Economia brasileira teria de ser quase cinco vezes mais produtiva para alcançar o nível americano, diz Marcos Lisboa

publicado 04/10/2016 15h21, última modificação 04/10/2016 15h21
São Paulo – Além da falta de educação e investimentos, regulação permite sobrevivência de empresas ineficientes
marcos-lisboa-7069.html

Se todos os setores da economia brasileira fossem tão eficientes quanto a americana, a produtividade subiria quase cinco vezes (430%), afirmou o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, no seminário ‘Brasil 2017: Perspectivas para o país’ da Amcham – São Paulo, na terça-feira (4/10).

Para Lisboa, a baixa produtividade do Brasil é generalizada. “O Brasil não é pobre apenas porque não faz iPods ou porque há muita agricultura e pouca indústria. Somos pobres porque não somos produtivos, porque não deixamos nossa empresas improdutivas falirem”.  Nossa produtividade, acrescenta, “é baixa tanto em serviços de baixa como de alta tecnologia. Somos ineficientes em todas as atividades.”

A produtividade de um trabalhador brasileiro equivale a cerca de 20% da registrada por profissional americano, constata o economista. Na América Latina, o Brasil perde em eficiência para o Chile, onde a produtividade local corresponde a 50% da americana. Sem mudanças estruturais, a tendência é cair ainda mais.

Com o fim do bônus demográfico a partir de 2020, haverá menos jovens ingressando no mercado e, portanto, mais escassez de profissionais. “Até a década de 1990, a entrada maciça de jovens no mercado de trabalho mascarava a baixa produtividade. A renda per capita do país subia, mas a renda do trabalhador caía em relação ao mundo”, constata o economista.

Atualmente, a renda per capita do brasileiro é de doze mil dólares. Isso equivale a quase um quarto da renda americana, de 50 mil dólares. Com investimentos em educação e atividades produtivas, a geração de riquezas no Brasil seria bem maior. “Se um brasileiro tivesse a educação de um americano médio e suas fábricas, estradas e infraestrutura, ainda assim teríamos 60% da renda de um americano.”

Outro fator de ineficiência no Brasil é a baixa qualidade da regulamentação, que permite a sobrevivência de setores pouco competitivos. “Temos um conjunto excessivo de regras que protegem empresas ineficientes, seja via regimes tributários ou compras privilegiadas do setor público. Além disso, o sistema jurídico tem dificuldades em aplicar regras de falência”, disse Lisboa.

A preocupação em preservar empresas e empregos é justa, mas Lisboa afirma que as consequências são prejudiciais à economia. “Temos que entender que isso nos torna mais pobres.” Para o economista, é preciso criar um ambiente institucional favorável ao empreendedorismo, permitindo que as empresas mais qualificadas sobrevivam e as ineficientes desapareçam. “Uma boa economia de mercado funciona dessa forma.”