Para aumentar nível da mão de obra, empresas formam consórcios e importam talentos

por andre_inohara — publicado 29/06/2011 16h18, última modificação 29/06/2011 16h18
Belo Horizonte – Empresários mineiros debateram formas de lidar com essa realidade no evento Competitividade Regional.

A escassez de mão de obra técnica, um dos principais entraves à competitividade brasileira, também atinge com seriedade o setor produtivo de Minas Gerais.

Propostas como a formação de consórcios para atuar em soluções de capacitação, a importação de profissionais para setores carentes de especialização e o combate à evasão de estudantes universitários especialmente das chamadas ciências duras (hard sciences) foram apontadas como alternativas para lidar com essa dificuldade, durante o seminário Competitividade Regional, realizado na terça-feira (28/06) em Belo Horizonte como parte do programa “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham.

“A questão da formação de quadros profissionais especializados é prioritária para Minas Gerais e o Brasil como um todo, sejam Estados mais ou menos desenvolvidos, o que afeta o padrão de competitividade do País”, indicou o professor da Universidade de São Paulo (USP) Jacques Marcovitch.

Consórcio

De olho nas necessidades dos setores de mineração e siderurgia em Minas, um grupo de grandes empresas sediadas no Estado resolveu se unir para formar a mão de obra demandada no presente e estimada para o futuro. Assim foi criado o Consórcio Mínero Metalúrgico.

“Tínhamos que nos organizar e buscar parcerias. Fizemos um levantamento da necessidade de pessoal e conversamos com governo estadual, universidades e instituições profissionalizantes para resolver o problema juntos”, contou Alba Valéria Santos, gerente de Recursos Humanos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e coordenadora do consórcio.

O grupo calculou que, em cinco anos, precisaria preencher 40.850 vagas e compreendeu que, para alcançar esse objetivo, deveria evitar uma guerra de talentos, com disputa agressiva de profissionais entre si e aumento de salários. A trilha percorrida envolveu parcerias com o Senai, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado, apenas para citar alguns exemplos, sempre voltadas a qualificar mão de obra.

Se grandes companhias como as do consórcio sofrem com o problema, é preciso lembrar que ele também se estende às pequenas.
“Para o empresário mineiro de pequeno porte, a maior dificuldade está no nível de ensino fundamental e médio, seguido pelo técnico”, comentou Brenner Lopes, gerente da unidade de Inteligência Empresarial do Sebrae-MG.. De acordo com o Sebrae, o setor que mais sente a falta específica de técnicos em Minas é o de serviços.

Importação de estrangeiros

No setor de construção pesada, a saída encontrada pela Mendes Junior Engenharia foi atrair mão de obra qualificada no exterior, aproveitando-se do contexto econômico benéfico vivido pelo País e por Minas em específico. O movimento de expansão das empresas brasileiras e a crise que persiste nos países desenvolvidos têm facilitado a contratação de profissionais estrangeiros, segundo Lívia Souza Santana, diretora de RH da Mendes Junior.

“As condições econômicas são extremamente favoráveis para a vinda desses profissionais, e timing é tudo em nosso negócio. Buscamos realizar isso de maneira estratégica e continuaremos a fazê-lo”, disse, referindo-se à procura no exterior por profissionais com conhecimento em áreas específicas onde a mão de obra brasileira é inexperiente ou escassa, para em seguida emendar: “mas sabemos que não teremos eternamente esse contexto e precisamos adotar medidas”. Ou seja, as companhias em território nacional têm de se preparar porque, conforme os países desenvolvidos se recuperarem da crise, o Brasil precisará oferecer mais atrativos para seguir importando quadros.

“O Brasil competirá globalmente por profissionais talentosos. Isso poderá gerar impactos em nível legislativo, nas políticas corporativas de RH e até nos negócios das organizações”, afirmou Riccardo Barberis, presidente da assessoria de recursos humanos Manpower Brasil.

Barberis contou que vários países já atuam para se mostrar mais atrativos, como China e também França, algo que o Brasil precisará colocar em prática de alguma forma, tendo por regra facilitar a mobilidade de recursos humanos nas áreas de maior carência.

“A França está fazendo acordos trabalhistas com a província canadense de Quebec para facilitar a movimentação de profissionais e a China tem um plano até 2020 para disseminação de conhecimentos. Ela compreendeu que precisa formar pessoas internamente”, exemplificou.

Hoje, conforme a Manpower, 34% dos empregadores no mundo têm dificuldade para chegar ao perfil adequado a sua estratégia de negócio. O Brasil ocupa a terceira posição no ranking dos que mais sofrem com o problema, logo atrás de Japão (impactado por questões de limitação demográfica) e Índia (em elevado crescimento).

Combate à evasão de estudantes

Outra forma de garantir oferta de mão de obra especializada é conseguir que um maior número de estudantes complete a graduação. “Não precisamos de mais vagas, mas formar mais engenheiros”, enfatizou o diretor da escola de engenharia da UFMG, Benjamim Rodrigues de Menezes. Para ele, esse objetivo exige tornar as carreiras técnicas, fundamentais para a execução de projetos de expansão dos negócios e inovação, mais atraentes para os jovens.

A cada ano, cerca de 15% dos estudantes de engenharia deixam de se formar na UFMG, revela Menezes. Isso representa cerca de 150 alunos de um total de 1.010.

Os números são ainda mais preocupantes se considerar que os engenheiros que se graduam acabam absorvidos, na maioria, por outras áreas. “Só 40% dos engenheiros atuam na profissão”, lamentou.

Para Menezes, a demanda por engenheiros continuará aquecida nos próximos anos, o que tende a contribuir para a elevação dos salários dos profissionais e, consequentemente, estimular o interesse pela profissão. As empresas também precisam fazer sua parte, continuou ele, dando condições salariais e de carreira para que os profissionais de engenharia atuem em seus campos.