Crise nos EUA, guerra comercial e Reforma da Previdência no Brasil: veja perspectivas para 2019 da MB Associados

publicado 26/11/2018 16h53, última modificação 26/11/2018 17h28
São Paulo – Economista-chefe da consultoria fez previsões de perspectivas econômicas no cenário nacional e internacional
Sérgio Rodrigo Vale

Sérgio Rodrigo Vale é economista-chefe na MB Associados

Como será o ano de 2019 para a economia? Com a iminência de uma guerra comercial, o aquecimento da economia dos Estados Unidos (EUA) e com uma nova gestão no Brasil, com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), o que podemos esperar na economia nacional e internacional?

Sérgio Rodrigo Vale, economista-chefe na MB Associados, apontou quais são as principais tendências econômicas dentro e fora do Brasil durante o comitê estratégico de Supply Chain da Amcham - São Paulo (22/11).

 

Cenário nacional

Para Vale, os dados econômicos alarmantes de setembro deste ano estavam muito relacionados a incerteza política, principalmente com o crescimento do então candidato do PT, Fernando Haddad. Alguns dados demonstram que a economia está melhorando: o crescimento na produção industrial e o aumento do emprego formal, com saldo positivo de 600 mil, são exemplos. “Há uma percepção de que as coisas estão acertadas, e na economia isso está acontecendo. Vemos desde maio (depois da crise com greve dos caminhoneiros) a economia crescendo muito bem – cerca de 2,5%, o que não é pouca coisa”, analisa.

As microrreformas do presidente Michel Temer foram essenciais para essa melhora, Vale aponta. Isso fica evidente com a subida de posição no ranking Doing Business 2019 - mesmo assim, o Brasil ainda está muito atrás de países da América Latina como Chile, México e Colômbia. Com a greve dos caminhoneiros, houve um aumento na inflação, mas ela deve fechar em torno de 3%, segundo o economista.

 

Reforma da Previdência vem em 2019?

Um dos maiores problemas do futuro governo é a Reforma da Previdência - algo que Vale considera como essencial para melhorar a economia do país. “A regra do teto de gastos públicos não dura sem a reforma da previdência”, alerta. Ele ainda não vê em Bolsonaro e sua equipe a habilidade política para passar esse projeto no Congresso e Senado. Isso se agrava com um poder Legislativo extremamente fragmentado, com diversos partidos eleitos nas duas casas.

“Dois terços do eleitorado de Bolsonaro não eram a favor dele, de suas políticas ou da Reforma da Previdência, mas eram contra o PT. Pode ter essa dificuldade de avançar por conta desse perfil do eleitor do Bolsonaro. Ele não teve essa unanimidade toda no país. Acho difícil essa reforma andar, ele [Bolsonaro] não sinaliza querer negociar, e isto não funciona no Congresso”, alerta.

Para o especialista, há três cenários possíveis. Em um bem otimista, em que a Reforma da Previdência passe e que seja uma proposta robusta. Com isso, o PIB poderia crescer até 3% em 2019 e em 3,5% dos próximos anos, de maneira estável. O cenário mais realista é a aprovação de uma reforma que não é a ideal - o crescimento poderia ser de em média 2% ao ano até 2020. Em uma previsão pessimista, em que não haveria nenhuma alteração na Previdência, o país poderia voltar a uma recessão logo em 2020.

 

Cenário internacional 

Para Vale, a economia mundial deve crescer por volta de 3% neste ano. A preocupação maior é com 2019: com o risco de Trump cobrar impostos de importação nos produtos chineses, há chances de acontecer uma desaceleração na economia global. No curto prazo, o economista defende que o Brasil pode colher frutos positivos, aumentando a exportação para os chineses. No longo prazo, no entanto, não há benefícios, já que a economia chinesa deve sofrer caso haja essa taxa. A decisão deve sair provavelmente após a reunião entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping no G20 em Buenos Aires, no dia 30/11.

Outro alerta dado pelo economista é que, com o aquecimento da economia dos Estados Unidos, junto ao crescimento de salários e da inflação, o FED deverá subir os juros do país. “Estamos falando há um tempo que, entre 2019 e 2020, teremos alguma recessão nos Estados Unidos. Este é o segundo maior ciclo de recuperação da história dos EUA - taxa de desemprego baixa, aumento do salário, aumento da inflação e da taxa de juros”, analisa. O aumento da taxa norte-americana, que ficou muitos anos em 0%, deve subir no fim do ano e mais vezes ao longo de 2019, representando um aumento na dívida pública dos EUA e também na dívida das empresas. “Vemos um processo de desaceleração que, a meu ver, pode virar uma recessão quando colocamos uma guerra comercial no caminho. Pelo andar da carruagem, a recessão pode ser em 2019 já”, analisa.

Ao contrário de outros analistas, o economista não acredita que a China ultrapassará os EUA como maior economia do mundo: problemas estruturais, como a falta de um regime democrático, e o envelhecimento da população chinesa, deverão impedir essa escalada. Isso significa que, mediante uma desaceleração chinesa, o Brasil deve se preparar: principalmente o setor do agronegócio, altamente beneficiado pelas relações comerciais com o país asiático.