DuPont: “Não basta uma boa produção de alimentos. É preciso que as pessoas tenham dinheiro para comprá-los”

por marcel_gugoni — publicado 06/08/2012 16h52, última modificação 06/08/2012 16h52
São Paulo – Em entrevista, executivo também defende o modelo de parcerias público-privadas como uma das saídas para elevar investimentos e enfrentar gargalos que comprometem infraestrutura do setor.
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A produção agrícola brasileira tem diante de si gargalos que não se relacionam somente a deficiências logísticas e de infraestrutura que emperram o transporte e prejudicam a armazenagem de grãos, carnes e outros alimentos. O consumidor tem pouco poder de compra. “Não basta só a haver uma boa produção de alimentos. É preciso que as pessoas tenham dinheiro para comprá-los”, afirma Zacarias Karacristo, presidente regional da DuPont Nutrição e Saúde.

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Essa é a síntese de uma pesquisa apresentada por ele durante o evento ‘Competitividade Setorial – Agronegócios’, realizado pela Amcham-São Paulo na última sexta-feira (03/08). O relatório coloca o País em 31º lugar em um ranking global de segurança alimentar.

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“Se compararmos com os indicadores de cinco ou dez anos atrás, realmente há uma curva de melhora muito grande, mas há espaço para um aperfeiçoamento ainda maior”, afirmou Karacristo em entrevista ao site após o evento.

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A infraestrutura deficiente é o grande limitador da melhor distribuição de alimentos pelo País, diz ele. Para enfrentar essa questão, uma das saídas é o modelo de parcerias público-privadas. “Muitas coisas podem ser feitas pela iniciativa privada, sobretudo no que toca às Parcerias Público-Privadas, que ajudam muito a fomentar os investimentos”, avalia. “Mas há também a questão do financiamento externo e os bancos de desenvolvimento internacionais, como o Banco Mundial, como importante fonte de recursos.”

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A mensagem que fica aos empresários é de que é necessário, sempre, “buscar eficiência, cooperação e condições de melhoria tanto do mercado interno quanto de competitividade global”.

Veja os principais trechos da entrevista de Zacarias Karacristo:

Amcham: O que de mais importante as duas pesquisas – da Amcham e da DuPont – apresentadas no evento mostram sobre a agricultura brasileira?

Zacarias Karacristo: Elas mostram uma convergência muito grande de cenários nos principais problemas. Há uma convergência [de críticas dos empresários do agribusiness] nas questões da infraestrutura, tributária e outras. O crescimento da economia, por exemplo, mostra a urgência de melhorar a renda geral. O Brasil é a sexta maior economia do mundo, mas ainda está muito embaixo no ranking de PIB per capita por poder de paridade de compra. Não basta só haver uma boa produção de alimentos. É preciso que as pessoas tenham dinheiro para comprá-los. Outro ponto é a questão de disponibilizar comida, isto é, como transportar, armazenar, exportar etc.

Amcham: Por que esse índice do PIB per capita por poder de paridade de compra é importante?

Zacarias Karacristo: É um número que ajuda a dar visibilidade ao poder de compra da população e ao acesso à diversidade e à qualidade dos alimentos consumidos. Entendo que qualidade e segurança dos alimentos vão além da questão da fome. Se olharmos número por número, [a produção mundial de alimentos] atenderia todas as necessidades do ser humano. Mas há outros fatores que influenciam a distribuição, como preços e safra. Esse número mostra só a ponta da demanda. O que é importante é que ele está melhorando no Brasil. Se compararmos com os indicadores de cinco ou dez anos atrás, vemos uma curva de melhora muito positiva. Mas há espaço para melhorar mais. Estamos entre os 31 primeiros e ficamos acima da média nas três categorias da pesquisa dado o comprometimento em segurança alimentar dos padrões internacionais. Estamos bem no índice de população abaixo da linha de pobreza e possuímos tarifas de importação relativamente baixas para trazer produtos, sem falar na menor volatilidade de produção agrícola e na disponibilidade de micronutrientes da nossa dieta. Dentro da América Latina, o Brasil é líder em disponibilidade, apesar da baixa renda per capita.

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Amcham: Onde o Brasil pode chegar a partir de uma melhora?

Zacarias Karacristo: Não tem limite. A pesquisa da DuPont mostra que os países que se saíram melhor foram os que apresentaram grande estoque de suprimento, alta renda das famílias, que influencia bastante no indicador, e baixo percentual da renda familiar destinado à compra de alimentos. Os piores índices aparecem justamente nos países onde a questão da renda nacional e das pessoas é muito baixa. A grande limitação é a infraestrutura, um ponto claramente levantado na pesquisa da Amcham e que, comparado a outros países, é uma coisa que precisa ser melhorada. Isso depende de como e com que velocidade podem ser resolvidos esses problemas.

Amcham: Qual o papel das empresas na resolução desses gargalos? 

Zacarias Karacristo: Muitas coisas podem ser feitas pela iniciativa privada, sobretudo no que toca às Parcerias Público-Privadas, que ajudam muito a fomentar os investimentos. Mas há também a questão do financiamento externo e os bancos de desenvolvimento internacionais, como o Banco Mundial, como importante fonte de recursos. Os empresários têm que buscar eficiência, cooperação, condições de melhoria de mercado interno quanto de competitividade global.