Economia circular busca romper a lógica de extrair, consumir e descartar

publicado 11/11/2016 14h28, última modificação 11/11/2016 14h28
São Paulo – Sistema propõe crescimento econômico sem gerar impactos negativos ao meio-ambiente
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Seria possível pensar em um sistema produtivo que não gerasse resíduos ou não tivesse qualquer efeito negativo para o meio-ambiente? Essa é a proposta da economia circular, um conceito que têm ganho a atenção das empresas. “A ideia de economia circular é uma narrativa econômica. Não estamos falando de sustentabilidade, de fazer menos mal e muito menos de ganhar tempo. Queremos dissociar a geração de valor e desenvolvimento socioeconômico das externalidades negativas, pensando na limitação de recursos finitos”, explica Luisa Santiago, líder do programa de economia circular no Brasil da Ellen Macarthur Foundation. A especialista participou do comitê estratégico de Sustentabilidade da Amcham - São Paulo na última quinta-feira, 10/11.

Para Santiago, a principal ideia da economia circular é trabalhar com um modelo em que a economia é regenerativa e restauradora por princípio. Há várias formas de pensar em uma economia circular, de acordo com a especialista. Uma dessas formas é pensar em dois nutrientes básicos: os biológicos – aqueles que são reincorporados à biosfera e que tem capacidade de regenerar o capital natural – e os técnicos, aqueles que são materiais finitos e que devem ser mantidos nos ciclos produtivos, a fim de diminuir a extração.

“A ideia de repensar esse ciclo de nutrientes técnicos é pensar como fazer esses materiais, componentes e produtos estarem em seu mais alto nível de valor e utilidade em vários ciclos produtivos, o tempo todo. Isso acaba em várias formas de gerar valor nos negócios. Por exemplo, olhamos para que o ciclo técnico seja um ciclo cada vez mais de uso, e não de consumo”, exemplifica.

A especialista acredita que hoje se conheça apenas de 5% a 10% do potencial do modelo circular. Estudos realizados pela Ellen Macarthur Foundation mostram o enorme potencial econômico do novo modelo: na Europa, por exemplo, isso poderia significar €1.8 trilhão de benefícios anuais até 2030 em mobilidade, alimentos e ambiente. Ao mesmo tempo, significaria também uma redução de emissões de gases poluentes em 48% e 32% menos extração de recursos naturais.

Um dos primeiros passos para fazer essa transição de um modelo linear para o circular é incorporar esses aprendizados. “Com uma visão de economia circular, a verdade é que a gente pensa um modelo positivo desde o princípio: eliminar a noção de resíduo e enxergar nesse modelo onde estão as oportunidades. como as indústrias, governos e a academia podem se inserir nesse novo modelo”.

Na avaliação dela, o Brasil tem enorme potencial na economia circular, por ser um ecossistema econômico que engloba mercado produtor, manufatureiro e consumidor em um mesmo território, o que possibilitaria a criação de ciclos próximos e fechados. “Hoje a economia brasileira se baseia muito em setores extrativos, que sofrem com mudanças no mercado global, com crise de commodities, volatilidade de preços e redução de demanda da China. Várias indústrias hoje precisam se ressignificar e encontrar novos horizontes de geração de valor. O que temos no território do Brasil é nosso grande ativo, que exploramos pouco e também de uma forma errada. Quase 90% do território brasileiro é coberto por capital natural, há oportunidades para transformar tudo isso em modelos produtivos regenerativos por princípio”, aponta.

 Case Embraco

A Embraco é uma das empresas que adotou medidas pensando na economia circular. A fabricante de compressores herméticos para refrigeração, desenvolveu um programa de reciclagem de equipamentos eletrônicos ao fim da vida útil. A partir dessa operação, a empresa fabrica novos produtos, o que faz com que aquele material que seria descartado seja reaproveitado. Esse sistema assim reduz a extração de matéria-prima e o envio de resíduos eletrônicos a aterros.

Para Luiz Ricardo Berezowski, diretor da unidade Nat.Genius da Embraco, o programa permitiu unir a criação de valor e utilização responsável de recursos naturais, tudo incorporado à estratégia de negócios.