Gargalos de competitividade e concorrência desleal pressionam setor de papel e celulose

por andre_inohara — publicado 18/05/2011 15h59, última modificação 18/05/2011 15h59
André Inohara
São Paulo – Deficiências de infraestrutura logística e energética e papel importado isento de impostos são desafios para o segmento, que mesmo assim segue em expansão, revela presidente da IP.
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Além de limitações de competitividade, principalmente no campo da infraestrutura, o setor de papel e celulose brasileiro tem de enfrentar uma concorrência desleal originada pela importação de similares estrangeiros com isenção de impostos.

“É um papel que entra no mercado sob a condição imune (isento de impostos) e acaba desviado da finalidade prevista em lei, que é a de uso exclusivo em impressão de livros, jornais, revistas ou periódicos”, disse o presidente da International Paper, Jean-Michel Ribieras, que participou do comitê estratégico de Business Affairs da Amcham-São Paulo em 13/05.

Em 2010, o consumo de papel imune no segmento doméstico de imprimir e escrever foi de 1,135 milhão de toneladas, sendo 650 mil toneladas de papel importado, de acordo com a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa).

“A Bracelpa estima que 60% desse volume podem ter sido desviados da finalidade, em uma concorrência desleal aos produtores nacionais”, disse Ribieras.

Infraestrutura deficitária

Do ponto de vista de deficiências estruturais da economia brasileira, as empresas de papel e celulose no País perdem competitividade em função de fatores como falta de estrutura logística e de energia elétrica; baixa qualificação e dificuldade de retenção de mão de obra; alta carga tributária; câmbio valorizado; e insegurança jurídica.

“São temas que constam da agenda Competitividade Brasil, da Amcham, e devem ser aprofundados”, observou Ribieras.

Dois fatores foram ressaltados pelo executivo. Primeiro, a situação do câmbio brasileiro, que afeta os mercados interno e externo das empresas do setor. “O câmbio é um dos fatores que representam perda de competitividade, tanto na exportação quanto na competição pelo mercado doméstico, impactado pelos importados.”

O segundo fator salientado por ele é a alta carga tributária. Ribieras citou um estudo de 2008 da consultoria KPMG que indica que a carga brasileira está dez pontos acima da média mundial. “Com isso, o produto brasileiro perde espaço no mercado externo, em função de estar cada vez mais caro.”

Perspectivas otimistas

Em meio aos obstáculos estruturais da economia, o setor de papel e celulose continuará se expandindo, graças a aumento de mercado e vantagens competitivas. “Deveremos crescer entre 4% a 5% ao ano na América Latina, acompanhando o crescimento do PIB”, assinala Ribieras.

No mercado brasileiro, há condições para crescimento contínuo do segmento. A produção de papel aumentou na última década, em média, 3,1% ao ano, estimulada pelo crescimento da população e pela melhoria da educação.

De acordo com a Bracelpa, o consumo per capita de papel, de todos os tipos, é de 44 kg ao ano no Brasil, contra uma média mundial de 57,5 kg. Para efeito de comparação, o Chile consome 81 kg e México e Argentina, 60,4 kg por habitante/ano. A Finlândia ocupa o primeiro lugar com consumo de 339 kg por habitante /ano.

Uma vantagem competitiva inerente ao Brasil está na produção de matéria-prima. “No País, o ciclo do cultivo do eucalipto é de aproximadamente sete anos, enquanto em alguns países europeus chega-se a esperar mais de 30 anos para a colheita”, disse Ribieras. A qualidade da fibra de celulose também é superior à de outros países, acrescentou.