Descrença no modelo político atual aumenta nível de indefinição eleitoral, diz Tendências

publicado 05/09/2018 12h00, última modificação 12/09/2018 13h33
São Paulo – Para Rafael Cortez, mal-estar faz com que avanços econômicos passem despercebidos

Uma das razões do alto grau de incerteza nas eleições é a rejeição do eleitor ao modelo político atual, de acordo com Rafael Cortez, sócio da consultoria Tendências. “A primeira delas é que o eleitor tem forte rejeição ao governo e ao modelo político. É uma percepção de que a política atingiu patamares não republicanos e isso vai gerando mal-estar crescente”, disse, no comitê de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo em 5/9.

A descrença do eleitor faz com que ele não perceba as melhorias econômicas dos últimos dois anos, continua. “Para a sociedade, a economia não melhorou. Olhando os números, ela de fato avançou, mas isso não bateu na avaliação do governo. Essa percepção foi atrapalhada pelas denúncias de corrupção do presidente Temer e o grand finale, que foi a greve dos caminhoneiros. Ficou difícil vender para a sociedade que o governo mudou para melhor”, acrescenta.

Bolsonaro, Alckmin e Meirelles

Isso explica a grande rejeição da população pelos candidatos associados ao governo, como Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (MDB). De acordo com a pesquisa Ibope de 5/9, Jair Bolsonaro (PSL) lidera as intenções de voto com 22%, seguido por Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), com respectivos 12%. Os demais presidenciáveis Geraldo Alckmin têm 9%, e Fernando Haddad (PT), 6%. Meirelles aparece com 2% das intenções.

Para Cortez, o desafio “nada trivial” de Alckmin é dissociar sua imagem do governo. “O fato de Alckmin ter fechado uma aliança com partidos do Centrão abriu uma janela maior de tempo de TV. Mas se associou a partidos considerados retrógrados. Então a questão é saber se vai dar tempo de ele reverter essa imagem em um mês (tempo restante de campanha).”

Por sua vez, Bolsonaro representa uma alternativa “revolucionária”, que atrai eleitores com posições ideológicas mais polarizadas. “Esse eleitor muito descontente está com o Bolsonaro. Quem quer mais normalidade está hoje muito disperso nas candidaturas mais à esquerda e à direita. Mas eles não têm discurso de ruptura, como o Bolsonaro”, assinala.

De acordo com o especialista, a alta rejeição do eleitorado feminino a Bolsonaro inviabiliza sua vitória. Nos cenários projetados pela Tendências, Bolsonaro tem boas chances de chegar ao segundo turno, mas perderia para todos os candidatos. A única chance de vitória seria contra o PT, segundo Cortez.

Marina, Ciro e PT

As chances de Marina Silva são significativas porque ela tem eleitores de direita e esquerda, de acordo com o especialista. Nas projeções de segundo turno, ela ganharia de todos os candidatos. “O problema é ela chegar lá”, destaca. Por sua vez, as intenções de voto em Ciro estão perto do nível de estagnação. Tanto Ciro quanto Marina ganhariam mais votos caso a transferência de votos do eleitorado de Lula se concretizasse.

Há boas chances disso acontecer caso Lula desista da candidatura em favor de seu vice, Haddad, e a migração de votos vá para esses candidatos. “O eleitor do Haddad não é o mesmo do PT. Então quem vai dar voto para ele é o Lula”, na opinião de Cortez.

O dilema dos políticos

Para Cortez, o político brasileiro vive entre o dilema de promover as “políticas certas” que resultarão em crescimento sustentável, mas que não trarão efeitos imediatos, e as “mini-maldades”, medidas populistas que surtem efeitos no curto prazo.

“Quase sempre é uma combinação das duas coisas. Não é algo completamente irresponsável, porque senão o sistema derrete. Mas está longe de fazer com que se tenham políticas que durem mais tempo e aumentem a produtividade e o crescimento potencial”, disse.

É uma questão de sobrevivência política, acrescenta o cientista. Na hora de votar, o eleitor vai escolher o governante que foi responsável por melhorias sensíveis. “O eleitor olha para o resultado. Se o político entregar o resultado na ponta, pode ser por privatização ou não, isso não é relevante. Ele vai votar naquele que melhorou o seu padrão de vida”, afirma.

Presidenciáveis Amcham

Como parte do esforço de melhorar o ambiente de negócios no Brasil, a Amcham-Brasil tem convidado os principais pré-candidatos à Presidência da República para debater seus programas de governo com o empresariado na série ‘Seu País, Sua Decisão’.

Já participaram da série os presidenciáveis Geraldo Alckmin (24/7), Álvaro Dias (18/6), João Amoêdo (14/5), Henrique Meirelles (23/4) e Ciro Gomes (14/3). A Amcham-Brasil é apartidária e democrática, e reúne cinco mil empresas associadas, sendo 85% de origem nacional.

Cada presidenciável recebeu as propostas de competitividade da Amcham para um Brasil + Competitivo, baseado em quatro pilares: segurança jurídica e atração de Investimentos; modernização do sistema tributário; integração do Brasil nas cadeias globais de valor; melhoria da relação bilateral Brasil-EUA.

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