Com malha logística precária, transportar grãos do sul para o nordeste é mais caro do que levar produtos à China

por andre_inohara — publicado 28/11/2011 15h51, última modificação 28/11/2011 15h51
André Inohara
Brasília – Malha nacional de transportes não suporta volume de produtos que é direcionado aos portos.
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O sistema de transportes brasileiro é insuficiente para comportar as necessidades de deslocamento da produção agrícola.

Sem opções baratas e eficientes de modais de transporte, levar milho e soja do Sul para o Nordeste ficou mais caro do que para a China, compara Reinhold Stephanes, deputado federal (PSD-PR) e ex-ministro da Agricultura.

Para ele, é preciso criar um plano estratégico de escoamento de safra, além de melhorar com urgência a infraestrutura logística do País.

Veja a entrevista de Stephanes ao site da Amcham, concedida após ele participar de seminário do programa "Competitividade Brasil – Custos de Transação" da Amcham na quinta-feira (24/11) em Brasília:

Amcham: Como os gargalos da infraestrutura logística afetam o setor agrícola?
Reinhold Stephanes:
Os problemas de infraestrutura logística na agricultura são extremamente sérios. Esse já é um assunto conhecido e temos grandes especialistas no ramo que conhecem esse assunto no Brasil, mas falta ao governo incorporar isso como questão estratégica. Além do problema de infraestrutura, não temos oficialmente um plano estratégico de escoamento de safras. Também não há definição sobre como o volume produzido hoje deve ser deslocado, e muito menos voltada para o de amanhã, que será muito maior. Isso deverá agravar a questão de deslocamento da produção.

Amcham: Poderia dar mais detalhes?
Reinhold Stephanes:
É na infraestrutura deficiente que se perde grande parte da renda de produção porque nas fazendas podemos produzir com muita eficiência e custos baixos, mas, para o produto chegar até os mercados, há custos embutidos elevados que diminuem renda de quem produz. Para se ter uma ideia, o custo para deslocar e armazenar a produção brasileira é o dobro do registrado nos Estados Unidos e na Argentina. Isso, evidentemente, é perda de renda para o produtor e de competitividade para o Brasil.

Amcham: O que falta para melhor o sistema nacional de transportes?
Reinhold Stephanes:
No Brasil, o custo de transporte dos produtos que vão do Sul para o Nordeste, como é o caso do milho e do trigo, é maior do que o de levar produtos até a China. Temos problemas de escoamento de safra no País que vão desde o armazenamento em regiões de expansão agrícola, principalmente no Centro-Oeste, até a manutenção das estradas. Por exemplo, transportar grãos do Centro-Oeste até os portos de Paranaguá e Santos acarreta um custo enorme por via rodoviária.

Amcham: Como estão as condições dos outros modais de transporte?
Reinhold Stephanes:
Temos muito poucas ferrovias operando. No caso do Paraná, maior estado produtor do Brasil, há uma ferrovia com mais de 130 anos. Ela não possui as melhores condições para o transporte de carga. Além disso, a empresa que administra essa ferrovia definiu um custo de transporte praticamente idêntico ao do transporte rodoviário. Isso porque não há concorrência de outra ferrovia, nem livre passagem. É dessa forma que a produção chega aos portos, onde também há problemas seriíssimos.

Amcham: Quais são esses problemas?
Reinhold Stephanes:
No porto de Paranaguá, que é o maior importador de fertilizantes do Brasil, o navio chega a ficar uma média de 25 a 30 dias ao largo da costa, esperando para descarregar. Em época da exportação da soja, as filas também são enormes e muitos dias se gastam para embarcar os grãos, aumentando os custos.

Amcham: Entre a ampliação da infraestrutura de transportes ou portuária, qual é a que deveria começar primeiro?
Reinhold Stephanes:
É preciso mexer em toda a infraestrutura, desde os portos, que evidentemente não têm condições de carregar e descarregar mercadorias, e que muitas vezes têm problemas seríssimos de dragagem. Há portos em que é preciso esperar a maré subir para o navio poder encostar.