Crédito à inovação precisa ser de longo prazo, estável e aceitar mais risco, orienta executiva do BNDES

por marcel_gugoni — publicado 16/08/2012 19h07, última modificação 16/08/2012 19h07
São Paulo – Risco é principal entrave para o desenvolvimento do financiamento à inovação. Banco diz que ainda há muito espaço para crescer no País.
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Sem financiamento, nenhum projeto de inovação sai. É dessa forma que Helena Tenório Veiga de Almeida, chefe do departamento de Avaliação, Inovação e Conhecimento do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), define a importância do órgão para o setor privado. “A pesquisa e o desenvolvimento de inovação no Brasil precisam de crédito de longo prazo, estável e que aceite riscos maiores. Fornecer isso é a principal contribuição que o BNDES pode dar às atividades inovadoras.”

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Segundo ela, que participou do seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado pela Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (16/08), pensar no longo prazo é a melhor forma de ganhar competitividade. “Empresa que pensa no curto prazo não inova. São os investimentos para a inovação que garantem às empresas uma competitividade de longo prazo.” 

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Nos bancos privados, são poucos recursos os direcionados a pesquisa e desenvolvimento das empresas. Isso porque o risco de um projeto de inovação é altíssimo. “A inovação pode dar certo ou não. No Brasil, temos um complicador: o nosso crédito ainda é muito voltado ao curto prazo. É um cenário de escassez de crédito de longo prazo para esse tipo de financiamento.” 

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Os desembolsos para inovação do BNDES vêm aumentando – passaram de um percentual de 0,7% do total desembolsado pelo banco, três anos atrás, para algo na casa dos 2% entre os R$ 2,7 bilhões previstos para 2012. Mas Helena reconhece que ainda há muito espaço para crescer. “Sempre brinco que o ideal é que 100% dos nossos recursos fossem para inovação. Mas não é assim porque investimos em muitas outras áreas, como infraestrutura, financiamento às pequenas e médias empresas e fundos de pacotes anticíclicos para a economia brasileira.” 

Leia os principais trechos da entrevista com Helena Tenório Veiga de Almeida

Amcham: Por que o crédito, o financiamento à inovação e o fomento são importantes para a inovação?

Helena Tenório Veiga de Almeida:  O crédito é a resposta para a inovação. De forma geral, o crédito é importante para qualquer tipo de investimento. Se o empresário não tiver crédito, terá que buscar de fontes próprias, o que diminui muito a capacidade do empreendedor de ampliar seu investimento. Além disso, o recurso próprio é o recurso mais caro que se pode ter em uma empresa, porque ele espera um retorno sobre aquele empreendimento. Especificamente sobre o crédito à inovação, o crédito conta com o que alguns economistas chamam de falha de mercado. O financiamento privado não contempla o crédito à inovação, não só no Brasil, mas no mundo como um todo, porque envolve muitas incertezas. A inovação, em si mesma, é um risco enorme porque pode dar certo ou não. No Brasil, temos um complicador: o nosso crédito ainda é muito voltado ao curto prazo, a ganhos de títulos do governo que pagam juros altos. A pesquisa e o desenvolvimento de inovação no Brasil precisam de crédito de longo prazo, estável e que aceite riscos maiores. Fornecer isso é a principal contribuição que o BNDES pode dar às atividades inovadoras. Desde 2008 temos a inovação como prioridade e buscamos fornecer crédito nas mais diversas formas: de financiamento até participação acionária, de financiamento à universidade até financiamentos não reembolsáveis. 

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Amcham: Então é essencial para as empresas que inovam deixarem de olhar só para o curto prazo para investir pensando no longo prazo?

Helena Tenório Veiga de Almeida: Empresa que pensa no curto prazo não inova. Os empreendedores são os que olham mais à frente. Por quê? Porque investimentos para a inovação garantem às empresas uma competitividade de longo prazo. É preciso estar atento ao que está acontecendo com o setor de atuação da empresa e com os concorrentes e se reposicionar constantemente. O mercado em que vivemos é muito dinâmico. Empresas que pensam no curto prazo não estão preparadas para enfrentar esse dinamismo da economia atual. Precisamos ‘bancar’ mais os nossos empreendedores. 

Amcham: Quanto o BNDES empresta para inovação e qual o patamar que a sra. considera ideal?

Helena Tenório Veiga de Almeida: Os desembolsos para inovação, no BNDES, vêm em uma crescente. Sempre brinco que o ideal é que 100% desses recursos fossem para inovação. Mas não é assim porque investimos em muitas outras áreas, como infraestrutura, financiamento às pequenas e médias empresas e fundos de pacotes anticíclicos para a economia brasileira. O importante é que o desembolso do banco está crescendo. Temos uma meta ousada de atingir R$ 2,7 bilhões de desembolsos à inovação. Considerando que investimos com essa linha somente em projetos de pesquisa e desenvolvimento, esse volume corresponde a cerca de 2% do total desembolsado pelo BNDES, de mais de R$ 120 bilhões.  Ainda é um número muito pequeno, mas é um crescimento importante porque três anos atrás essa fatia estava em 0,7%. O ideal é ampliar isso, mas sempre lembrando que há outros aspectos que também são importantes para o crescimento das empresas.

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Amcham: Quais aspectos são esses?

Helena Tenório Veiga de Almeida: Temos um amplo leque de formas de apoiar as empresas. Nossos desembolsos vão desde aquisição de máquinas e equipamentos, por exemplo, até o financiamento de projetos novos. Temos também uma parceria com a FINEP para repassar R$ 3 bilhões para contornar a escassez de funding da entidade. Temos linhas de crédito como o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com taxas de juros de 4% ao ano fixas. O Funtec (Fundo Tecnológico) investe em tecnologia com recursos não reembolsáveis. O Criatec, destinado à aplicação em empresas emergentes inovadoras, parte de fundo de capital seed, fundos de venture capital e de private equity. É o que temos de melhor em termos de eficiência, eficácia e efetividade para apoiar a inovação. Estamos desenvolvendo métricas para acompanhar cada financiamento e o impacto dessas inovações na economia e na sociedade. 

Amcham: Qual o principal ator da inovação no Brasil, o setor público ou privado?

Helena Tenório Veiga de Almeida: O protagonismo tem que estar no setor privado porque são as empresas que levam a agenda de inovação do País adiante. O governo tem o papel de dar suporte e ambiente propício para que as empresas inovem.  E é importante que se diga que, do lado das empresas, o pedido de financiamento tem que partir de uma premissa: fazer bons projetos. Nem todos os projetos são de qualidade. O setor privado tem o dever de apresentar bons projetos.