovação industrial, não são suficientes.

“É preciso fazer uma reforma tributária, que é extremamente importante para garantir o crescimento de longo prazo. Também há questões pendentes em infraestrutura, logística e ambiente regulatório, que são determinantes para a retomada de investimentos, e não estamos vendo acontecer.”

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