Desaceleração econômica ajudará a refrear consumo aquecido, diz economista-chefe do Royal Bank of Scotland

por andre_inohara — publicado 15/09/2011 13h07, última modificação 15/09/2011 13h07
André Inohara
São Paulo – Para Zeina Latif, Brasil está preparado para enfrentar retração mundial em função do forte mercado interno e do sólido sistema financeiro.
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Uma desaceleração suave da economia brasileira é esperada para este ano, e a intensidade será ditada pela economia chinesa, maior parceira comercial do País. O lado positivo é que isso freará o aquecimento do consumo doméstico e ajudará a equilibrar novamente a oferta e a demanda.

Zeina Latif, economista-chefe para a América Latina (senior economist for Latin America) do Royal Bank of Scotland (RBS), também avalia que, apesar das perspectivas desfavoráveis à vista no cenário global, o Brasil tem mais recursos para enfrentar as adversidades, como um sistema financeiro forte e estável.

Leia a entrevista de Zeina ao site da Amcham, concedida após a reunião do comitê estratégico de Finanças da Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (15/09).

Amcham: Como a economia brasileira deve se comportar, tendo em vista as perspectivas de crise fiscal na Europa e desaceleração de crescimento nos EUA e na China?
Zeina Latif:
Uma das discussões que tivemos no comitê da Amcham foi o quanto o Brasil está blindado para a crise externa. Se o quadro econômico atual, em que não há expectativas de colapso no mercado de crédito mundial, for mantido ou, mais importante do que isso, não houver uma desaceleração forçada da China, não haverá motivos para preocupação com uma grande contaminação da crise por aqui.

Amcham: Mesmo em um cenário pouco pessimista, de que forma a economia brasileira seria afetada?
Zeina Latif:
Passaríamos por uma desaceleração econômica suave. O Brasil depende menos do comércio mundial hoje e ainda é uma economia muito fechada, com nossas exportações para países desenvolvidos menores na pauta comercial. Também vimos uma melhora dos indicadores bancários e financeiros, o que minimiza a possibilidade de contaminação via mercado bancário de crédito. Apesar de toda a crise, vemos que os preços de commodities se comportam de maneira resiliente, o que preserva o Brasil de uma contaminação pelo canal financeiro. Por tudo isso, acredito em uma desaceleração suave - e que, ironicamente, é até bem-vinda. Temos uma economia que opera acima de seu potencial e é importante que haja um desaquecimento da demanda.

Amcham: Como uma desaceleração econômica, ainda que suave, poderia ser bem-vinda?
Zeina Latif:
A crise talvez ajude a reduzir um pouco o crescimento excessivo do Brasil. Estamos nos defrontando com gargalos estruturais e considero importante ter um ritmo de crescimento da demanda um pouco mais moderado, quando ainda não temos uma política clara para resolver as questões estruturais do crescimento. A segunda questão que discutimos no comitê foi o descompasso entre oferta e demanda. Temos um forte potencial de crescimento da demanda, motivada pelo consumo e investimentos. Por outro lado, a oferta está muito restrita. Além de uma agenda política que não está sendo ambiciosa o suficiente para remover os obstáculos de crescimento, existem alguns problemas macroeconômicos. A inflação está persistentemente mais alta, o que impede a queda futura dos juros, e traz várias repercussões na economia - entre elas, um crescimento menor adiante.

Amcham: Entrando nesse assunto, a Amcham formulou propostas para melhorar a competitividade brasileira. Como a sra. vê a questão dos gargalos da economia nacional?
Zeina Latif:
Estamos atrasados na agenda de reformas estruturais. Apesar da preocupação com os grandes eventos esportivos, vejo iniciativas muito tímidas e localizadas, como a discussão da privatização de aeroportos e a agilidade na aprovação de obras. Questões como redução do custo da mão de obra e da burocracia, melhoras nos marcos regulatórios e todos os fatores que penalizam o Brasil não estão sendo endereçadas com rapidez. Deveríamos abrir o leque e ser mais ambiciosos. Não se pode ficar preso apenas à garantia de aeroportos para a Copa, embora isso seja um grande avanço. Se adotarmos outras medidas em paralelo, teríamos ganhos de escala que gerariam um ambiente competitivo mais favorável.

Amcham: Quanto à China, quais os sinais econômicos que vêm sendo emitidos?
Zeina Latif:
Nosso analista de mercado trabalha com um quadro de desaceleração na China, mas que não é significativo. O mais provável é que a economia chinesa cresça menos em função da crise mundial, mas também em função do seu estágio elevado de desenvolvimento econômico.

Amcham: Quais os cenários para PIB, inflação e juros para 2011 e 2012?
Zeina Latif:
A economia passará por uma desaceleração neste ano, com o PIB (Produto Interno Bruto) crescendo em torno de 3,5%, sendo que, no início do ano, as projeções de mercado apontavam para uma expansão de 4%.  A inflação infelizmente será mais alta, entre 6,4% e 6,5%, muito próxima ao teto da meta (6,5%). Hoje há uma rigidez inflacionária muito grande. Quanto à taxa de juro, o BC começou um processo de corte da taxa Selic em setembro. O juro deve cair dos atuais 12%, para 11,25% ou 11% até o final deste ano. Para 2012, o crescimento do PIB deve ficar em 3,8%, o que seria sustentável. No próximo ano, a inflação deve baixar para 5,5% e o juro, manter-se estável. Não vejo espaço para cortes mais expressivos, considerando o nível elevado de inflação.