Delfim Netto: manifestantes têm que participar das mudanças nas urnas, escolhendo com consciência

publicado 30/07/2013 15h46, última modificação 30/07/2013 15h46
São Paulo – Nenhum político está no Congresso sem antes ter sido votado
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As pessoas que manifestaram em junho seu descontentamento com a ineficiência do setor público são as mesmas que deveriam ter escolhido melhor seus representantes políticos. “Não há ninguém no Congresso que não tenha sido eleito pelas próprias pessoas que estiveram nas ruas”, afirma o economista e ex-ministro Delfim Netto.

O economista foi um dos debatedores do seminário ‘Momento Político Atual: Impacto no Negócio’, organizado pela Amcham-São Paulo na terça-feira (30/7), e defendeu maior envolvimento da população na política como passo fundamental para mudar o País. E começando pelas eleições.

“Só podemos falar em sociedade democrática e controlada pela Constituição, e sob vigilância de um STF (Supremo Tribunal Federal) independente, a cada quatro anos. É preciso entender a urna como coisa séria”, argumentou Netto.

“Sem isso, será impossível construir um sistema mais eficiente”, acrescenta ele. O ex-ministro foi crítico ao comentar que os manifestantes também são responsáveis pela ineficiência estatal. “A única pergunta que não se fez a todos aqueles rapazes que estavam na rua, moços, elegantes e com curso superior, é a seguinte: em que deputado você votou na última eleição?”, indaga ele.

Como de costume, o ex-ministro se mostrou irônico: “99,9% vão dizer que não sabem. Os que são mentirosos, vão dizer que votaram no fulano que não se elegeu”, acrescentou. Para Netto, o brasileiro não vê o voto como instrumento de mudança política, e sim como uma obrigação indesejável.

É por isso que entender o processo eleitoral como forma de renovação e mudança é fundamental. “Enquanto o manifestante reclama que não tem voz, é incapaz de perceber que ela tem oportunidade (de ser externada) a cada quatro anos. É naquele dia de outubro em que saímos da cama no domingo de céu azul e dizemos: que porcaria, tenho que votar...”, comenta ele.

Economia em situação delicada, mas não descontrolada

O ex-ministro também falou do cenário econômico, dizendo que as contas públicas revelam desequilíbrio fiscal e a inflação e o câmbio se encontrem em níveis prejudiciais à atividade econômica. Apesar de a situação da economia ser “delicada”, ela é administrável, de acordo com Netto.

“Não perdemos o controle da inflação, estamos apenas desconfortáveis”, comenta ele. De acordo com o ex-ministro, o Banco Central tem dado mostras de que cumprirá seu papel de manter a inflação dentro da meta (4,5% ao ano, com variação de dois pontos percentuais para cima e para baixo), “mesmo que as finanças públicas não ajudem”.

O controle do câmbio também não foi perdido, havendo “expertise suficiente para permitir ajustes de forma ordenada”. Se por um lado a valorização do dólar afeta as importações, por outro aumenta a cotação das reservas internacionais do governo (em torno de US$ 380 bilhões em abril) em reais.

Desconfiança entre governo e empresários

Delfim Netto criticou a falta de confiança entre governo e setor privado. “Criou-se a falsa ideia de que o governo quer capitalismo com lucro zero, sob seu comando. E que o setor privado aceitou”, comenta ele. Para a diferença ser resolvida, cabe ao governo tomar a iniciativa do diálogo.

“O governo tem que se mostrar a favor da economia de mercado, onde os preços relativos determinam a utilização dos recursos, e não a favor de um capitalismo onde o voluntarismo determina os preços”, destaca o ex-ministro.

E o setor privado tem que assumir o papel de desenvolver a economia. “O máximo que o governo pode fazer é discurso, mas quem tem que trabalhar é o setor privado.”